domingo, 8 de novembro de 2015

Sob um mar

                                                                           
          Sopraste com o teu vento, e o mar 
os cobriu; afundaram-se como 
chumbo em volumosas águas.
Êxodo 15:10



Em primeiro lugar, trêmulos estão os lustres sob as águas geladas, estorricados e quebradiços apesar da umidade excessiva. Em segundo lugar, a grande ostra ralada próxima ao poste marinho. Em terceiro lugar, a noite insossa e disforme sobre o mar. Em quarto lugar, a falta de preenchimento dentro dos ossos. Iniciamos enfim.

Dentro de um mar gradativamente mais ácido pisamos na saliência de um pequeno rombo dentro da profundidade terrificante. Perdidos no interior das algas. Sem referências, sem perspectivas e sem sonolências. Rompendo películas imperceptíveis/sugando a seiva de árvores subaquáticas. Imploramos para que outras ostras nos olhem e realizem o procedimento adequado, que é o mínimo de expressão dentro do mar. Dentro de uma escuridão atemporal e vazia – a porosidade do mar é causada pelo próprio sal que coagula na superfície (perdoem-nos o excesso de cientificidade). O sal dissolve nossos calcanhares, o rosto pregado num ponto excessivo, os rins que boiam como esponjas quase gelatinosas. Naquela escuridão infinita de um mar acoplado na base da noite, continuamos a penosa coleção de ossos enquanto os alvéolos espasmam com a falta de oxigenação apropriada. As estátuas fincadas no solo marinho olham com ternura para o miolo da escuridão. Por vezes uma coreografia de microrganismos/raramente um feixe de luminosidade faz imaginar que, de algum lugar do solo, um tufo de areia pode bruscamente saltar e descobrir coisas vivas e escuras. Enrolam-se precisas nos calcanhares as algas, pois desconhecem suas próprias razões. Elas pressentem o rombo suave junto ao príncipe de uma velha imensidão (quase) concisa. E não há nada a ser feito a respeito. Primeiramente olhamos como quem não reconhece nada além de uma neblina formada pelo deslocamento dos cardumes. As gotículas que formam uma nuvem dentro das águas e a dificuldade de enxergar sem uma ostra sequer para encaixar nos olhos. Perguntamos a alguém que tenha de sobra uma ostra em cada olho se seria possível emprestar-nos uma para grudarmos no nosso. Dentro do escuro. As coisas passam a compor um silêncio em que os pequenos cristais tremelicosos do lustre emudecem e turvam nossa travessia para baixo. Na cavidade imprecisa nada consegue ser confortável. Não há absolutamente ninguém aqui agora, nem nós mesmos. Há coisas que são pequenas ratoeiras, perdidas no espaço. Se não fosse o mar, dunas de poeira cobririam as palavras não vistas e os olhos. Alguém um dia vai ouvir o grito das ostras? Sempre tão empoeiradas e vestidas com a mesma ossatura, ninguém suspeita de nada. Pensam alguns que se trata de umidade e poeira calcificada, e nada mais. Mas assim como uma nuvem microscópica não é só uma nuvem, um fundo de ostra também não é só um fundo. Em todo caso, melhor romper enquanto sentamos na varanda e sentimos o peso dos raios descendo até a copa das árvores. No fundo mais inóspito do mar é que a regressão encontra uma flor e aparecemos com as costas arqueadas e as pupilas dilatadas recordando o rosto vermelho e olhos úmidos sem comoção. Diante do monstro sagrado que consumiu o tempo: rosto vermelho e sangue que escorre de lábios murchos, sem nenhuma razão. Até quando as coisas estarão fora de nós para observarmos? Um sentimento feito de isopor, incompreensível e levemente dolorido, manchado de líquidos antigos. Esperamos a guerra no asfalto sem rir e sem chorar. Sem um padrão de medida definido, como medir as coisas? Como comparar a efetividade com a ideia? Como avaliar a palidez das horas, como julgar a falta de fundamento dentro do mar? Pois se dentro da fossa submarina a distância de uma ponta a outra não pode ser calculada, já que sequer existe uma ponta ou outra. O índice da profundidade é só ela mesma. Ali dentro, o mar perde uma localização concreta: quantos palmos existem para esquerda? para cima? para baixo? para trás? não se sabe. O ponto não é localizável, e quem ali se encontra sabe que nem o fundo nem a superfície são localizáveis. Pode-se tatear sem pressa através de um corredor imaginário, e ainda assim não se chega ao fundo, nem à superfície, nem a um canto encaixado a uma caverna ou a uma fossa abissal. Para um animal marinho gigantesco, pode-se dizer que é uma liberdade poder movimentar-se sem reservas e sem mover um fio áspero sequer ligado a uma ostra. Para nós, a ausência de padrão de medida paralisa o movimento. Se ao menos chegássemos ao fundo, poderíamos ter a certeza do caminho a ser tomado então: o de volta. Não há sustentação, porém. E nem uma sustentação invertida: um teto que nos impeça de subir ou uma parede na qual possamos bater o nariz. A liberdade coincide com uma falsa liberdade delirante. Ela é apenas a distorção esfumaçada de uma vida em que cada osso estaria encaixado no lugar em que deveria estar. Mas sob um mar o rosto chega a aparecer e então o colapso conduz ao esquecimento, e é preciso esquecer. Viver é sempre artificial/estar grudado ao canto morno da parede. Sentir o ar correr sem mistérios e não entender como pode um ar correr sem mistérios, e não entender como não é possível entender que um ar corra sem mistérios, e então pegar esse bloco inteiro e aplicar a ele seu próprio raciocínio: não se pode entender que. Após a operação completa, o resultado é: "não se pode entender que". E se rompemos a operação e descartamos todo pensamento, o resultado é: "não se pode entender que". De qualquer ponto que se parta, o resultado é sempre o mesmo. Rimos tanto que nossos dentes caem e os perdemos sob um mar. Assim, com tinta de lula escrevemos os caracteres incompreensíveis que compõem o padrão de medida. Mas pedimos em silêncio para que nos ajudem. Ajudem-nos a untar os lustres com óleo oxidado, ajudem-nos a filtrar a água macia onde as ostras morreram de inanição! Temos de fazer algo para acalmar os nervos e nutrir as pequenas crateras que tremulam: embalar ostras em alto mar, descascar nozes até o fim dos tempos, etc. Para os espelhos da noite, o corpo envelhece mais rápido e por vezes até some. Uma nova escolha pode determinar que nos próximos tempos uma flor brote suave de cada poro. Uma alegria funda pode também brotar de cada poro. A oleosidade do lustre quase se deixa escapar. Desconstruímos o rosto mole: as bochechas fartas deixamos amortecendo no balde com gelo. Os olhos são cuidadosamente espetados em arames e funcionam como brincos tímidos. O olhar difuso dos olhos teve de ser descartado para não deixar o prato intragável. A testa trêmula não tem função. As pálpebras se desfazem suavemente e perfumam as horas que continuam a passar para os outros. Com o conhecimento técnico adequado as orelhas estão marinando no caldo de alecrim e papoulas. O peito é fraco e seco, precisa de catorze dias para absorver o tempero. Nada pode sair dos eixos precisos. Olhem e se desesperem: como poderíamos interferir? Viajando centenas de milhares de quilômetros apenas para entregar-lhes uma caixa de ostras carameladas? não é possível. É aqui que não devemos ficar. Mas eles ririam, eles ririam tanto! Seríamos suaves... e inclusive a chuva, que gostaria de cair agora, deixaria para cair mais tarde. Soltaríamos rojões pelo céu de ventos calmos. Enquanto eles seguram nossa mão, lembramos daquela tarde lacônica: distraídos partíamos o crânio em partes menores para facilitar o derretimento no purê. O cérebro era vivo e brilhante, ainda que morto. Distribuíamos as fatias pelos pratos conforme a necessidade e o merecimento. Os lábios rachados foram para o monstro que soube parti-los (sabíamos que ele ficaria muito feliz em emoldurá-los e pendurá-los na melhor parede que pudesse encontrar). Fomos até a horta e trouxemos um punhado de flores azuis que maceramos junto com o sangue antigo/escorreu um óleo rançoso que tivemos de despejar nas hortênsias que não existem. Hoje é outro dia e também não existe. Aliás, o dia de hoje já está bem mais envelhecido que um fóssil, e isso eles não puderam chegar a saber. Segue o jantar em fervura: duas folhas verdes pesadas cobrem o fundo do prato. E o acompanhamento suave: uma lata de crisântemos em conserva? deus do céu... (os túneis dentro do silêncio se desmancham pouco a pouco. Um por um, os resquícios de conforto se dissolvem, uma lua que reflete no mar se expande noite adentro). Quantos dias esperamos por eles? dias? horas? anos? O silêncio é índice da infinitude. Mas um dia teremos de morrer. Não entendemos quem são eles. E nem a razão pela qual eles vêm nos buscar antes que a madrugada esteja adequadamente consolidada. Suas mãos tão geladas paradoxalmente só conseguem amornar as nossas. Colocamos o ponto final no fim de uma janela. De cujos vincos caem grãos de poeira pulverizados que colam no rosto úmido e são pequenos absurdos – como tantos outros. Não há eixos, nunca houve. Cada ostra dentro de cada olho eu amo tanto. Alegremente eles vão tomar tudo o que é nosso no interior da casa, tudo o que velho e inútil, porém nosso. Eles vão borbulhar no mais escuro da noite, vão tomar para eles os olhos avermelhados que outrora piscavam como um grilo vivo.

Em primeiro lugar, trêmulos estão os lustres sob as águas geladas, estorricados e quebradiços apesar da umidade excessiva. Em segundo lugar, a grande ostra ralada próxima ao poste marinho. Em terceiro lugar, a noite insossa e disforme sobre o mar. Em quarto lugar, a falta de preenchimento dentro de um osso.

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

nota no.1


O pequeno cálice, o som em meu umbigo, o som, o cálice vibrante continua a soar por muitos dias. Quando afinal as vibrações esmaecem, há uma presença em mim, uma presença. Algo semelhante a um besouro, não, a uma aranha de movimentos lentos. Logo não é mais uma aranha e sim um pássaro de asas curtas, sem bico, os pés cortados, um pássaro cinzento, mais tarde um peixe quadrúpede, aflito e inquieto, nadando com esforço em meu útero verde. Abro a janela e os olhos do peixe se iluminam, choro e o peixe entristece, tenho sono?, adormece, corro e suas pernas se agitam, assusto-me e ele se encolhe, alegro-me e as suas escamas resplandecem. Sem que eu saiba, há em mim uma cisão, de mim mesma estou nascendo, invado-me. Já não é um peixe, mas um cão, um cão ornado de plumas, com grandes barbatanas, que me ocupa. Tem pés e mãos. Às vezes estende a perna, com o pé fura-me o ventre, o baço, eu me contorço de dor. Ergue o punho e me fere o coração, atravessa-o: surgem manchas roxas no meu corpo. Lambe-me a garganta e eu vomito. Ligo tudo isto, aturdida, à ave que desce sobre meu ventre e, muitas vezes, muitas, sondo as nuvens. Mas a ave não volta, nunca mais, nunca, não reaparece.  


Osman Lins /
Avalovara


quarta-feira, 9 de setembro de 2015

pergunta



Quem são as nuvens microscópicas que cabem dentro de um sonho? 

sábado, 29 de agosto de 2015

En cendres



Cada dia em que começamos a existir, a radiação eletromagnética é inutilmente duplicada e atravessa nossos corpos de uma ponta até outra. Se a roda gira em sentido contrário, então por aqui não podemos passar. O rio está empedrado, cristalizado e morto. O teto está todo coberto com coisas que amamos e deixamos desaparecer. Por aqui não podemos passar. Ali no fundo eles nos olham, sempre opacos e enigmáticos. Corremos por um pontilhado no chão e chegamos até uma urdidura onde as coisas então acontecem. Sentados sobre o caos e olhando, o mundo passa mais rápido. O tempo nunca passa. O mundo sim.

Trazemos para o colo morno os quilos de plantas que antes mergulhamos em um banho suave para um cozimento lento e hipnótico. Quando o tempo quebra, é o som dos galhos secos em delicado incêndio. Pelo pontilhado chegamos a uma área onde as coisas despencam em um vácuo que passa despercebido. Quebramos esses galhos – e ali mais no fundo, enquanto a redenção não chega. Alguns galhos tombam queimados, outros apontam em riste para todos os pontos que as dimensões de uma floresta são capazes de sustentar. Temos de quebrá-los para continuar a travessia que não queremos percorrer. Por aqui não podemos passar. O único modo de partir os galhos é com as mãos secas, e refazer todo o percurso. Vamos adiante, quebrando aqueles galhos? No quintal? Na floresta? Vamos adiante, não olhe para mim: o vento. Uma ostra em cada olho. Vamos, me ajude! Rompa os galhos, aqueles galhos ali em cima, aqueles galhos mais no alto. Não! Não dentro dos ossos! Por deus que não... Ali no alto, sim, isso. Os galhos sim, os troncos não! (afinal, quem pode ser amado no interior de um tronco?). Os galhos mais frágeis (os galhos são a própria floresta existindo em flor suave). 

Da radiação escapa uma faísca que incendeia nossos cabelos com muito cuidado, e confundimos o calor excessivo com uma enorme doçura que ganhamos mesmo sem merecer. Com o cérebro em cinzas, adormecemos durante seis dias e temos catorze sonhos muito saudáveis com: ostras em lata, gatos vazando sangue, barrigas abertas em formato de “U” que ninguém se dispõe a costurar, crianças carregando gansos pelo pescoço, possibilidades fechadas, pessoas rindo sem posição numa mesa, etc. Depois de seis dias acordamos e, diante do espelho, enxergamos a resposta estampada na testa: nós passamos sempre, até o ponto em que nos tornamos um outro. A informação assusta – rimos de nervosismo e alívio. Daqui é impossível proceder, mas também uma solução pode brotar incólume (especialmente para nós, que sempre nos recusamos a ter uma vida além da nossa). Agora o conforto cresce dentro do silêncio como um bolo no forno. A festa logo atinge seu ápice. Já quebramos todos os galhos possíveis e, antes que os outros cresçam, dobramos as camadas de água morna por um perfume que preencha de uma só vez as horas insossas, mas sempre em silêncio: Jasminum (em silêncio), Melissa (em silêncio), Matricaria (em silêncio), Camellia (em silêncio), Rosmarinus (em silêncio), Malus (em silêncio), Illicium (em silêncio), Humulus (em silêncio), Hypericum (em silêncio), Lavandula (em silêncio), Cymbopogon (em silêncio). Cinnamomum (em silêncio), Elettaria (em silêncio), Zingiber (em silêncio), Vanilla (em silêncio), Hibiscus (em silêncio), Syzygium (em silêncio), Laurus (em silêncio). Fim. 

Tivemos um grande momento rodando por esses arbustos mais altos. Aliás, foi o melhor momento que já conhecemos, por isso agradecemos-lhes: obrigado por nos fazer afundar – nos lodos mais mórbidos! Por deus do céu... Obrigado. Seguramente o momento mais agradável que conhecemos foi todos eles rindo e dançando conosco em nosso inferno, e a festa foi simplesmente exemplar. O dia de hoje termina e a radiação toda diminui após penetrar cada poro, cada célula, cada vaso, cada gérmen de tumor. Amanhã o procedimento recomeça. Esperamos ansiosamente com olhos úmidos que mal se fecham de tanta interrogação. 

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sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Inventário de viagem


 
Assim que pusemos os pés nas terras gélidas, tivemos uma grande ou pequena surpresa ao perceber que, enquanto estivemos fora, as plantas quadruplicaram de tamanho, os gatos engordaram sobremaneira, as rachaduras da parede chegaram silenciosas até o chão e irromperam em tufos sísmicos, etc. Os olhos sonambúlicos, porém, continuam intactos, ainda que cada vez mais pálidos. Entramos em contato com eles numa experiência especular. Nada foi dito.

Os cadáveres ainda dormem no berço/os talos dos brócolis se desmancham macios. Retiramos cada ostra da água com cuidado, mas simplesmente não pudemos metabolizá-las. Todos os dias ali dentro foram o mesmo dia, e todos os anos foram o mesmo ano. Não soubemos apurar com eficiência se a irrazão na qual adentramos com moderada intensidade é aquele lago habitual de nonsense do qual nunca conseguimos de fato escapar, ou se se trata da forma atual e mais bem acabada da própria razão. Não importa. A realidade é toda fragmentada, vazada, maior que ela mesma, e nenhuma teoria coerente é capaz de apreendê-la de forma adequada. A falta de sentido, contudo, não é algo derradeiro, mas sim a via pela qual tombamos na realidade. Por vezes a falta de sentido é uma lousa lisa e escorregadia na qual as coisas não conseguem grudar. Por vezes, porém, as coisas grudam. Olhamos abismados para o mosaico quase compreensível que se forma e, ainda assim, o mosaico não é o sentido. Mas é que essa etapa não anula a etapa anterior. As coisas não preenchem a falta de sentido assim como móveis preenchem um cômodo. Uma coisa não está nem antes, nem depois, nem sobre e nem embaixo da outra, e sim ao lado. Uma não é sem a outra. Oscilamos desesperadamente entre elas sem saber que a verdade não está fixada em um dos lados, mas na travessia entre eles. A travessia é a própria realidade, e não há oxigenação apropriada. Atravessamos roucos e tontos para o outro lado enquanto as horas derretem. Recolocamos as ostras na água antes de voltar (elas choram enquanto dormem e nos colocam pouco a pouco no mais intolerável estado de nervos). As coisas são sempre pontudas e um pouco exaustivas. Em desespero, descobrimos o balcão dos ossos e recobrimos imediatamente antes mesmo de inalarmos o bolor.


Por fim, coletamos alguns objetos para trazer conosco para o lado de cá: alguns quilos de concreto esfarelado, sementes da falha geológica incrustada nas paredes e dois crânios murchos que guardamos embaixo da cama para que velem nosso sono. Trazemos também muitas perguntas mornas e úmidas dentro de um cobertor, e depois de dias e dias ainda não encontramos respostas. Deixamos os talos e as ostras, não há lugar para acomodá-los. Deixamos pessoas, pedras e olhos fantasmáticos. Trazemos junto dois pares de olhos que nos olham e amam em silêncio e carregamos sempre no bolso como amuleto. Todo o resto é disforme e não encontra palavra para caber aqui.  

quinta-feira, 12 de março de 2015

Saída de emergência



1. Antes

Ontem acordamos em um buraco que um sonâmbulo cavou em segredo. Ele disse: não estou interessado. Depois disso o planeta caiu/o sangue coagulou. Ele estava no vento/passava no rosto um tufão. O ar na praia também é salgado. Os corpos emboloram na calçada. Trazemos os cadáveres para o berço/cobrimos com um pano sujo o balcão onde os ossos perdem sozinhos a poeira. A secura do dia levanta como uma tosse. A música que vibrava no ônibus que tremia. Ele disse: o ar na praia é salgado e o tufão (conforme o vento venta). Respondemos: moramos na praia e nossa casa está rachando. Começamos, enfim, a apalpar a realidade sem pressa. Um amor pelas coisas e pessoas infelizes que cresce até não poder mais. Sentamos por um instante e observamos os detalhes de um corpo vivo que envelhece. Os cabelos frágeis se desligam do couro e planam durante segundos no ar pesado até caírem numa velocidade inferior à da gravidade. Os fios soltos compõem um mosaico desafinado no chão. Cobrimos o marasmo com nossos finos fios de cabelo inutilizados. Rompemos os anos num piscar de olhos. Nenhuma vontade é maior que a de morrer sem se reconciliar. Não entendemos nossa própria linguagem e nem a dos outros. 

2. Depois 


Cavamos um túnel no quintal e escapamos ainda com a poeira do fracasso colada à retina. Nos espatifamos em ostras sonolentas (o instinto de sobrevivência ordena que afundemos antes que o assoalho esteja coberto por fios em silêncio). Cavamos um buraco onde plantamos os destroços, que nem sequer precisam de adubo para brotar. Não tememos mais as memórias cáusticas, o tempo passando, as cavernas tumorais, etc. Por um átimo de segundo olhamos para trás e a massa morna se aproxima em passos suaves, quase sem peso. Ele nos olha deitado. Nós o esmagamos. Nada deu certo. Nós o esmagamos. Olhos amarelos nos olham. Nós o esmagamos. Nós temos de perder. Depois as coisas se amontoam insones e piscando sobre a sombra redonda. Não entendemos. Trocamos a comida de filhote pela de adulto com a esperança de que ele cresça mais rápido e não precise sofrer. Os olhos amarelos agradecem mudos e também umedecem. Vamos embora sem dizer uma palavra sequer. Cortamos os ombros, as cebolas, os eclipses, os rostos suaves e sérios. Não sabemos como viver desse ponto em diante. Os olhos amarelos ficam pequenos no horizonte, porém não somem. O cheiro macio, o triângulo inscrito no rosto, a barriga tenra e morna. Aglomerados numa memória rachada. Trazemos conosco o recheio dos olhos amarelos. Pulverizamos na casa/cresce um oco frio doloroso na espinha (que só um grito abafa). Os destroços brotam e pisoteamos freneticamente para atingir a raiz. O passado não mais se reconhece como catástrofe (um sol possível surge quase líquido de tanta timidez). Por ora respiramos resolutos e aliviados. Sentamos e aguardamos até a próxima parede rachar.  

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

 

All of the birds are laughing
Come on let's all join in

domingo, 23 de fevereiro de 2014

"A tarântula e o pernilongo"



Esse texto é uma proposta de interpretação de Have one on me, de Joanna Newsom. A questão central a ser desdobrada é o processo de rememoração do passado vivenciado pela narradora através de fluxos de consciência e da sobreposição de estados lúcidos e alucinatórios.

Primeiro apresento aspectos biográficos de Lola Montez (o eu lírico da letra) pré-1846, isto é, antes da chegada de Lola à Baviera. Depois, passo a uma interpretação ponto a ponto da letra, à luz dos dados históricos e biográficos coletados.

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Maria Dolores Eliza Rosanna Gilbert nasceu em Limerich, na Irlanda, em 1821. Concluiu sua educação formal em Paris e estudou dança na Espanha. Passou por países como Escócia, Inglaterra, Índia, Espanha, França e Polônia antes de chegar na Alemanha, em 1846. O Teatro Real de Madri e a Ópera de Paris foram dois dos lugares onde ela foi prestigiada por suas apresentações. Tinha cachos castanhos e olhos azuis, descritos por um jornalista polonês como “possuindo todos os tons de azul das dezesseis variedades do miosótis”. Mentia compulsivamente. Dizia a todos que nascera em Sevilha em 1823, e que se chamava Maria Dolores Porres Montez. Ficou conhecida por todos como Lola Montez. Segundo inúmeros relatos da época, ela não dançava (tecnicamente) bem. Entretanto, sua postura voluptuosa e rosto e corpo deslumbrantes causavam furor em todos os lugares por onde ela passava, e o grande público não se importava com as limitações de sua coreografia. Em muitas das cidades europeias por onde passou, Lola fora reconhecida como uma das mais belas mulheres de sua época. Era um ímã para os homens, mas gostava de mantê-los à distância: a decisão tinha de ser dela.

Misturava-se com a aristocracia internacional e com a realeza. Foi assediada por homens poderosos, dentre os quais o vice-rei da Polônia, que ofereceu-lhe uma propriedade rural, um título e inúmeras joias. Ela recusou. Ele zangou-se, ameaçou deportá-la e infiltrou subordinados em sua apresentação para que a vaiassem. Forçada a interromper o espetáculo, Lola desceu e contou à audiência polonesa as ameaças do vice-rei. Resultado: foi aplaudida e escoltada por uma multidão de poloneses. Este incidente coincidiu com um dos muitos levantes de Varsóvia contra o domínio czarista.

Depois partiu para Paris, onde namorou Alexandre Dujarier, um dos líderes do Partido republicano francês. Era extremamente inteligente e falava 9 línguas com algum grau de fluência, segundo relatos da época. Frequentou círculos boêmios intelectuais em Paris, nos quais frequentemente era a única mulher admitida. Foi amante de Franz Liszt, conheceu George Sand, Alexandre Dumas, Balzac e Victor Hugo. Com as discussões dos círculos que frequentava, Lola tomou conhecimento das massas oprimidas e do poder manipulador dos jesuítas. Era fascinada por política e tornou-se uma republicana assumida.

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Se há ou não razões autobiográficas para J.N. ter decidido compor sobre Lola Montez, e mais especificamente sobre a relação entre Lola e o rei Luís I, é algo sobre o qual podemos apenas especular, e que evito nesse texto. O motivo: não há informação suficiente para embasar conexões entre a vida pessoal de Lola e de Joanna, praticamente nada além do fato de o condado onde Joanna cresceu, localizado no estado da Califórnia, ter seu pico mais alto e dois lagos na Tahoe National Forest nomeados em homenagem à Lola, que viveu na região entre 1853 e 1855. 

Conforme palavras da própria J.N. à época do lançamento do disco (que leva o mesmo nome da música), a narrativa presente em Have one on me procede de um estado mental da narradora, que oscila entre lucidez e uma espécie de alucinação febril. Esses dois estados não são, contudo, rigidamente contrapostos. Em ambos é possível notar um tom intensamente nostálgico e emocional, em que sentimentos múltiplos (e muitas vezes contraditórios) se misturam para compor não apenas a autocompreensão que Lola tem de sua vida, mas também, em certos momentos, a compreensão que os outros (os cidadãos bávaros, os jesuítas, ou mesmo o próprio rei Luís I) têm a respeito dela. Essa oscilação leva muito frequentemente à interpretação de que a história é narrada ora por Lola, ora pelo rei, ora pelos “outros”. Essa visão me parece equivocada. E pela seguinte razão: há uma clara tensão entre a autoimagem de Lola e sua fama, e essa tensão parece ser descrita do ponto de vista da própria Lola, justamente em um momento em que ela é capaz de fazer uma retrospectiva de sua vida que articula seus principais aspectos, mesmo aqueles sombrios e aflitivos que ela, quando jovem, não podia admitir ou mesmo visualizar adequadamente.

A hipótese mais concreta que encontrei foi a de que a narrativa parte de um estado alucinatório vivenciado por Lola nos dias finais de sua vida, no Asteria Sanatorium de Nova York, em dezembro de 1860. Nessa época, ela já tinha o lado esquerdo totalmente paralisado, possivelmente em decorrência de sífilis cerebral. Entretanto, se essa hipótese é a mais plausível, ela não é, contudo, inteiramente consistente, e tentarei mostrar o porquê mais adiante no texto. É possível pensar também que esse estado de insanidade seja decorrente de uma embriaguez, pois há referências ao abuso de álcool ao longo da música (sobretudo na parte final). Na dúvida, prefiro tomar como determinantes as palavras da própria J.N.: “alternating between kind of a fever and a breaking of the fever”.

Em todo caso, não há problemas em afirmar que a narrativa é dividida em três partes distintas: um momento inicial e um momento final de uma aparente lucidez (os cerca de cem segundos iniciais e os sessenta finais), e entre eles um longo período predominantemente alucinatório e repleto de oscilações de humor, em que Lola relembra momentos significativos de sua vida. É preciso marcar duas coisas: primeiro, não se trata de um momento estritamente alucinatório entre dois momentos de pura lucidez, pois a tese a ser defendida é a de que esses dois extremos se mesclam justamente para possibilitar a rememoração da verdade do passado (embora talvez se possa dizer que os momentos inicial e final sejam mais lúcidos, até mesmo do ponto de vista da melodia e da entonação). Em segundo lugar, paradoxalmente ou não, a abertura e o fecho da música, isto é, os momentos aparentemente mais sóbrios, são os de mais difícil compreensão, o que também colabora para a tese de que é só pelo recurso a distorções e imagens absurdas ou hiperbólicas que Lola consegue relembrar aspectos (em maior parte dolorosos) do passado. Alguns deles, como veremos, serão ficcionalizados por ela, mas trata-se de uma ficção utilizada para fazer a verdade transparecer com mais nitidez. 

Para ser mais específico, o bloco intermediário da música parte de uma nostalgia eufórica que acompanha a chegada de Lola à Baviera, passa por uma rememoração da relação entre Lola e o rei Luís, com a qual a narrativa vai ganhando um peso colérico, e arrebenta no final do bloco intermediário com um momento sarcástico, amargo, efusivo e quase que inteiramente fictício. Mas é importante marcar que a narrativa é toda temporalmente descontínua. Há saltos abruptos entre fases distintas, às vezes dentro de um mesmo verso. Tentarei, contudo, na medida do possível, encaixar os elementos em uma ordem cronológica. Para isso, pularei a parte inicial e começarei pelo bloco intermediário da música. Depois volto ao começo e engato junto o final.

Não é fortuito que Lola comece seu processo de rememoração do passado com uma menção à sua famosa “dança da aranha” (“here’s Lola – ta da! – to do her famous spider dance for you!...”). Trata-se dos anos dourados de sua vida, em que ela obtivera considerável prestígio com suas apresentações de início de carreira em cidades como Madri, Varsóvia, Berlim e Dresden. Em sua mais famosa coreografia, várias aranhas de borracha preta presas ao vestido de Lola caíam no chão enquanto ela se contorcia e fingia expressões de horror (há relatos de que em certos momentos ela erguia sua saia tão alto que a audiência podia perceber que ela não usava nada por baixo). Por fim, ela esmagava as aranhas com os pés, acompanhando o ritmo da música.

Mas aqui, essa lembrança já é trazida para o contexto em que Lola conhece o rei Luís I da Baviera, em 1846. Lola tinha 25 anos quando chegou em Munique. O rei Luís I, como tantos outros antes dele, ficou fascinado ao conhecê-la. Na letra, Lola se refere a ele como daddy longlegs (termo usado na Grã-Bretanha para um certo tipo de mosquito ou pernilongo), e se refere a si mesma como uma tarântula. Essa imagem pode ser explicada a partir de diferentes ângulos. Primeiramente, daddy longlegs” também se assemelha a outros vocativos de natureza paternal evocados na música (“pretty papa”, “pa”). Luís I era 35 anos mais velho que Lola, e vocativos dessa natureza, ao menos na língua inglesa, podem carregar alguma conotação sexual. Há interpretações também no sentido de que haveria aqui uma referência ao sentimento da falta de uma figura paterna, já que o pai de Lola morrera de cólera quando ela ainda era pequena. Em segundo lugar, Lola vai se referir a Luís I também como um “six-legged millionaire”, o que favorece a compreensão de daddy longlegs como pernilongo (é que, confusamente, esse termo também pode remeter a uma ordem ou família de aranhas. Seria Luís, afinal, uma aranha também ou um pernilongo?). Uma coisa é certa: um pernilongo seria uma presa fácil para uma tarântula, e essa foi a visão da relação entre Lola e Luís difundida tanto na época quanto posteriormente pela maioria dos biógrafos, em outras palavras, a de que Lola era uma manipuladora insensível em busca de poder e dinheiro e que usou o rei Luís exclusivamente como meio para esses fins. J.N. desconstrói essa visão. Uma biógrafa certa vez afirmou: “existem muitos relatos do fascínio do rei Luís pela dançarina, mas poucos fazem uma tentativa sincera de explicar os sentimentos de Lola pelo rei”. Se anteriormente deixei aberta a questão da razão do interesse de J.N. pela figura de Lola Montez, talvez essa seja uma possível resposta: tratar-se-ia de uma tentativa na contracorrente da reconstrução biográfica “canônica”. Mas essa é apenas uma especulação.

Na verdade, o relacionamento de Lola e Luís teve fortes motivações políticas. Luís I era um governante patriota e um amante das artes. Decidiu que transformaria Munique na cidade mais bela da Europa: guarneceu as avenidas com árvores, erigiu parques e museus, construiu a primeira ferrovia do país, inaugurou o primeiro barco a vapor e edificou um canal que ligava o Danúbio ao Meno. Quando Lola chegou em Munique, Luís I já reinava há 20 anos e era um autocrata extremamente popular. Politicamente, era partidário dos conceitos de liberdade e progresso. Com a ajuda de Luís, Lola estreou no Teatro da Corte. Ela e o rei tornaram-se melhores amigos.

Uma parte dos cidadãos de Munique, contudo, não compartilharam do mesmo entusiasmo. Pouco tempo depois da chegada de Lola, já fervilhavam histórias sobre seu passado. Impulsiva, escandalosa, liberal, anticlerical, mentirosa, impulsivamente franca. Essa era a imagem que boa parte dos cidadãos bávaros tinha dela. A imprensa jesuíta referia-se à ela como “a prostituta apocalíptica”.

No último período de seu reinado, Luís I viu seu poder definhar pouco a pouco com o fortalecimento da influência dos jesuítas, que tinham uma postura claramente reacionária. Se por um lado Luís I tinha o reconhecimento dos cidadãos bávaros por ter transformado a cidade provinciana em um grande centro de aprendizado (Munique havia se tornado uma cidade universitária), o desejo do monarca de proceder em suas reformas políticas havia quase que se exaurido completamente. Ele abandonara progressivamente suas ideias liberais para tratar da vida cultural de seus súditos, e após o movimento revolucionário de 1830, o poder dos jesuítas havia aumentado ainda mais. De repente, Lola aparecia para lembrar-lhe de suas convicções políticas de juventude, de sua intenção de ampliar a liberdade política de seu povo, e, sobretudo, do entrave que um governo controlado pelo clero representaria à conquista dessa liberdade. A influência que Lola passou a exercer sobre o reinado de Luís I causou revolta entre os católicos e conservadores, dentre os quais constava também uma importante parcela dos estudantes.

Mas o rei simplesmente fechava os ouvidos às críticas dirigidas à sua amada, para quem escrevia poemas todos os dias. Um mês após tê-la conhecido, Luís colocou Lola em seu testamento e comprou para ela uma casa na Barerstrasse, reformada por seu arquiteto pessoal conforme as especificações da dançarina. “Tudo que Lola quer Lola consegue” é o que se ouvia nas ruas de Munique quando itens muito apreciados deixavam a pinacoteca para adornar a casa de Lola. Esses eventos, juntamente com sua influência progressiva sobre o rei, tornavam-na cada vez mais mal afamada. Ela não recuava. Acusava a todos que discordavam dela de serem jesuítas. Andava pelas ruas de Munique com seu buldogue inglês, que eventualmente mordia os padres que passavam. Como os principais cargos acadêmicos da universidade eram nomeados pelo clero, os professores se posicionavam contra Lola. Já os estudantes estavam divididos. Um grupo chegou a formar uma fraternidade, que se reunia regularmente na casa de Lola para discussões.

Há um verso que faz clara referência aos conflitos entre Lola e os jesuítas: “at night I walk in the park with a whip between the lines of the whispering Jesuits who are poisoning you against me”. De fato, os esforços não apenas por parte dos jesuítas, mas também de outras camadas da população e da mídia para separar Lola e Luís se intensificavam através de cartas anônimas, panfletos caluniosos e caricaturas. Lola era acusada de ser amante dos estudantes da fraternidade, de despir-se diante da janela aberta, de obrigar suas costureiras a ajustarem suas roupas ao seu corpo nu, etc. Entretanto, mesmo com toda pressão popular e até mesmo com uma carta do papa Pio IX repreendendo Luís por “afastar-se do caminho da virtude”, o rei também não recuou. Ao contrário, propôs inclusive conceder à Lola a cidadania bávara, o que gerou uma revolta sem precedentes.

Mas que ainda não foi o fim. Após nomear novos ministros, Luís foi aclamado com entusiasmo por uma parte considerável do povo e também por governos estrangeiros. O grito “Lola e liberdade” passou a ser ouvido nas ruas. Aproveitando o momento de popularidade, o rei recompensou Lola com a nacionalidade bávara, nomeou-a condessa de Landsfeld e entregou-lhe a Ordem de Santa Teresa com o aval da rainha. Lola recebeu também uma propriedade rural e uma renda anual de vinte mil florins. Isso não apenas aumentou o furor da aristocracia e do partido conservador, como também acirrou a rivalidade entre os estudantes conservadores e os da fraternidade de Lola.       

O ápice dessa rivalidade se deu quando um professor católico muito popular censurou o rei por motivos morais, e Luís obrigou-o a demitir-se. Uma demonstração dos estudantes em defesa do professor em frente à casa de Lola transformou-se em tumulto. Enquanto a multidão jogava pedras e quebrava janelas, Lola brindava às pessoas de sua sacada com champanhe e atirava doces. Os estudantes ficaram enfurecidos. Após uma dessas grandes manifestações contra Lola, o rei fechou a universidade e expulsou todos os estudantes estrangeiros. Essa ordem teve terríveis consequências, pois havia ao menos mil estudantes estrangeiros em Munique. No dia seguinte, uma multidão reuniu-se nas praças exigindo que Lola fosse expulsa da cidade. Os ministros informaram ao rei que não poderiam garantir que a polícia seria capaz de manter a ordem por muito tempo. Em 11 de fevereiro, Luís I assinou uma ordem banindo Lola Montez da Baviera.

Lola partiu de trem, e há trechos da letra de J.N. que captam esse momento traumático: (“...and then, later, on a train. It was dark out, I was half-dead”). Depois de todas as declarações de eterna lealdade por parte do rei, uma decisão como essa fez com que Lola despencasse de uma posição em que ela pensava estar segura. Na verdade, ela não compreendia nem a atitude do rei, e talvez menos ainda a do povo, que fora libertado do cativeiro jesuíta graças aos seus esforços. Na música, a partida de Lola Montez parece estar sendo contada do ponto de vista daqueles que estavam fora da relação, e consequentemente de um ângulo bastante superficial (“and the old king fell from grace while Lola fled to save face and her career”), como se Lola tivesse espontaneamente decidido deixar Luís após tê-lo feito perder todo o prestígio que ainda lhe restava.
   
Lola partiu para a Suíça, depois para a Inglaterra, depois para os EUA, depois para a Austrália (há uma referência na música às apresentações de Lola na cidade de Castlemaine, em um teatro recém-inaugurado no qual ela teria sido a primeira a se apresentar. Nessa estrofe, Lola parece narrar do ponto de vista do rei, que estaria desapontado ao ver até que ponto a dançarina teria sido capaz de ir por fama e dinheiro (“Miss Gilbert called to Castlemaine by the silver dollar and the gold glitter! / well, I've seen lots but never, in a million years would think to see you, here”)). Por último, Lola voltou aos EUA, onde viveu até seus últimos dias.

Há relatos (sem confirmação), porém, de que Lola teria voltado algumas vezes à Baviera para rever o rei. Segundo uma biógrafa, “numa carta para seu amigo von der Tann, Luís declara que Lola implorara para que ele fosse unir-se a ela na Suíça, mas ele preferiu permanecer em Munique”. Há um trecho em que fica visível um sentimento sólido da parte de Lola em relação ao rei (“Though the long road begins and ends with you...”). O que não basta, contudo, para apagar todo transtorno passado (“...I cannot seem to make amends with you, Louis...”), até mesmo porque uma multidão de bávaros raivosos estaria sempre à espreita para capturá-la (“...when we go out they’re bound to see you with me”).

O que nos leva a um aspecto muito importante da narrativa: Lola não é estritamente vilã nem vítima. Por um lado, sua má fama rescendia em todos os cantos (“heaven has no word for the way you and your friends have treated poor Louis / may God save your poor soul, Lola”), e ela era vista como a tarântula predadora que queria capturar o pernilongo em sua teia (“you caught a fly, floating by / wait for him to drown in the dust; drown in the dust of other flies”). Esse comportamento não pode ser enquadrado em termos morais, pois é tão somente o modo de funcionamento natural dessa criatura (“whereby the machine is run and the deed is done”). Por outro lado, ela também é “poor Lola”, e se sente uma criança indefesa nos braços do rei, não hesitando em clamar por sua proteção paternal em momentos de fragilidade (“there’s a big black spider hanging over my door / can’t go anywhere, anymore / tell me, are you with me?”). J.N. realmente não parece estar interessada em uma caracterização de cunho moral. Ela entende que Lola era apenas Lola: destemida e frágil, cruel e dócil, traidora e traída, manipuladora e manipulável. Uma das análises que li apresenta uma descrição que vale a pena ser citada na íntegra: “At the end of the day, Lola was in fact a rather erratic person who lived on the edge all the time, without any kind of boundaries or attachments to society, or even reality, and if you add the excess and the alcohol factor (very obvious in this song) and the need to love and be loved back, it does make sense and it is beautiful. She never did and still does not know who they were, the same way she never truly got to understand who she was and what she was looking for in her wreckless search”. Essa visão não me parece, contudo, inteiramente acertada. Ela perde de vista o engajamento político de Lola, e o fato de sua influência sobre o reinado de Luís I ter atingido uma tal dimensão que, para muitos, a verdadeira líder do liberalismo na Baviera seria Lola, e não Luís. Assim, não me parece nada factível que a dançarina estivesse completamente descolada da sociedade. Mas prefiro não desdobrar essa questão.

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Passemos para o momento final do bloco intermediário, a meu ver a parte mais extraordinária da música. Lola começa a descrever a cerimônia do casamento entre ela e Luís I. Um detalhe, porém: eles nunca se casaram. Certamente, como expressão de um desejo não realizado, essa estrofe é quase que inteiramente ficcionalizada.

No lugar de uma cerimônia solene e feliz, o casamento é um caos completo. O momento de jogar o buquê, por exemplo, parece terminar em tragédia (“I threw my bouquet and I knocked ‘em dead”). Surgem então mais referências a um estado de embriaguez (“bottle of white, bottle of red”), que ajudam a explicar os saltos cada vez mais frequentes na narrativa. Lola aparece ainda mais emocionalmente expressiva (“helpless as a child when you held me in your arms and I knew that no other could ever love me as you loved...”), e em seguida implora para que o rei permita que ela permaneça na Baviera, ou peça para que ela fique (“but help me! I’m leaving!). Lola parece então descrever o momento de sua partida, agregando elementos aleatórios por meio de fluxos de consciência, e as memórias correm tão rápido que é quase impossível examiná-las em alguns momentos. E aqui começa a construção da imagem de um descompasso entre uma realidade projetada e a realidade crua, de algo que deveria ser belo, mas não é – como a sensação áspera da barba por fazer, no momento em que o rei agarra Lola e aperta-a contra si. Em seguida, um amontoado de lembranças de diferentes épocas da vida de Lola, combinadas para formar uma única situação. Lola diz “that night I came upstairs, half-dead and, in your kindness, you put me straightaway in the cupboard...”, o que parece remeter a algo que aconteceu antes de sua ida para a Baviera: quando Lola estivera na Rússia, há relatos de que o czar Nicolau a trancou em um guarda-roupa no momento em que eles tiveram uma de suas discussões políticas secretas interrompida pela aparição repentina de um funcionário (o que mostra que o interesse de J.N. por Lola Montez ultrapassa a relação entre a dançarina e o rei Luís). Em seguida, mais referências a álcool (“...with a bottle of champagne”) e à viagem de trem (“and then, later, on a train”). No trem, ela vê uma estrela caindo no céu, mas não se trata de uma estrela cadente, para a qual ela poderia fazer um pedido, mas sim de um pedaço de carvão cuspido por Deus, que é um rato encurralado (talvez uma alusão ao modo como a própria Lola se sentia no momento?) (“as if god himself spat like a cornered rat”).

O clímax se dá quando Lola se dirige a Luís e, em tons de súplica, pede a ele para que beba junto com ela (“I really want you to do this for me, will you have one on me?” / “don’t you worry for me! Have one on me!”). Em seguida, ela repete o gesto sarcástico que fizera de sua sacada, diante dos estudantes bávaros em fúria, mas dessa vez voltando-se para o rei: ela não somente quer brindar com ele, mas também à ele. Essa é a expressão máxima da fragilidade de Lola, que ironicamente celebra a rapidez com que o rei foi capaz de descartá-la no momento em que teve de optar entre ela e a manutenção de seu reinado (“meanwhile, I will raise my own glass to how you made me fast and expendable / and I will drink to your excellent health and your cruelty / will you have one on me?). Com base na melodia é possível notar que esse é o momento mais vibrante da música toda. Me parece que a continuação poderia ser decifrada como uma canção sendo tocada pela banda durante a insana cerimônia do casamento de Lola e Luís (e ela dissera anteriormente: “you asked my hand / hired a band...”). A euforia se intensifica progressivamente até arrebentar o instante e fazer a narrativa retroceder para o início. Lola acorda do sonho, da embriaguez ou da alucinação febril e recobra (alguma) consciência.  
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Terminemos com a abertura e o fecho da música, que são quase idênticos. A primeira cena é o momento da manifestação raivosa em que Lola brinda aos estudantes de sua sacada. Mas há elementos difíceis de serem bem encaixados com base puramente nos acontecimentos históricos. Lola ouve um copo cair (seria a taça de champanhe?) e pensa: “well, that’s why they keep them around”. O que eles “mantém por perto” seriam as tropas e os guardas que protegiam Lola dos ataques dos manifestantes. Estes vão se tornando cada vez mais violentos, e Luís refere-se a eles como “blackguards” (em francês, canaille), isto é, o “povão”, a “ralé”. Em algum momento, alguém é ferido e morre (“the blackguard sat hard, down with no head on him now”), e Lola se sente mal por não conseguir sentir-se mal o suficiente para deixar o rei orgulhoso (pois ela sabe que ele se sentirá mal por aquele que morreu, enquanto que ela encontra-se inteiramente indiferente, brindando e atirando bombons na multidão).   

Logo adiante, Lola está escrevendo uma carta para Luís, supostamente pouco tempo depois de sair da Baviera (o que romperia com a interpretação segundo a qual a narrativa seria proveniente dos dias finais da vida de Lola, e daria margem para pensarmos que a música inteira se passa no momento em que Lola está bêbada e indo embora de trem, o que é plenamente plausível): “by the time you read this I will be so far away...”. Em seguida, ela parece lamentar novamente sua própria partida, ao mesmo tempo reconhecendo que, nas circunstâncias dadas, nenhuma outra via era possível ("daddy longlegs, how in the world am I to be expected to stay?").
         
O fecho repete a primeira estrofe e termina com Lola perguntando reiteradamente a Luís se ele está orgulhoso dela, se ela conseguiu sentir-se mal o suficiente, se ela agiu certo. Como afirmei no início, a abertura e o fecho são os momentos mais difíceis para extrair uma interpretação convincente, e essa que apresento aqui de fato não me parecer ser. Mas há algo que podemos captar e que se sobressai a esse emaranhado de detalhes que não podemos adequadamente entender. Trata-se da ânsia de Lola pela aprovação do rei, que faz com que ele reapareça como a figura paterna capaz de amá-la como nenhum outro conseguiria. Embora haja momentos em que Lola pareça conscientemente se vitimizar para fazer o rei sentir-se mal por ela.

Cabe portanto perguntar, com base na complexidade abismal que é a relação entre Lola e Luís, se a imagem predador/presa ou tarântula/pernilongo seria mesmo pertinente. Do ponto de vista da opinião popular, é evidente que sim. Do ponto de vista de Lola ou do rei, contudo, essa imagem desmorona com facilidade. Mas, vale a pena lembrar, não é apenas o ponto de vista de Lola que parece estar sendo levado em conta na narrativa, por mais que a voz seja dela. É a tensão entre a imagem socialmente construída de uma manipuladora fria e inflexível e uma autoimagem muitas vezes fosca, trêmula e incerta que me parece guiar a reconstrução do passado empreendida pela narradora.



Referências: Os dados biográficos e históricos foram, em sua maioria, coletados a partir do livro Cupid and the king, de HRH Michael of Kent. As interpretações que me foram úteis retirei de songmeanings.com, genius.com e allthebirds.tumblr.com. A entrevista mencionada está aqui. A música juntamente com a letra está aqui. Uma versão ao vivo memorável está aqui. Não posso deixar de mencionar também o filme extraordinário de Max Ophüls intitulado Lola Montés, de 1955. 

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Não perder de vista

 

que o sentido está nas coisas. O sentido está nas coisas. O sentido está nas coisas. O sentido está nas coisas. O sentido está nas coisas. O sentido está nas coisas. O sentido está nas coisas. O sentido está nas coisas. O sentido está nas coisas.

sábado, 23 de novembro de 2013

gato ou cachorro

 

Sem respostas.

O dia é cinza e perfumado

Dor nos ossos.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

domingo, 13 de outubro de 2013

Sobrevivência no escuro

 

Os dias nos derretem pouco a pouco. Iniciamos nosso ritual sabático que nos conduzirá a uma infelicidade mais suave e indolor que a habitual: espalhamos pedras pelo chão bruto, coletamos meteoritos numa peneira, vestimos os casacos nos sapos, arrancamos nosso pâncreas com um pegador de macarrão, fritamos os pâncreas das crianças e, durante todo o processo, nos esquecemos de que deveríamos ser felizes. Choramos pelos dias e horas que se desmancham e pelos sonhos atoleimados no quintal. É inevitável uma dose de comoção. Depois cozinhamos crânios humanos, flores incolores, pequenos repolhos, crianças antigas, sonhos enlatados, olhos e beiços azuis. Fazemos tudo isso pela nossa sobrevivência. Há pessoas que encontram a felicidade dentro da tristeza circundante. Nós simplesmente não fazemos ideia. Somos iguais a eles: não nos importamos em ser infelizes, por toda a vida. Repetimos para nós mesmos inúmeras vezes: a tristeza não importa, o que importa é o mundo: os carros atravessam sem pensar, as pessoas vivem e envelhecem, as árvores despencam com os temporais. Mais nada. Se há ou não relâmpagos, se as casas caem ou não dos barrancos, bem, então podemos começar a viver? Não. Não é possível realizar esta inferência. Tudo o que temos hoje para viver são as pedras, os meteoritos, os olhos azuis, deus e os demônios.

O que pesa para nós, em primeiro lugar, é a dificuldade das horas, das coisas, das pessoas, etc. Olho para as rachaduras da parede e sei que elas são difíceis. As pessoas são difíceis quando existem e caminham. Estabelecer ou aprofundar contato com elas também é difícil. A dificuldade ao longo de milênios, juntamente com os fracassos e as perdas, cristaliza-se em pedras. Os demônios nos oferecem resistência e consolo diante das pedras. As pedras são nossas escolhas mal feitas. Mesmo quando muito antigas, elas incidem sobre nós por toda a vida. As pedras depositadas no jardim, ao contrário do que pensam as pessoas, não são tudo o que há, mas apenas uma espécie. Pois há também os meteoros e os meteoritos, que são pedras cósmicas. E há também as pedras radioativas e cancerosas sobre nossos ombros. E também as pedras vulcânicas esfuziantes. E também as pedras submarinas, salgadas e desbotadas. E há também pedras vulcânicas submarinas, que não existem, embora sejam possíveis. Por exemplo: quando há pedras sobre nosso peito, mal conseguimos respirar. Nos lembramos daquele lugar, daquele lugar lá no alto, mais uma vez, mais uma vez. E não adianta pra nada. Quando estamos inquietos ou desesperados, presos sob uma rocha, os demônios nos ligam de madrugada, e suas vozes etéreas adentram com facilidade nossa cabeça oca. Eles nos dizem com suavidade: “fuja, fuja para sempre. Esqueça, esqueça para sempre. Corra apenas atrás do que você acredita”. Então respondemos em prantos que não acreditamos em nada, ao que eles replicam: “Corra apenas atrás do que você não acredita”. Decidimos não correr e aceitamos, relutantes e sonolentos. Então dormimos e, ao descermos ao inferno, respiramos melhor. Morremos por algumas horas, e a casa, que normalmente é um marasmo, torna-se quase tolerável. É quando recebemos a visita dos meteoritos, que são a esperança morta e cintilante no céu. Dentro do sonho as coisas explodem com maior intensidade. Tornamo-nos uma só pessoa e enfrentamos a realidade de modo certeiro e impreciso. Essa única pessoa desabafa sem pudores: por que não sei reagir aos cometas? Por que não sei caber nas situações dos outros? Por que ainda penso que preciso de um estopim? Por que os anos passam e, no entanto, não saem de mim? Pois bem. Há várias respostas possíveis. Trabalhamos com várias possibilidades, e nenhuma delas é possível. Depois de tantos questionamentos, sonho por um instante com as coisas como elas deveriam ser e, quando acordo, despenco novamente para a realidade velha e lascada de muitos eus. Quando nos damos conta de que já não estamos mais dentro do sonho, lamentamos e imploramos para que nos deixem estar calmos e sonolentos, pois já estamos pagando pelo que fizemos. Estamos permanentemente em estado de desconforto profundo.

Não há comunicação possível. Ele nos deixou abruptamente, sem respostas. Ele nos olha e diz: fodam-se! E no fim das contas está certo! Por deus que ele está muito certo. Pergunto-lhe: onde você se meteu? De novo: onde você se meteu? De novo. E ele continua certo, para sempre. Certo dia bebemos um chá tão rosa, tão magenta, tão vermelho. Depois houve o dia em que o frio era intenso e as risadas nos faziam esquecer que havia o mundo. Tremíamos de felicidade e, contudo, não éramos felizes. Ainda bem que hoje os dias por lá estão altos e com sonoridades sofisticadas. Ao menos é o que se espera. Retorno o telefonema que não recebi e digo-lhe: por que o vinho e o livro? Não obtenho resposta. O livro nos diz que não há e nunca houve esperança. Mas já sabemos disso há tempos. Pergunto-lhe em seguida: o que se pode dizer sobre estar frio e já ser outubro? Ele diz: foda-se. Sorrio e volto aos meus afazeres. Preciso terminar de decepar a cabeça das galinhas e das crianças. Faço tudo com tanta doçura que até parece que estou dormindo. É um dos raros consolos que tenho, pois os dias seguem mais esqueléticos que meus ossos engordurados. Os dias são esqueléticos e somos incapazes de viver em sociedade. Indignamo-nos com deus e o mundo, e estamos atravessados de uma ponta a outra pelo silêncio. Como podem os tumores, ao crescerem, serem um “outro” e, ao mesmo tempo, nós mesmos crescendo dentro de nós e cheio de nós? Revoltei-me com deus e o mundo quando vi que seus tumores espalhavam-se por dentro e por fora, causando-lhe dor insuportável e obrigando-lhe a enfrentar a frieza de uma família podre como nem mesmo um cadáver consegue ser podre. E é completamente impossível que deus possa existir. Mas isso todos nós em sã consciência já sabemos. Não faz sentido existir deus nem nós. Deus, você que é uma estátua morta e lascada, por favor, sente-se conosco. Conte-nos sobre todo o sofrimento humano desde o início da história da humanidade, todo o sofrimento que você assiste com olhar sádico e sorriso malicioso, sem fazer nada. Deus, o altíssimo deus, spangle maker, esqueceu-se de nós. Esquecemo-nos dele antes. Deus é um torturador, ele vive à base de sangue coagulado e grão de bico. Deus é uma farsa tanto quanto nós. Por favor, venha até nós, abençoe nossas barrigas oleosas, abençoe nossa ignorância infinita, por favor, venha até nós em forma de neblina. Tenha piedade do deserto glacial infinito dentro de nós. Por favor, venha e sente-se ao nosso lado. Conte-nos todas as mentiras de que precisamos para sobreviver e, quando finalmente pudermos viver, conte-nos as verdades. Venha até nós transfigurado numa salvação alegre, num tronco de árvore alegre, numa criança decepada alegre, num passado vertiginoso alegre, num reencontro com defuntos alegre. E perdoe nossa falta de bom senso, de sanidade e de coerência para nos expressar.

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Finally we are no one

 

Olharam-se por um átimo de segundo antes de consumarem juntos o ritual. Naquela época, ainda não sabiam que o tempo passava, e que o passado mal digerido criava bolhas por dentro do corpo que explodem e ardem com certa regularidade. Que bom, porque o futuro estava por fazer. A verdade é que eles eram cúmplices desde muito cedo. Depois de anos, no dia e hora marcados, eles se encontraram para realizar aquilo que vinham planejando com bastante minúcia: pular do telhado com alegria. Era um dia tão forte e alegre que se duvidava inclusive que era dia e tinha sol e era alegre. Pombas gordas de sangue escorriam pelas ruas, árvores murchavam quietas em depressão e pessoas andavam pelas calçadas sem saber absolutamente nada de nada do mundo e da vida. Ela era magra e tinha olhos puxados. Ele era branco e levemente roliço. Aquele era um dia de muita alegria, com certeza. Seria essa, de modo cômico ou grotesco, a redenção? Eram sete horas da manhã, hora de tomar uma atitude drástica e irracional. Deram-se as mãos e pularam. Ele quebrou um fêmur. Ela, duas costelas e um braço. Saíram caminhando pela rua como se nada tivesse acontecido, quase roxos pela falta de ar decorrente mais de um ataque de riso do que propriamente da queda. Eles nunca mais conseguiriam controlar o riso. Era engraçado demais que após uma vida de sofrimento as pessoas apodrecessem e deixassem de existir. Era de um mau gosto tão cáustico e insuportável, que era preciso muita mitologia para encobrir uma verdade tão drástica como essa. Mas morrer não seria o final mais alegre e grandioso? Sim. Mas ainda assim era feio, sujo, incômodo, ilógico. Ainda bem que poderiam viver sem ver a verdade. Não era suficiente adquirir ilusões, era preciso vivê-las, transformar a realidade cinzenta numa grande mentira cheia de amor e doçura, uma peça de teatro de baixa qualidade. Nessa peça, as pessoas entravam e saíam da nossa vida e sabe deus pra onde iam, e sabe deus pra onde nós íamos. Não havia sentido na superfície das coisas, e muito menos no interior delas. Poder-se-ia tomar sorvete com aquelas pessoas? Nossa, mas claro que com certeza que sim. Poder-se-ia adentrar suas vidas medíocres, para que pudéssemos esquecer por um instante de nossa própria mediocridade? Claro, pois certamente. Mas apesar disso, eles optaram por outras aventuras. Como ainda estavam vivos, decidiram passar o dia temperando as aftas da boca com sal e limão, fritando bifes e vendo filmes lentos e interessantes. Assim que anoiteceu, decidiram atear fogo em seus cabelos. Fizeram isso ao ar livre, num local com pouca iluminação, e que baita espetáculo pirotécnico que sucedeu-se. Depois, com o cérebro em cinzas, saíram pela rua cantando alto as músicas que os fizeram ser quem eram. Depois conversaram sobre extraterrestres e clamaram por uma abdução alienígena, que infelizmente não viria a acontecer. Também lamentaram a idiotice das horas e dos dias e levaram um susto: os dias eram tão, mas tão idiotas, não havia o que tirar nem por. As pessoas, tão hipócritas, procuravam a salvação nas coisas mais sobrenaturais, sem saber que, se a salvação era possível, só podia estar no sexo e no silêncio. A carne é que precisava urgentemente ser salva, pois é só o que somos, carne, sangue, angústia, fome e silêncio. Por isso as pessoas estariam para todo sempre vazias e carentes, com a ilusão de que seriam eternamente nutridas por um ser espiritual. E mais e mais elas socariam seus impulsos para dentro de si mesmas, até adoecerem e emudecerem diante da descoberta de um câncer terminal. Oras bolas. A coisa mais misteriosa que havia, que era a realidade, não tinha mistério algum. Não dava pra mudar nada. Só a morte mudaria. Até lá, a vida seria uma planície esburacada, cheia das crises mais fundas e infundadas. Assim, eles se viram diante de apenas duas possibilidades, tendo já descartado a hipocrisia da busca espiritual: poderiam afundar-se no nada, como bem faziam os monges, ou poderiam afundar-se em alguma imbecilidade mais concreta, como fabricar cabides ou dissecar sapos. Mas havia também o amor. O amor era líquido, e também podia ser sólido. Mas eles eram neutros. Eram neutros quando eram crianças e ficavam escondidos dos outros no recreio. Eram neutros na adolescência quando, ainda escondidos dos outros no recreio, trocavam impressões virtualmente sobre o mundo caótico dos humanos e sonhavam com um futuro cinzento e insosso. Naquela época, o mundo ainda tinha algum brilho, e as pessoas ainda existiam. E agora adultos eles estavam obcecados pela neutralidade. Já quase não conseguiam mais ver as poucas cores que os circundavam no passado, só podiam sonhar com elas e, eventualmente, escrever textos desinteressantes e dispensáveis se queixando das lâmpadas que continuavam queimadas dia após dia e relembrando o tempo em que possuíam um ao outro, e, sem saber, também o mundo.

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segunda-feira, 15 de julho de 2013

Quatro pequenos fluxos amorfos


I
 
Os dias amassados cintilavam, as noites passavam rápidas sem ter acontecido nada, e não havia esperança possível. Crianças despencavam dos abismos junto com os carros, os lustres trêmulos, os crânios e os defuntos amarelecidos. O tempo passa e despencamos de nós mesmos de tão velhos. Nas cavernas o conforto é infinito: somos abraçados por pequenas cobras brilhantes que rastejam por todo canto e dormem na pedra conosco. A linguagem cria uma nova escuridão para nos contorcermos. Eu amo você, vou ficar ao seu lado, vou te abraçar com seus próprios braços, e você terá amor infinito. O que é que não vai bem, além de tudo? O que há com você que não pode ser estilhaçado sem muitos prejuízos? Deixemos de lado as perguntas. Venha cá e deite-se comigo, vamos olhar as estrelas inexistentes no teto escuro. As palavras não têm absolutamente nenhuma serventia. Mas venha cá e me abrace, se abrace a si mesmo. Sinta o ar se tornando menos tóxico, as crianças rolando pelas pedras morro abaixo. Você terá amor infinito. Não há respostas nem perguntas.
 
II
 
As cobras brilhantes nos amam diretamente dentro de nossos olhos. Não suportamos tanto amor, somos insuportáveis de tão amargos. Larvas e vermes dentro de nós aguardam ansiosamente pelo grande banquete final, e nós também. Pelo dia em que nos tornaremos verdes, nossos olhos explodirão das órbitas, e os lábios em decomposição revelarão pela primeira vez um sorriso consistente. O tédio futuro, como o presente, será infinito. Por ora nos contentamos em desaparecer dentro das cobertas. No espelho vemos um contorno sem recheio, e o tempo desintegra as coisas que poderiam estar sendo. Venha e sente-se ao meu lado um pouco. Vamos pensar sobre o mundo em que gostaríamos de estar existindo. Onde os crustáceos fossem livres para caminhar pelas ruas. Onde pudéssemos, na plenitude de nosso desapego, comer almeirão todo dia. E onde os dias não fossem tão tétricos, não tanto quanto nossos sorrisos tão tétricos. E as memórias fossem leves como um pequeno embrião abortado. Com certeza que a vida seria tão alegre que as palavras escorreriam de todos os nossos orifícios, encantaríamos as pessoas com os melhores discursos sobre os mais refinados assuntos, como ostras e bolor. Chegaríamos tão no topo da felicidade que isso seria a morte, e não adiantaria de nada. Mas não pensemos em mais nada por enquanto, venha e sente-se ao meu lado.
 
III
 
Fora do absurdo só resta a morte certa. Por isso vamos imaginar algo capaz de nos manter afastados da realidade. Olhe para o céu escuro e pense em explosões solares, em acidentes aéreos e em naves extraterrestres. Quando escrevemos, tapamos os buracos com uma massa provisória que logo no dia seguinte já descolou. Não tem importância, escreve-se novamente. Olhe para mim e não me veja. Se me viu, olhe novamente para mim e não me veja, repita o mesmo procedimento infinitamente. Tudo se torna mais e mais complexo a cada dia que passa. Chegará o dia em que a complexidade será tanta que não conseguiremos nem mesmo entender que não entendemos. A complexidade será incomensurável consigo mesma. Esse será um dos eventos mais extraordinários do universo, mal conseguiremos relatá-lo. Por isso vamos esquecer um pouco da complexidade das coisas e vamos tão somente fritar um ovo ou sair para comprar meias. São pequenas atitudes como essas que nos salvam. Que nos salvam do passado mal vivido, que nos salvam dos traumas grotescos, daquele dia em que, no escuro, tivemos mais uma desilusão. Não pense, não pense para sempre! Esqueça, esqueça para sempre! Encoste-se em mim e mantenha a calma. Ainda se é jovem, poderia ser pior. Ainda se está vivo, poderia ser pior. Ainda há chá e café no armário, poderia ser pior. O pior não é o passado, nem de longe. O pior é o que está por vir. Vamos rolar juntos pelo chão e esquecer de tudo, menos dos sonhos sem sentido, como aquele em que um cachorro azul latia incessantemente, e que nos aterrorizou até os ossos porque se tratava do próprio demônio em formato de cachorro.
 
IV
 
“Se oito mil dias pesam como uma bigorna, então espere só mais dez anos para ver como será”. Há um deus com um humor negro refinadíssimo que me diz essas coisas o dia todo. Estou cansado e nem ouço mais. Na verdade, só dou ouvidos aos demônios, que são sempre muito prestativos e me auxiliam nas tarefas de rotina. Acordo todos os dias muito cedo para cumprir uma espécie de ritual: trocar lâmpadas fortes pelas queimadas, varrer cacos de cerâmica para debaixo dos tapetes, ferver água para o café até evaporar, ferver água novamente, cortar os pulsos com espátulas, etc. Depois o dia está aberto para o que der e vier. Podemos nos sentar e pensar sobre os fracassos? Mas é claro. E sobre o passado que deveríamos refazer? Pois melhor ainda. Temos de cuidar para não nos lembrarmos que, enquanto estamos lamentando o passado, acumulamos ainda mais tempo para se lamentar sobre. Colamos bilhetes pelas paredes para não nos lembrarmos disso. É preciso viver com muito cuidado, sem chegar propriamente a viver. Que há no mundo de mais maravilhoso que as oportunidades que não se concretizam? Precisamos nos livrar de pensamentos como esse. Vamos pensar seriamente sobre viver de alegria. Vamos perceber que o problema maior não é a falta de sentido da vida, pois há pessoas que vivem muito bem no interior da falta de sentido. Prazer e dor se confundem em tudo o que existe na face da terra. Há dias em que a alegria é cheia de agonia e a tristeza cheia de doçura. O amor é tão doloroso quanto a falta dele. Seria isso a falta de sentido? Não há como saber. É preciso amar as pessoas, especialmente aquelas que sabem que não há conforto possível na vida, que “ninguém descansa em cadeira de dentista”. Temos compaixão por elas e por nós mesmos. E também temos ódio e rancor por nós e por todos. Nada adianta para nada: pensamos sobre várias coisas e nada adiantou para nada. Fizemos tudo errado. Levamos tudo a sério demais. Não conseguimos nos salvar. Nossa missão para sempre impossível: salvar quem não quer ser salvo. Venha cá e me abrace novamente. O céu está altíssimo e não há sombra de dúvida. O sol está altíssimo e nós irreconhecíveis. Deixemos de lado as palavras toscas. Venha cá e me abrace. Vamos partir em segredo dessa para uma melhor.

terça-feira, 2 de julho de 2013

Constelações no escuro

 

O que somos nós além de um sonho ao avesso? Até mesmo uma investigação pouco cuidadosa poderá dizer. Desde que estejamos dispostos a enfrentá-la. Tal investigação poderá mostrar com coerência, no fim das contas, que não somos mais nada. Mas se, por respeito ao passado, não aceitamos essa resposta, precisamos encontrar um modo de raciocinar que nos leve a concluir que ainda somos alguma coisa além de um sonho ao avesso. Para isso, precisamos paralisar o espaço-tempo. Sim, pois como poderíamos continuar intactos se o tempo está nos comendo vivos? Pois bem. Depois, precisamos aglomerar em uma vasilha todas as fatias de progresso que acumulamos mediante o sofrimento. Por exemplo, uma crise soluçante de choro madrugada adentro precisa significar alguma coisa, ainda que no fundo não signifique nada. Depois, pousamos os braços sobre a mesa e refletimos com os olhos cansados, e nada exprime melhor o tamanho do sentimento do que nosso olhar de cansaço. E as horas que continuamos cultivando como que por mágica. Olhamos para o que restou de nós em um espelho quebrado: vemos um sonho póstumo. O absurdo que paira sobre nós não é tão diferente de todos os absurdos que nos atingiram ao longo da vida. Como as mais variadas relações que enferrujaram sem motivo aparente. Não somos tão diferentes assim das outras pessoas. As pessoas começam a produzir algum efeito sobre nós quando já estão mortas, como o brilho das estrelas mortas que chega até nós com inúmeros anos-luz de atraso. Nossa maldição é que, enquanto estamos iluminados pelas estrelas, não as enxergamos. No céu mais escuro, elas se tornam mais visíveis, porque já não existem mais a não ser em formato de memória. Por isso é que continuamos brilhando, mesmo depois de mortos. Opacos, esverdeados e trêmulos, somos quase invisíveis. Mas suficientemente visíveis para sermos insuportáveis, para nós mesmos e para os outros. Mas isso tudo é tabu. A mágoa e o passado nos unem com amor. O fio que nos pendura juntos é um fio muito precioso de rancor. Depois de anos de luta atingimos uma espécie de equilíbrio. Mas é justamente ao se equilibrarem que as coisas caem. O silêncio tornou-se uma obsessão, o tempo corre desesperado como insetos pela parede. E o sonho ao avesso, o sonho ao avesso e o sonho ao avesso. A verdade é que dormimos demais ao longo desses anos, somos dorminhocos compulsivos. E ao acordar reclamamos por não termos vivido sequer uma gota durante o sono, o que é tão óbvio que chega a ser medíocre. O ar tornou-se intolerável: arfamos desesperados. O momento da salvação passou. Os dias continuam atropelando uns aos outros enquanto esperamos pacientemente, mas com alguma angústia, por um estopim, e ao mesmo tempo tememos o estopim tanto quanto tememos a morte, a morte que secretamente desejamos. Desejamos que ninguém nos veja, quando na verdade não somos mais vistos, o certo seria desejar a visibilidade. O estopim confirmaria que estamos certos, e não queremos estar certos, queremos que a verdade nos desafie. Estar certo requer responsabilidade, e somos crianças grandes, não sabemos o que fazer de nós. Somos crianças afundando em um pântano, com insetos presos em nossos cabelos. Estamos entranhados um dentro do outro, somos tão drásticos quanto a solução de que necessitamos. Tão cobertos de irrazão que já não conseguimos enxergar razão em ninguém nem nada no mundo.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Coisas e lembretes

 

Horas mofadas, passado mofado, morte em vida, silêncio de gelo, profundidade sufocante, sem respostas nem perguntas, nenhuma explicação para nenhum enigma, falta de coragem para aceitar a falta de sentido, viver por obrigação, esperar ansiosamente por melhoras súbitas, vagar sem consciência pelos cômodos,  sonhar com as feridas abertas, tapar feridas com inércia e sonolência, fingir-se de planta, balançar o tronco como uma palmeira, emitir grunhidos como uma palmeira, sorrir falsamente diante dos outros, ler notícias de desastres, lamentar a própria incapacidade de acreditar em fantasmas, criar os próprios fantasmas dentro do quarto, telefonar para fantasmas, etc. Surpreender-se a cada momento com o próprio passado, aceitar o fracasso como uma bênção, pensar em cigarros e não fumá-los, pensar em pessoas e não procurá-las, pensar nas cartas por escrever e não escrevê-las, pensar na vida e não vivê-la, pensar na morte e não morrer. Refazer todo o percurso mentalmente, analisar cuidadosamente as rachaduras, trocar lâmpadas fortes pelas queimadas, desejar com força o milagre que não vem, encontrar sentido no passado, engolir memórias cáusticas, engasgar-se com o passado mal digerido, aguardar a visita de extraterrestres, comparar o próprio fracasso com o dos outros, apaixonar-se pela mesquinhez dos outros, acostumar-se com a própria mesquinhez, amar os pobres de espírito, sentir-se nauseado na presença de pessoas otimistas, esperar pelo futuro sem fazer nada, esconder-se de si próprio, sonhar com rostos inexpressivos, temer a velhice mais do que a morte, viver o caos e a mudez, respirar no escuro, superficialidade em cada atitude, silêncio aconchegante, horas e dias pela frente, mofo e promessa, palavras vazias, nada para viver ou fazer, afugentar a angústia com xícaras de chá e café.

sexta-feira, 29 de março de 2013

dificuldade

 

Como acordar a si mesmo para o mundo e para as coisas, pessoas, pedras?

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Sobre o cansaço

 

Os demônios são como amigos ou parentes, só que eles vivem conosco em nossa casa. Estão ao nosso lado. Abrem ou fecham uma porta para nós, eles não permitem que esqueçamos de nossa podridão e da podridão do mundo. Por vezes, eles auxiliam em alguns trabalhos domésticos. Corrigem uma rachadura do teto, trocam um vidro quebrado, varrem um aglomerado de poeira para dentro da lixeira. Às vezes, quando não têm mais nada pra fazer, eles riem tanto de nós que chegam a ficar sonolentos e depois dormem durante dias, exaustos. Cada um possui uma cama, mas é sempre uma cama invisível, que paira sobre nós quando dormimos. Depois eles acordam e sussuram em nossos ouvidos sobre como corpos jogados em rios apodrecem rapidamente, e como crescem as ervas ao lado dos rios, e como depois as pessoas bebem a água e contraem infecções das mais diversas. Eles insistem em nos lembrar que não há razão alguma para absolutamente nada do que fazemos. Desde quando acordamos e pisamos com os pés mornos nos chinelos até quando anoitece, cada pequeno ou grande evento é vazio. Se ao invés de caminharmos até o banco ou a padaria, optamos por esfarelar um bloco de isopor ou esfregar os azulejos da cozinha, isso não faz a mínima diferença, para nada. Eles não nos deixam esquecer, a todo instante, que a vida podia ser diferente. Embora essa informação escorra por nossos dedos – não sabemos como utilizá-la. Ou não queremos utilizá-la. Tomamos café com eles enquanto rugas muito impercepíveis brotam na nossa cara. O mais interessante ocorre quando dormimos: eles entram em nossa cabeça e nos fazem ter um sonho dentro de outro sonho dentro de outro sonho. Hoje, por exemplo, eu sonhei que estava viajando de ônibus, mas acordei dentro do sonho e percebi que na verdade estava voltando de carro, e então acordei novamente dentro do sono e eu estava na casa de uma velha que não conheço, mas que é da minha família. Então minha mãe disse: amanhã continuaremos nossa longa viagem. E foi então que eu acordei de todos esses sonhos, e eles foram tão vagos e terríveis que só mesmo um demônio poderia tê-los produzido.

Os demônios são humanos mais antigos que os próprios humanos. Por isso a respiração deles é mais lenta e pausada, quase não conseguimos sentí-la, a menos que estejamos muito angustiados. Quando nos angustiamos e emitimos um grunhido ou um gemido, é sinal de que eles estão por perto, olhando por nós, chorando por nós. Quando silenciamos – o que fazemos o tempo todo – eles se afastam entediados. Os únicos responsáveis por cultivá-los somos nós mesmos. Eles não se alimentam de nossos sentimentos, mas da razão. Eles são famintos por racionalidade, nos forçam a enxergar conexões pouco visíveis entre fatos, pessoas, lugares, animais, móveis, insetos, drogas, lagartas, etc. Quando eles estão por perto, simplesmente esquecemos que já vimos um filme e o vemos novamente. Esquecemos que já conhecemos uma pessoa e acabamos conhecendo-a de novo. Esquecemos que já sofremos por um evento passado e passamos de raspão por ele, sangramos até os ossos simplesmente por termos esquecido. Quando eles estão entediados, eles produzem artesanato com os fios de cabelo que perdemos por aí. O que importa nessa história toda é que, como sempre ao nosso lado, eles impedem que saltemos da janela ou algo do tipo. De certo modo, devemos nossa vida a eles. É por isso que nada muda. É por isso que não conseguimos dormir de olhos abertos. É por isso que temos pesadelos com aves e espíritos. É por isso que não conseguimos mais dormir. É por isso que a vida parece apenas um prolongamento da morte que ainda não veio. É por isso que não conseguimos escrever sobre o desinteresse em escrever. É por isso que somos invisíveis e é por isso que a invisibilidade não é confortável como um prato de comida quente. E é por isso que precisamos planejar em segredo um plano para nos livramos deles. É por isso que nos transformamos em arbustos e estamos com os dias contados.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Cabides

 

Meu deus, qual o fundamento de todas essas pessoas que andam na rua?

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

O silêncio não é o fim

 

Pode-se aprender a cavar túneis no silêncio.