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domingo, 18 de outubro de 2020

enquanto o espaço estiver morno



Eu gosto que você esteja aqui comigo e pacientemente me ajude a me recompor, a propor estratégias inovadoras para soluções mórbidas e infrutíferas. O meu barco é amplo demais. Ao nosso lado, uma ostra ornamental de jardim e mais nada. A grama estufada é uma almofada onde qualquer lesma ou pardal pode encostar e empreender. Eu estou pensando, mas pouco. Você me olha na estrada, existe uma pessoa sua que está sentada. A crise é agradavelmente sem precedentes, eu devo ligar para alguém? O sacrifício é contínuo, dispensável. A sensação é de um obscuro desconforto intermitente. Eu seguramente acho, mas sem muita certeza, que estou prestes a descobrir. Você suspeita ao meu lado, me encanto com qualquer coisa que você consiga dizer ou omitir. Eu tomo conta das nossas crianças que são pequenas bactérias gordas e não incomodam. (Ele me escuta pacientemente, não move nenhum dedo para cancelar, não torna o momento mais aprazível ou palatável). Eu não entendo, mas eu jamais diria alguma coisa a ele que não fosse para ofender ou cindir. Meu processo é estar sempre dentro do osso, sem sublevação. É sempre enganoso achar que existe uma pessoa no pasto, mas compensa repensar em outros motes, outras vias, com ou sem sucesso. Não é obrigação de ninguém observar nossa vida patética. Eu encontro nesse ondular extremo minha própria face espelhada, mas agora mais velha e pronta para ser transplantada no quintal. Meu sintoma está na fila de espera e ainda não foi vacinado. 

No sonho, você é quase você, mas não é, você foge de mim até se transformar em um outro. E, enquanto outro, por que ainda estaria aqui? Eu não me lembro de que estávamos caminhando. Você ameaça sair se eu não estiver à sua espera. Você sabia que tinha o comando da casa inteira. por que abdicou de seu reino? por que não levou ao menos um saco de dormir? Você permanece severo comigo e não me devolve nenhum atalho. Saímos juntos no espaço morno para olhar o movimento, dar uma pequena volta na quadra, comprar um envelope de dorflex. qualquer coisa simples demais é de muita serventia. Podíamos até mesmo estar e permanecer em silêncio, sem combinar. O pasto está incomunicável. Se você fizer questão, podemos conversar sobre a guerra do Paraguai? Eu tenho mesmo poucas palavras para emprestar. O excesso de sono não me atrapalha. Pelo contrário, sigo arfando dentro do sonho, continuo trabalhando enquanto durmo. A situação ameniza pouco a pouco até o extremo do insuportável. Sou visitado pelos elefantes mortos de Botsuana/passa um aro extremo sobre minha cabeça enquanto as patas dos animais são carimbadas na testa para abençoar. Acordo aterrorizado com o rosto de silicone de Carlo Acutis me observando. Todos os ossos entram na fila e são moídos ao despertar. Eu não sabia onde era o começo, eu não estava feliz (nunca estive), ainda que você, como poucos, tenha aprendido a sair daqui sem sequelas, sem estrias. Eu não espero mais um sinal em silêncio. Se eu tiver que entrar em alguma dimensão para encontrá-lo, você poderia fazer o favor de me informar? não posso entrar na dimensão errada à toa. Tenho coisas demais para resolver em um curto período, e qualquer dia ou minuto perdido é uma sombra que ao mesmo tempo se acumula e me escapa. Por favor, tenha cuidado com o meu sintoma. Tenho um protocolo a cumprir, uma ossatura a preservar, e espero com sinceridade sua colaboração no processo, enquanto o espaço estiver morno.   


 

sexta-feira, 10 de julho de 2020

obrigado a todos que submergiram




Hoje não me reconheci, comecei a lavar a louça pelos talheres. Pensei: se ele estivesse aqui comigo, então ele estaria aqui comigo, e eu não reclamaria de nada além do habitual, a dor nas costas ou o incômodo constante diante das pequenas tarefas deixadas por fazer. Um dia como hoje não é grande coisa também, e eu e você não saberíamos o que fazer com os destroços, mas secretamente poderíamos gerar algo para estiolar, para escapar de um buraco absurdo no qual fomos gentilmente depositados. Se não existe nada nem ninguém, como saímos desse espelho? Juntando uma coisa na outra, sem colar? eu pergunto em prantos se alguém saiu de banho tomado, se alguém desinfetou os guardanapos um a um até eles esfarelarem. Por favor, alguém desceu do carro quando viu o animal morto parado? alguém me trouxe um rinoceronte filhote para cuidar e eu só vi agora? Ele pode ser ajudado a transpor até outro oceano. Nada é tão interessante quanto parece. Tem algo na linguagem que é irritante por si só? Mas, e se o potencial não for todo esse? O lugar foi depositado como que para respeitar. Sem saber, eu deixei que eles respeitassem cada espaço, e parece que eu não tenho como ajudar, não sei qual urna para depositar uma palavra ou um grunhido que possam interpretar como uma intervenção. Alguém por favor abre um espaço para um neurótico passar? obrigado. Eu receio que nada seja tão simples assim, que eu possa me colocar no seu lugar, mas sem ficar por muito tempo. Não sei o tamanho da fatia do desastre que já passou, e se o que está por vir é só areia muito fina. “Convenhamos que nós já chegamos mais longe do que imaginávamos que chegaríamos”, isso foi muito especial, me foi dito no dia cinco de junho e eu cataloguei com cuidado, espetei no meu quadro como um inseto fossilizado, meditei em silêncio sobre tudo que não entendi. Como aquelas verdades em que, de tão manifestas, batemos a testa ao passar. Algo não me deixa engolir, já caímos para fora de qualquer lógica assumida, eu senti que estávamos esperando. Um avião com noventa toneladas de lixo hospitalar passa por cima da minha cabeça. perco o timing quando você me diz: aqui cresce seu osso em alguma parte. Sim, eu confesso que estive perto de todos eles que estavam nascendo. Todos os dentes. Enquanto eu lavava a panela nova e intacta sem alguma dificuldade, Laurie cantava em meus ouvidos: this is the hand, the hand that takes. Eu estou requisitado a responder sem nem mesmo saber como serão as próximas horas, os próximos dias, e assim por diante. presumo que meu amigo salsichas já não exista em nenhum território. Ele me conta uma anedota que eu não entendo e ele não repete. Eu acaricio seu pescoço, penduro um belo colar com um pingente que de longe parece uma rocha magmática comum, mas de perto é só uma fatia de broa de centeio ressecada. Se ele estivesse aqui, estaríamos procurando por todos aqueles que estão dormindo perdidos, terminaríamos macetando-os em um ritual maciço, previamente agendado. 

Agora eu começo em um novo oceano (mas é o mesmo). Não me proponho a caminhar, mas uma coisa macia gruda em minhas costas. ele era muito engraçado, eu ria dele pelo menos uma dúzia de minutos por dia. Agora eu tenho que insistir um pouco mais para que o bonito tente regurgitar. Pois sim, eu espero ter ajudado. ninguém me mostra se há por onde ir, se há algo a que posso me agarrar de modo recalcitrante. Mas, meu amigo, com toda sinceridade, você estava descascado e ruim. Você percebe que, antes de cantar “you’re trying too hard” pela segunda vez, ela ri despretensiosamente? Ela não se aguenta e ri, e essa é toda reação ao percebermos que o esforço é, simplesmente, absurdo. Não espere nada diferente, mas posso completar uma respiração melhor e simplesmente murchar em silêncio. Estamos adentrando agora o osso ruim, mas que pode ser piorado, desde que se saiba todos os procedimentos de antemão. Coloca na sua mochila o andaime desmontado que será levado para o campo, dorme por catorze horas seguidas e se enrola em um tronco do sonho para simplesmente não voltar. Sonha: a vida pode ser bem mais simples que isso. E nós até podemos existir. Dorme, meu docinho, esse inferno não vai acabar. Você está cada dia mais crescido e até cai dentro dos milênios. Nada será como antes, os cadáveres se amontoam na calçada, a existência deles é seu próprio desmanchar. Uma ostra velha some no firmamento. Um outro olho despenca e desmancha. Você olha calmo no meu olho e eu escondo. E, por um simples descuido, esqueço de esquentar o café, de trazer o peixe para a grelha, de telefonar para os familiares mortos, de consumir o Rivotril empanado e frito ainda quente. Esqueço-me de todos que estão morrendo nas casas, nos jardins (é tecnicamente possível morrer em um jardim?), enfim, não sei responder com exatidão. sim, adequadamente eu não sei te informar, você vai me desculpar, com certeza. A encomenda está parada e não quer aterrissar até a minha casa. Não me informe se você estiver dormindo, mas pode retornar minhas mensagens dentro de alguns meses se assim for melhor pra você. Obrigado a todos que submergiram. Eu perco meu osso (não estou entubado), você morreu e eu não dormi. O sentido de morrer está dado, vamos completar. você não ia prosseguir por muito tempo, talvez no máximo uma década. Eu rio quando me lembro de uma carcaça sobre a minha cama, sobre mim, ou me olhando no sofá sem ruídos. Escorre uma pequena lágrima insone que pode ser confundida com soro fisiológico ou chuva ácida. Como chegamos nesse ponto, meu deus? As pendências se acumulam, as pessoas me informam para esperar, ao menos agarro meu título e vou-me embora. Me pega por aquilo que podemos construir juntos. Um buraco em meu estômago mole. Eu encolho todas as minhas vértebras e deixo você sair, enfim. Ao vento quieto. Deixo de existir, ao vento quieto. É quase amanhã. Eu vejo a forma com que eles digerem a morte dos pais deles, e penso se vou digerir assim a morte deles também. Em minha floresta onde estarei um dia, junto a meus gatos, minhas folhas, meu osso de estimação, minha tartaruga empalhada, meu pasto inteiro onde eu mesmo possa pastar todo dia ao acordar. Sim, isso tudo é tão distante, mas tão presente... Meu irmão está certo, não há nada lá fora. Será que no fundo ele sabe mais do que todos os outros que ainda estão tentando? É preciso averiguar com uma pesquisa muito delicada, para a qual não estamos sendo financiados. Me faltam palavras para viver, não consigo me enfrentar, todas as lembranças dormem em silêncio. Me peça para ir desgrudando as coisas devagar, senão termino em poucos minutos e passamos o resto do ano sem nada para fazer. Mas uma coisa alegre se abre na varanda, quando eu já tive uma (já tive?). Um urso cai da escada e é isso que estamos assistindo até agora, o período inteiro está amassado, é muito bom o tempo livre, é bom o tempo que passamos desintegrando aqui ou no quintal, preparando uma salada de miolos, passando os panos úmidos pelo cilindro até secar, amassando o caldo para o purê, fazendo tudo com muita, mas muita minúcia, o dia é limpo e quase não há som ao redor, ele mesmo raramente falava alguma coisa, só quando queria um cubo de gelo para brincar. Foi-se. O bloco de sucrilhos umedecido pela manhã, os cotonetes que escondemos e não podemos encontrar (seu uso já foi banido, mas ignoramos). Mas, pelo amor de deus, ninguém aqui colabora, um inseto acha que precisa bater à porta quando quer entrar, são formalidades excessivas que vão se acumulando e desativam qualquer vontade que tínhamos (não tínhamos) de continuar. Eu desaprovo (coloco as mãos na cintura e me mantenho em silêncio absoluto). Normalmente eu venho até aqui e fico confuso. Você tem que se juntar a esse time, você não pode esmorecer, não pode jogar fora todo trabalho feito e acumulado etc. Você precisa pensar nisso com mais calma e cuidado, retorcer os onze anos até que escorra o resíduo aproveitável. Você não devia se isentar, por deus que não. Você fez tudo isso com seus próprios braços e pernas, olhe e se desespere, mas com calma. Com sua ansiedade orgânica, seus ossos guardados em ziploc.




domingo, 8 de novembro de 2015

Sob um mar

                                                                           
          Sopraste com o teu vento, e o mar 
os cobriu; afundaram-se como 
chumbo em volumosas águas.
Êxodo 15:10



Em primeiro lugar, trêmulos estão os lustres sob as águas geladas, estorricados e quebradiços apesar da umidade excessiva. Em segundo lugar, a grande ostra ralada próxima ao poste marinho. Em terceiro lugar, a noite insossa e disforme sobre o mar. Em quarto lugar, a falta de preenchimento dentro dos ossos. Iniciamos enfim.

Dentro de um mar gradativamente mais ácido pisamos na saliência de um pequeno rombo dentro da profundidade terrificante. Perdidos no interior das algas. Sem referências, sem perspectivas e sem sonolências. Rompendo películas imperceptíveis/sugando a seiva de árvores subaquáticas. Imploramos para que outras ostras nos olhem e realizem o procedimento adequado, que é o mínimo de expressão dentro do mar. Dentro de uma escuridão atemporal e vazia – a porosidade do mar é causada pelo próprio sal que coagula na superfície (perdoem-nos o excesso de cientificidade). O sal dissolve nossos calcanhares, o rosto pregado num ponto excessivo, os rins que boiam como esponjas quase gelatinosas. Naquela escuridão infinita de um mar acoplado na base da noite, continuamos a penosa coleção de ossos enquanto os alvéolos espasmam com a falta de oxigenação apropriada. As estátuas fincadas no solo marinho olham com ternura para o miolo da escuridão. Por vezes uma coreografia de microrganismos/raramente um feixe de luminosidade faz imaginar que, de algum lugar do solo, um tufo de areia pode bruscamente saltar e descobrir coisas vivas e escuras. Enrolam-se precisas nos calcanhares as algas, pois desconhecem suas próprias razões. Elas pressentem o rombo suave junto ao príncipe de uma velha imensidão (quase) concisa. E não há nada a ser feito a respeito. Primeiramente olhamos como quem não reconhece nada além de uma neblina formada pelo deslocamento dos cardumes. As gotículas que formam uma nuvem dentro das águas e a dificuldade de enxergar sem uma ostra sequer para encaixar nos olhos. Perguntamos a alguém que tenha de sobra uma ostra em cada olho se seria possível emprestar-nos uma para grudarmos no nosso. Dentro do escuro. As coisas passam a compor um silêncio em que os pequenos cristais tremelicosos do lustre emudecem e turvam nossa travessia para baixo. Na cavidade imprecisa nada consegue ser confortável. Não há absolutamente ninguém aqui agora, nem nós mesmos. Há coisas que são pequenas ratoeiras, perdidas no espaço. Se não fosse o mar, dunas de poeira cobririam as palavras não vistas e os olhos. Alguém um dia vai ouvir o grito das ostras? Sempre tão empoeiradas e vestidas com a mesma ossatura, ninguém suspeita de nada. Pensam alguns que se trata de umidade e poeira calcificada, e nada mais. Mas assim como uma nuvem microscópica não é só uma nuvem, um fundo de ostra também não é só um fundo. Em todo caso, melhor romper enquanto sentamos na varanda e sentimos o peso dos raios descendo até a copa das árvores. No fundo mais inóspito do mar é que a regressão encontra uma flor e aparecemos com as costas arqueadas e as pupilas dilatadas recordando o rosto vermelho e olhos úmidos sem comoção. Diante do monstro sagrado que consumiu o tempo: rosto vermelho e sangue que escorre de lábios murchos, sem nenhuma razão. Até quando as coisas estarão fora de nós para observarmos? Um sentimento feito de isopor, incompreensível e levemente dolorido, manchado de líquidos antigos. Esperamos a guerra no asfalto sem rir e sem chorar. Sem um padrão de medida definido, como medir as coisas? Como comparar a efetividade com a ideia? Como avaliar a palidez das horas, como julgar a falta de fundamento dentro do mar? Pois se dentro da fossa submarina a distância de uma ponta a outra não pode ser calculada, já que sequer existe uma ponta ou outra. O índice da profundidade é só ela mesma. Ali dentro, o mar perde uma localização concreta: quantos palmos existem para esquerda? para cima? para baixo? para trás? não se sabe. O ponto não é localizável, e quem ali se encontra sabe que nem o fundo nem a superfície são localizáveis. Pode-se tatear sem pressa através de um corredor imaginário, e ainda assim não se chega ao fundo, nem à superfície, nem a um canto encaixado a uma caverna ou a uma fossa abissal. Para um animal marinho gigantesco, pode-se dizer que é uma liberdade poder movimentar-se sem reservas e sem mover um fio áspero sequer ligado a uma ostra. Para nós, a ausência de padrão de medida paralisa o movimento. Se ao menos chegássemos ao fundo, poderíamos ter a certeza do caminho a ser tomado então: o de volta. Não há sustentação, porém. E nem uma sustentação invertida: um teto que nos impeça de subir ou uma parede na qual possamos bater o nariz. A liberdade coincide com uma falsa liberdade delirante. Ela é apenas a distorção esfumaçada de uma vida em que cada osso estaria encaixado no lugar em que deveria estar. Mas sob um mar o rosto chega a aparecer e então o colapso conduz ao esquecimento, e é preciso esquecer. Viver é sempre artificial/estar grudado ao canto morno da parede. Sentir o ar correr sem mistérios e não entender como pode um ar correr sem mistérios, e não entender como não é possível entender que um ar corra sem mistérios, e então pegar esse bloco inteiro e aplicar a ele seu próprio raciocínio: não se pode entender que. Após a operação completa, o resultado é: "não se pode entender que". E se rompemos a operação e descartamos todo pensamento, o resultado é: "não se pode entender que". De qualquer ponto que se parta, o resultado é sempre o mesmo. Rimos tanto que nossos dentes caem e os perdemos sob um mar. Assim, com tinta de lula escrevemos os caracteres incompreensíveis que compõem o padrão de medida. Mas pedimos em silêncio para que nos ajudem. Ajudem-nos a untar os lustres com óleo oxidado, ajudem-nos a filtrar a água macia onde as ostras morreram de inanição! Temos de fazer algo para acalmar os nervos e nutrir as pequenas crateras que tremulam: embalar ostras em alto mar, descascar nozes até o fim dos tempos, etc. Para os espelhos da noite, o corpo envelhece mais rápido e por vezes até some. Uma nova escolha pode determinar que nos próximos tempos uma flor brote suave de cada poro. Uma alegria funda pode também brotar de cada poro. A oleosidade do lustre quase se deixa escapar. Desconstruímos o rosto mole: as bochechas fartas deixamos amortecendo no balde com gelo. Os olhos são cuidadosamente espetados em arames e funcionam como brincos tímidos. O olhar difuso dos olhos teve de ser descartado para não deixar o prato intragável. A testa trêmula não tem função. As pálpebras se desfazem suavemente e perfumam as horas que continuam a passar para os outros. Com o conhecimento técnico adequado as orelhas estão marinando no caldo de alecrim e papoulas. O peito é fraco e seco, precisa de catorze dias para absorver o tempero. Nada pode sair dos eixos precisos. Olhem e se desesperem: como poderíamos interferir? Viajando centenas de milhares de quilômetros apenas para entregar-lhes uma caixa de ostras carameladas? não é possível. É aqui que não devemos ficar. Mas eles ririam, eles ririam tanto! Seríamos suaves... e inclusive a chuva, que gostaria de cair agora, deixaria para cair mais tarde. Soltaríamos rojões pelo céu de ventos calmos. Enquanto eles seguram nossa mão, lembramos daquela tarde lacônica: distraídos partíamos o crânio em partes menores para facilitar o derretimento no purê. O cérebro era vivo e brilhante, ainda que morto. Distribuíamos as fatias pelos pratos conforme a necessidade e o merecimento. Os lábios rachados foram para o monstro que soube parti-los (sabíamos que ele ficaria muito feliz em emoldurá-los e pendurá-los na melhor parede que pudesse encontrar). Fomos até a horta e trouxemos um punhado de flores azuis que maceramos junto com o sangue antigo/escorreu um óleo rançoso que tivemos de despejar nas hortênsias que não existem. Hoje é outro dia e também não existe. Aliás, o dia de hoje já está bem mais envelhecido que um fóssil, e isso eles não puderam chegar a saber. Segue o jantar em fervura: duas folhas verdes pesadas cobrem o fundo do prato. E o acompanhamento suave: uma lata de crisântemos em conserva? deus do céu... (os túneis dentro do silêncio se desmancham pouco a pouco. Um por um, os resquícios de conforto se dissolvem, uma lua que reflete no mar se expande noite adentro). Quantos dias esperamos por eles? dias? horas? anos? O silêncio é índice da infinitude. Mas um dia teremos de morrer. Não entendemos quem são eles. E nem a razão pela qual eles vêm nos buscar antes que a madrugada esteja adequadamente consolidada. Suas mãos tão geladas paradoxalmente só conseguem amornar as nossas. Colocamos o ponto final no fim de uma janela. De cujos vincos caem grãos de poeira pulverizados que colam no rosto úmido e são pequenos absurdos – como tantos outros. Não há eixos, nunca houve. Cada ostra dentro de cada olho eu amo tanto. Alegremente eles vão tomar tudo o que é nosso no interior da casa, tudo o que velho e inútil, porém nosso. Eles vão borbulhar no mais escuro da noite, vão tomar para eles os olhos avermelhados que outrora piscavam como um grilo vivo.

Em primeiro lugar, trêmulos estão os lustres sob as águas geladas, estorricados e quebradiços apesar da umidade excessiva. Em segundo lugar, a grande ostra ralada próxima ao poste marinho. Em terceiro lugar, a noite insossa e disforme sobre o mar. Em quarto lugar, a falta de preenchimento dentro de um osso.

sábado, 29 de agosto de 2015

En cendres



Cada dia em que começamos a existir, a radiação eletromagnética é inutilmente duplicada e atravessa nossos corpos de uma ponta até outra. Se a roda gira em sentido contrário, então por aqui não podemos passar. O rio está empedrado, cristalizado e morto. O teto está todo coberto com coisas que amamos e deixamos desaparecer. Por aqui não podemos passar. Ali no fundo eles nos olham, sempre opacos e enigmáticos. Corremos por um pontilhado no chão e chegamos até uma urdidura onde as coisas então acontecem. Sentados sobre o caos e olhando, o mundo passa mais rápido. O tempo nunca passa. O mundo sim.

Trazemos para o colo morno os quilos de plantas que antes mergulhamos em um banho suave para um cozimento lento e hipnótico. Quando o tempo quebra, é o som dos galhos secos em delicado incêndio. Pelo pontilhado chegamos a uma área onde as coisas despencam em um vácuo que passa despercebido. Quebramos esses galhos – e ali mais no fundo, enquanto a redenção não chega. Alguns galhos tombam queimados, outros apontam em riste para todos os pontos que as dimensões de uma floresta são capazes de sustentar. Temos de quebrá-los para continuar a travessia que não queremos percorrer. Por aqui não podemos passar. O único modo de partir os galhos é com as mãos secas, e refazer todo o percurso. Vamos adiante, quebrando aqueles galhos? No quintal? Na floresta? Vamos adiante, não olhe para mim: o vento. Uma ostra em cada olho. Vamos, me ajude! Rompa os galhos, aqueles galhos ali em cima, aqueles galhos mais no alto. Não! Não dentro dos ossos! Por deus que não... Ali no alto, sim, isso. Os galhos sim, os troncos não! (afinal, quem pode ser amado no interior de um tronco?). Os galhos mais frágeis (os galhos são a própria floresta existindo em flor suave). 

Da radiação escapa uma faísca que incendeia nossos cabelos com muito cuidado, e confundimos o calor excessivo com uma enorme doçura que ganhamos mesmo sem merecer. Com o cérebro em cinzas, adormecemos durante seis dias e temos catorze sonhos muito saudáveis com: ostras em lata, gatos vazando sangue, barrigas abertas em formato de “U” que ninguém se dispõe a costurar, crianças carregando gansos pelo pescoço, possibilidades fechadas, pessoas rindo sem posição numa mesa, etc. Depois de seis dias acordamos e, diante do espelho, enxergamos a resposta estampada na testa: nós passamos sempre, até o ponto em que nos tornamos um outro. A informação assusta – rimos de nervosismo e alívio. Daqui é impossível proceder, mas também uma solução pode brotar incólume (especialmente para nós, que sempre nos recusamos a ter uma vida além da nossa). Agora o conforto cresce dentro do silêncio como um bolo no forno. A festa logo atinge seu ápice. Já quebramos todos os galhos possíveis e, antes que os outros cresçam, dobramos as camadas de água morna por um perfume que preencha de uma só vez as horas insossas, mas sempre em silêncio: Jasminum (em silêncio), Melissa (em silêncio), Matricaria (em silêncio), Camellia (em silêncio), Rosmarinus (em silêncio), Malus (em silêncio), Illicium (em silêncio), Humulus (em silêncio), Hypericum (em silêncio), Lavandula (em silêncio), Cymbopogon (em silêncio). Cinnamomum (em silêncio), Elettaria (em silêncio), Zingiber (em silêncio), Vanilla (em silêncio), Hibiscus (em silêncio), Syzygium (em silêncio), Laurus (em silêncio). Fim. 

Tivemos um grande momento rodando por esses arbustos mais altos. Aliás, foi o melhor momento que já conhecemos, por isso agradecemos-lhes: obrigado por nos fazer afundar – nos lodos mais mórbidos! Por deus do céu... Obrigado. Seguramente o momento mais agradável que conhecemos foi todos eles rindo e dançando conosco em nosso inferno, e a festa foi simplesmente exemplar. O dia de hoje termina e a radiação toda diminui após penetrar cada poro, cada célula, cada vaso, cada gérmen de tumor. Amanhã o procedimento recomeça. Esperamos ansiosamente com olhos úmidos que mal se fecham de tanta interrogação. 

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domingo, 23 de fevereiro de 2014

"A tarântula e o pernilongo"



Esse texto é uma proposta de interpretação de Have one on me, de Joanna Newsom. A questão central a ser desdobrada é o processo de rememoração do passado vivenciado pela narradora através de fluxos de consciência e da sobreposição de estados lúcidos e alucinatórios.

Primeiro apresento aspectos biográficos de Lola Montez (o eu lírico da letra) pré-1846, isto é, antes da chegada de Lola à Baviera. Depois, passo a uma interpretação ponto a ponto da letra, à luz dos dados históricos e biográficos coletados.

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Maria Dolores Eliza Rosanna Gilbert nasceu em Limerich, na Irlanda, em 1821. Concluiu sua educação formal em Paris e estudou dança na Espanha. Passou por países como Escócia, Inglaterra, Índia, Espanha, França e Polônia antes de chegar na Alemanha, em 1846. O Teatro Real de Madri e a Ópera de Paris foram dois dos lugares onde ela foi prestigiada por suas apresentações. Tinha cachos castanhos e olhos azuis, descritos por um jornalista polonês como “possuindo todos os tons de azul das dezesseis variedades do miosótis”. Mentia compulsivamente. Dizia a todos que nascera em Sevilha em 1823, e que se chamava Maria Dolores Porres Montez. Ficou conhecida por todos como Lola Montez. Segundo inúmeros relatos da época, ela não dançava (tecnicamente) bem. Entretanto, sua postura voluptuosa e rosto e corpo deslumbrantes causavam furor em todos os lugares por onde ela passava, e o grande público não se importava com as limitações de sua coreografia. Em muitas das cidades europeias por onde passou, Lola fora reconhecida como uma das mais belas mulheres de sua época. Era um ímã para os homens, mas gostava de mantê-los à distância: a decisão tinha de ser dela.

Misturava-se com a aristocracia internacional e com a realeza. Foi assediada por homens poderosos, dentre os quais o vice-rei da Polônia, que ofereceu-lhe uma propriedade rural, um título e inúmeras joias. Ela recusou. Ele zangou-se, ameaçou deportá-la e infiltrou subordinados em sua apresentação para que a vaiassem. Forçada a interromper o espetáculo, Lola desceu e contou à audiência polonesa as ameaças do vice-rei. Resultado: foi aplaudida e escoltada por uma multidão de poloneses. Este incidente coincidiu com um dos muitos levantes de Varsóvia contra o domínio czarista.

Depois partiu para Paris, onde namorou Alexandre Dujarier, um dos líderes do Partido republicano francês. Era extremamente inteligente e falava 9 línguas com algum grau de fluência, segundo relatos da época. Frequentou círculos boêmios intelectuais em Paris, nos quais frequentemente era a única mulher admitida. Foi amante de Franz Liszt, conheceu George Sand, Alexandre Dumas, Balzac e Victor Hugo. Com as discussões dos círculos que frequentava, Lola tomou conhecimento das massas oprimidas e do poder manipulador dos jesuítas. Era fascinada por política e tornou-se uma republicana assumida.

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Se há ou não razões autobiográficas para J.N. ter decidido compor sobre Lola Montez, e mais especificamente sobre a relação entre Lola e o rei Luís I, é algo sobre o qual podemos apenas especular, e que evito nesse texto. O motivo: não há informação suficiente para embasar conexões entre a vida pessoal de Lola e de Joanna, praticamente nada além do fato de o condado onde Joanna cresceu, localizado no estado da Califórnia, ter seu pico mais alto e dois lagos na Tahoe National Forest nomeados em homenagem à Lola, que viveu na região entre 1853 e 1855. 

Conforme palavras da própria J.N. à época do lançamento do disco (que leva o mesmo nome da música), a narrativa presente em Have one on me procede de um estado mental da narradora, que oscila entre lucidez e uma espécie de alucinação febril. Esses dois estados não são, contudo, rigidamente contrapostos. Em ambos é possível notar um tom intensamente nostálgico e emocional, em que sentimentos múltiplos (e muitas vezes contraditórios) se misturam para compor não apenas a autocompreensão que Lola tem de sua vida, mas também, em certos momentos, a compreensão que os outros (os cidadãos bávaros, os jesuítas, ou mesmo o próprio rei Luís I) têm a respeito dela. Essa oscilação leva muito frequentemente à interpretação de que a história é narrada ora por Lola, ora pelo rei, ora pelos “outros”. Essa visão me parece equivocada. E pela seguinte razão: há uma clara tensão entre a autoimagem de Lola e sua fama, e essa tensão parece ser descrita do ponto de vista da própria Lola, justamente em um momento em que ela é capaz de fazer uma retrospectiva de sua vida que articula seus principais aspectos, mesmo aqueles sombrios e aflitivos que ela, quando jovem, não podia admitir ou mesmo visualizar adequadamente.

A hipótese mais concreta que encontrei foi a de que a narrativa parte de um estado alucinatório vivenciado por Lola nos dias finais de sua vida, no Asteria Sanatorium de Nova York, em dezembro de 1860. Nessa época, ela já tinha o lado esquerdo totalmente paralisado, possivelmente em decorrência de sífilis cerebral. Entretanto, se essa hipótese é a mais plausível, ela não é, contudo, inteiramente consistente, e tentarei mostrar o porquê mais adiante no texto. É possível pensar também que esse estado de insanidade seja decorrente de uma embriaguez, pois há referências ao abuso de álcool ao longo da música (sobretudo na parte final). Na dúvida, prefiro tomar como determinantes as palavras da própria J.N.: “alternating between kind of a fever and a breaking of the fever”.

Em todo caso, não há problemas em afirmar que a narrativa é dividida em três partes distintas: um momento inicial e um momento final de uma aparente lucidez (os cerca de cem segundos iniciais e os sessenta finais), e entre eles um longo período predominantemente alucinatório e repleto de oscilações de humor, em que Lola relembra momentos significativos de sua vida. É preciso marcar duas coisas: primeiro, não se trata de um momento estritamente alucinatório entre dois momentos de pura lucidez, pois a tese a ser defendida é a de que esses dois extremos se mesclam justamente para possibilitar a rememoração da verdade do passado (embora talvez se possa dizer que os momentos inicial e final sejam mais lúcidos, até mesmo do ponto de vista da melodia e da entonação). Em segundo lugar, paradoxalmente ou não, a abertura e o fecho da música, isto é, os momentos aparentemente mais sóbrios, são os de mais difícil compreensão, o que também colabora para a tese de que é só pelo recurso a distorções e imagens absurdas ou hiperbólicas que Lola consegue relembrar aspectos (em maior parte dolorosos) do passado. Alguns deles, como veremos, serão ficcionalizados por ela, mas trata-se de uma ficção utilizada para fazer a verdade transparecer com mais nitidez. 

Para ser mais específico, o bloco intermediário da música parte de uma nostalgia eufórica que acompanha a chegada de Lola à Baviera, passa por uma rememoração da relação entre Lola e o rei Luís, com a qual a narrativa vai ganhando um peso colérico, e arrebenta no final do bloco intermediário com um momento sarcástico, amargo, efusivo e quase que inteiramente fictício. Mas é importante marcar que a narrativa é toda temporalmente descontínua. Há saltos abruptos entre fases distintas, às vezes dentro de um mesmo verso. Tentarei, contudo, na medida do possível, encaixar os elementos em uma ordem cronológica. Para isso, pularei a parte inicial e começarei pelo bloco intermediário da música. Depois volto ao começo e engato junto o final.

Não é fortuito que Lola comece seu processo de rememoração do passado com uma menção à sua famosa “dança da aranha” (“here’s Lola – ta da! – to do her famous spider dance for you!...”). Trata-se dos anos dourados de sua vida, em que ela obtivera considerável prestígio com suas apresentações de início de carreira em cidades como Madri, Varsóvia, Berlim e Dresden. Em sua mais famosa coreografia, várias aranhas de borracha preta presas ao vestido de Lola caíam no chão enquanto ela se contorcia e fingia expressões de horror (há relatos de que em certos momentos ela erguia sua saia tão alto que a audiência podia perceber que ela não usava nada por baixo). Por fim, ela esmagava as aranhas com os pés, acompanhando o ritmo da música.

Mas aqui, essa lembrança já é trazida para o contexto em que Lola conhece o rei Luís I da Baviera, em 1846. Lola tinha 25 anos quando chegou em Munique. O rei Luís I, como tantos outros antes dele, ficou fascinado ao conhecê-la. Na letra, Lola se refere a ele como daddy longlegs (termo usado na Grã-Bretanha para um certo tipo de mosquito ou pernilongo), e se refere a si mesma como uma tarântula. Essa imagem pode ser explicada a partir de diferentes ângulos. Primeiramente, daddy longlegs” também se assemelha a outros vocativos de natureza paternal evocados na música (“pretty papa”, “pa”). Luís I era 35 anos mais velho que Lola, e vocativos dessa natureza, ao menos na língua inglesa, podem carregar alguma conotação sexual. Há interpretações também no sentido de que haveria aqui uma referência ao sentimento da falta de uma figura paterna, já que o pai de Lola morrera de cólera quando ela ainda era pequena. Em segundo lugar, Lola vai se referir a Luís I também como um “six-legged millionaire”, o que favorece a compreensão de daddy longlegs como pernilongo (é que, confusamente, esse termo também pode remeter a uma ordem ou família de aranhas. Seria Luís, afinal, uma aranha também ou um pernilongo?). Uma coisa é certa: um pernilongo seria uma presa fácil para uma tarântula, e essa foi a visão da relação entre Lola e Luís difundida tanto na época quanto posteriormente pela maioria dos biógrafos, em outras palavras, a de que Lola era uma manipuladora insensível em busca de poder e dinheiro e que usou o rei Luís exclusivamente como meio para esses fins. J.N. desconstrói essa visão. Uma biógrafa certa vez afirmou: “existem muitos relatos do fascínio do rei Luís pela dançarina, mas poucos fazem uma tentativa sincera de explicar os sentimentos de Lola pelo rei”. Se anteriormente deixei aberta a questão da razão do interesse de J.N. pela figura de Lola Montez, talvez essa seja uma possível resposta: tratar-se-ia de uma tentativa na contracorrente da reconstrução biográfica “canônica”. Mas essa é apenas uma especulação.

Na verdade, o relacionamento de Lola e Luís teve fortes motivações políticas. Luís I era um governante patriota e um amante das artes. Decidiu que transformaria Munique na cidade mais bela da Europa: guarneceu as avenidas com árvores, erigiu parques e museus, construiu a primeira ferrovia do país, inaugurou o primeiro barco a vapor e edificou um canal que ligava o Danúbio ao Meno. Quando Lola chegou em Munique, Luís I já reinava há 20 anos e era um autocrata extremamente popular. Politicamente, era partidário dos conceitos de liberdade e progresso. Com a ajuda de Luís, Lola estreou no Teatro da Corte. Ela e o rei tornaram-se melhores amigos.

Uma parte dos cidadãos de Munique, contudo, não compartilharam do mesmo entusiasmo. Pouco tempo depois da chegada de Lola, já fervilhavam histórias sobre seu passado. Impulsiva, escandalosa, liberal, anticlerical, mentirosa, impulsivamente franca. Essa era a imagem que boa parte dos cidadãos bávaros tinha dela. A imprensa jesuíta referia-se à ela como “a prostituta apocalíptica”.

No último período de seu reinado, Luís I viu seu poder definhar pouco a pouco com o fortalecimento da influência dos jesuítas, que tinham uma postura claramente reacionária. Se por um lado Luís I tinha o reconhecimento dos cidadãos bávaros por ter transformado a cidade provinciana em um grande centro de aprendizado (Munique havia se tornado uma cidade universitária), o desejo do monarca de proceder em suas reformas políticas havia quase que se exaurido completamente. Ele abandonara progressivamente suas ideias liberais para tratar da vida cultural de seus súditos, e após o movimento revolucionário de 1830, o poder dos jesuítas havia aumentado ainda mais. De repente, Lola aparecia para lembrar-lhe de suas convicções políticas de juventude, de sua intenção de ampliar a liberdade política de seu povo, e, sobretudo, do entrave que um governo controlado pelo clero representaria à conquista dessa liberdade. A influência que Lola passou a exercer sobre o reinado de Luís I causou revolta entre os católicos e conservadores, dentre os quais constava também uma importante parcela dos estudantes.

Mas o rei simplesmente fechava os ouvidos às críticas dirigidas à sua amada, para quem escrevia poemas todos os dias. Um mês após tê-la conhecido, Luís colocou Lola em seu testamento e comprou para ela uma casa na Barerstrasse, reformada por seu arquiteto pessoal conforme as especificações da dançarina. “Tudo que Lola quer Lola consegue” é o que se ouvia nas ruas de Munique quando itens muito apreciados deixavam a pinacoteca para adornar a casa de Lola. Esses eventos, juntamente com sua influência progressiva sobre o rei, tornavam-na cada vez mais mal afamada. Ela não recuava. Acusava a todos que discordavam dela de serem jesuítas. Andava pelas ruas de Munique com seu buldogue inglês, que eventualmente mordia os padres que passavam. Como os principais cargos acadêmicos da universidade eram nomeados pelo clero, os professores se posicionavam contra Lola. Já os estudantes estavam divididos. Um grupo chegou a formar uma fraternidade, que se reunia regularmente na casa de Lola para discussões.

Há um verso que faz clara referência aos conflitos entre Lola e os jesuítas: “at night I walk in the park with a whip between the lines of the whispering Jesuits who are poisoning you against me”. De fato, os esforços não apenas por parte dos jesuítas, mas também de outras camadas da população e da mídia para separar Lola e Luís se intensificavam através de cartas anônimas, panfletos caluniosos e caricaturas. Lola era acusada de ser amante dos estudantes da fraternidade, de despir-se diante da janela aberta, de obrigar suas costureiras a ajustarem suas roupas ao seu corpo nu, etc. Entretanto, mesmo com toda pressão popular e até mesmo com uma carta do papa Pio IX repreendendo Luís por “afastar-se do caminho da virtude”, o rei também não recuou. Ao contrário, propôs inclusive conceder à Lola a cidadania bávara, o que gerou uma revolta sem precedentes.

Mas que ainda não foi o fim. Após nomear novos ministros, Luís foi aclamado com entusiasmo por uma parte considerável do povo e também por governos estrangeiros. O grito “Lola e liberdade” passou a ser ouvido nas ruas. Aproveitando o momento de popularidade, o rei recompensou Lola com a nacionalidade bávara, nomeou-a condessa de Landsfeld e entregou-lhe a Ordem de Santa Teresa com o aval da rainha. Lola recebeu também uma propriedade rural e uma renda anual de vinte mil florins. Isso não apenas aumentou o furor da aristocracia e do partido conservador, como também acirrou a rivalidade entre os estudantes conservadores e os da fraternidade de Lola.       

O ápice dessa rivalidade se deu quando um professor católico muito popular censurou o rei por motivos morais, e Luís obrigou-o a demitir-se. Uma demonstração dos estudantes em defesa do professor em frente à casa de Lola transformou-se em tumulto. Enquanto a multidão jogava pedras e quebrava janelas, Lola brindava às pessoas de sua sacada com champanhe e atirava doces. Os estudantes ficaram enfurecidos. Após uma dessas grandes manifestações contra Lola, o rei fechou a universidade e expulsou todos os estudantes estrangeiros. Essa ordem teve terríveis consequências, pois havia ao menos mil estudantes estrangeiros em Munique. No dia seguinte, uma multidão reuniu-se nas praças exigindo que Lola fosse expulsa da cidade. Os ministros informaram ao rei que não poderiam garantir que a polícia seria capaz de manter a ordem por muito tempo. Em 11 de fevereiro, Luís I assinou uma ordem banindo Lola Montez da Baviera.

Lola partiu de trem, e há trechos da letra de J.N. que captam esse momento traumático: (“...and then, later, on a train. It was dark out, I was half-dead”). Depois de todas as declarações de eterna lealdade por parte do rei, uma decisão como essa fez com que Lola despencasse de uma posição em que ela pensava estar segura. Na verdade, ela não compreendia nem a atitude do rei, e talvez menos ainda a do povo, que fora libertado do cativeiro jesuíta graças aos seus esforços. Na música, a partida de Lola Montez parece estar sendo contada do ponto de vista daqueles que estavam fora da relação, e consequentemente de um ângulo bastante superficial (“and the old king fell from grace while Lola fled to save face and her career”), como se Lola tivesse espontaneamente decidido deixar Luís após tê-lo feito perder todo o prestígio que ainda lhe restava.
   
Lola partiu para a Suíça, depois para a Inglaterra, depois para os EUA, depois para a Austrália (há uma referência na música às apresentações de Lola na cidade de Castlemaine, em um teatro recém-inaugurado no qual ela teria sido a primeira a se apresentar. Nessa estrofe, Lola parece narrar do ponto de vista do rei, que estaria desapontado ao ver até que ponto a dançarina teria sido capaz de ir por fama e dinheiro (“Miss Gilbert called to Castlemaine by the silver dollar and the gold glitter! / well, I've seen lots but never, in a million years would think to see you, here”)). Por último, Lola voltou aos EUA, onde viveu até seus últimos dias.

Há relatos (sem confirmação), porém, de que Lola teria voltado algumas vezes à Baviera para rever o rei. Segundo uma biógrafa, “numa carta para seu amigo von der Tann, Luís declara que Lola implorara para que ele fosse unir-se a ela na Suíça, mas ele preferiu permanecer em Munique”. Há um trecho em que fica visível um sentimento sólido da parte de Lola em relação ao rei (“Though the long road begins and ends with you...”). O que não basta, contudo, para apagar todo transtorno passado (“...I cannot seem to make amends with you, Louis...”), até mesmo porque uma multidão de bávaros raivosos estaria sempre à espreita para capturá-la (“...when we go out they’re bound to see you with me”).

O que nos leva a um aspecto muito importante da narrativa: Lola não é estritamente vilã nem vítima. Por um lado, sua má fama rescendia em todos os cantos (“heaven has no word for the way you and your friends have treated poor Louis / may God save your poor soul, Lola”), e ela era vista como a tarântula predadora que queria capturar o pernilongo em sua teia (“you caught a fly, floating by / wait for him to drown in the dust; drown in the dust of other flies”). Esse comportamento não pode ser enquadrado em termos morais, pois é tão somente o modo de funcionamento natural dessa criatura (“whereby the machine is run and the deed is done”). Por outro lado, ela também é “poor Lola”, e se sente uma criança indefesa nos braços do rei, não hesitando em clamar por sua proteção paternal em momentos de fragilidade (“there’s a big black spider hanging over my door / can’t go anywhere, anymore / tell me, are you with me?”). J.N. realmente não parece estar interessada em uma caracterização de cunho moral. Ela entende que Lola era apenas Lola: destemida e frágil, cruel e dócil, traidora e traída, manipuladora e manipulável. Uma das análises que li apresenta uma descrição que vale a pena ser citada na íntegra: “At the end of the day, Lola was in fact a rather erratic person who lived on the edge all the time, without any kind of boundaries or attachments to society, or even reality, and if you add the excess and the alcohol factor (very obvious in this song) and the need to love and be loved back, it does make sense and it is beautiful. She never did and still does not know who they were, the same way she never truly got to understand who she was and what she was looking for in her wreckless search”. Essa visão não me parece, contudo, inteiramente acertada. Ela perde de vista o engajamento político de Lola, e o fato de sua influência sobre o reinado de Luís I ter atingido uma tal dimensão que, para muitos, a verdadeira líder do liberalismo na Baviera seria Lola, e não Luís. Assim, não me parece nada factível que a dançarina estivesse completamente descolada da sociedade. Mas prefiro não desdobrar essa questão.

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Passemos para o momento final do bloco intermediário, a meu ver a parte mais extraordinária da música. Lola começa a descrever a cerimônia do casamento entre ela e Luís I. Um detalhe, porém: eles nunca se casaram. Certamente, como expressão de um desejo não realizado, essa estrofe é quase que inteiramente ficcionalizada.

No lugar de uma cerimônia solene e feliz, o casamento é um caos completo. O momento de jogar o buquê, por exemplo, parece terminar em tragédia (“I threw my bouquet and I knocked ‘em dead”). Surgem então mais referências a um estado de embriaguez (“bottle of white, bottle of red”), que ajudam a explicar os saltos cada vez mais frequentes na narrativa. Lola aparece ainda mais emocionalmente expressiva (“helpless as a child when you held me in your arms and I knew that no other could ever love me as you loved...”), e em seguida implora para que o rei permita que ela permaneça na Baviera, ou peça para que ela fique (“but help me! I’m leaving!). Lola parece então descrever o momento de sua partida, agregando elementos aleatórios por meio de fluxos de consciência, e as memórias correm tão rápido que é quase impossível examiná-las em alguns momentos. E aqui começa a construção da imagem de um descompasso entre uma realidade projetada e a realidade crua, de algo que deveria ser belo, mas não é – como a sensação áspera da barba por fazer, no momento em que o rei agarra Lola e aperta-a contra si. Em seguida, um amontoado de lembranças de diferentes épocas da vida de Lola, combinadas para formar uma única situação. Lola diz “that night I came upstairs, half-dead and, in your kindness, you put me straightaway in the cupboard...”, o que parece remeter a algo que aconteceu antes de sua ida para a Baviera: quando Lola estivera na Rússia, há relatos de que o czar Nicolau a trancou em um guarda-roupa no momento em que eles tiveram uma de suas discussões políticas secretas interrompida pela aparição repentina de um funcionário (o que mostra que o interesse de J.N. por Lola Montez ultrapassa a relação entre a dançarina e o rei Luís). Em seguida, mais referências a álcool (“...with a bottle of champagne”) e à viagem de trem (“and then, later, on a train”). No trem, ela vê uma estrela caindo no céu, mas não se trata de uma estrela cadente, para a qual ela poderia fazer um pedido, mas sim de um pedaço de carvão cuspido por Deus, que é um rato encurralado (talvez uma alusão ao modo como a própria Lola se sentia no momento?) (“as if god himself spat like a cornered rat”).

O clímax se dá quando Lola se dirige a Luís e, em tons de súplica, pede a ele para que beba junto com ela (“I really want you to do this for me, will you have one on me?” / “don’t you worry for me! Have one on me!”). Em seguida, ela repete o gesto sarcástico que fizera de sua sacada, diante dos estudantes bávaros em fúria, mas dessa vez voltando-se para o rei: ela não somente quer brindar com ele, mas também à ele. Essa é a expressão máxima da fragilidade de Lola, que ironicamente celebra a rapidez com que o rei foi capaz de descartá-la no momento em que teve de optar entre ela e a manutenção de seu reinado (“meanwhile, I will raise my own glass to how you made me fast and expendable / and I will drink to your excellent health and your cruelty / will you have one on me?). Com base na melodia é possível notar que esse é o momento mais vibrante da música toda. Me parece que a continuação poderia ser decifrada como uma canção sendo tocada pela banda durante a insana cerimônia do casamento de Lola e Luís (e ela dissera anteriormente: “you asked my hand / hired a band...”). A euforia se intensifica progressivamente até arrebentar o instante e fazer a narrativa retroceder para o início. Lola acorda do sonho, da embriaguez ou da alucinação febril e recobra (alguma) consciência.  
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Terminemos com a abertura e o fecho da música, que são quase idênticos. A primeira cena é o momento da manifestação raivosa em que Lola brinda aos estudantes de sua sacada. Mas há elementos difíceis de serem bem encaixados com base puramente nos acontecimentos históricos. Lola ouve um copo cair (seria a taça de champanhe?) e pensa: “well, that’s why they keep them around”. O que eles “mantém por perto” seriam as tropas e os guardas que protegiam Lola dos ataques dos manifestantes. Estes vão se tornando cada vez mais violentos, e Luís refere-se a eles como “blackguards” (em francês, canaille), isto é, o “povão”, a “ralé”. Em algum momento, alguém é ferido e morre (“the blackguard sat hard, down with no head on him now”), e Lola se sente mal por não conseguir sentir-se mal o suficiente para deixar o rei orgulhoso (pois ela sabe que ele se sentirá mal por aquele que morreu, enquanto que ela encontra-se inteiramente indiferente, brindando e atirando bombons na multidão).   

Logo adiante, Lola está escrevendo uma carta para Luís, supostamente pouco tempo depois de sair da Baviera (o que romperia com a interpretação segundo a qual a narrativa seria proveniente dos dias finais da vida de Lola, e daria margem para pensarmos que a música inteira se passa no momento em que Lola está bêbada e indo embora de trem, o que é plenamente plausível): “by the time you read this I will be so far away...”. Em seguida, ela parece lamentar novamente sua própria partida, ao mesmo tempo reconhecendo que, nas circunstâncias dadas, nenhuma outra via era possível ("daddy longlegs, how in the world am I to be expected to stay?").
         
O fecho repete a primeira estrofe e termina com Lola perguntando reiteradamente a Luís se ele está orgulhoso dela, se ela conseguiu sentir-se mal o suficiente, se ela agiu certo. Como afirmei no início, a abertura e o fecho são os momentos mais difíceis para extrair uma interpretação convincente, e essa que apresento aqui de fato não me parecer ser. Mas há algo que podemos captar e que se sobressai a esse emaranhado de detalhes que não podemos adequadamente entender. Trata-se da ânsia de Lola pela aprovação do rei, que faz com que ele reapareça como a figura paterna capaz de amá-la como nenhum outro conseguiria. Embora haja momentos em que Lola pareça conscientemente se vitimizar para fazer o rei sentir-se mal por ela.

Cabe portanto perguntar, com base na complexidade abismal que é a relação entre Lola e Luís, se a imagem predador/presa ou tarântula/pernilongo seria mesmo pertinente. Do ponto de vista da opinião popular, é evidente que sim. Do ponto de vista de Lola ou do rei, contudo, essa imagem desmorona com facilidade. Mas, vale a pena lembrar, não é apenas o ponto de vista de Lola que parece estar sendo levado em conta na narrativa, por mais que a voz seja dela. É a tensão entre a imagem socialmente construída de uma manipuladora fria e inflexível e uma autoimagem muitas vezes fosca, trêmula e incerta que me parece guiar a reconstrução do passado empreendida pela narradora.



Referências: Os dados biográficos e históricos foram, em sua maioria, coletados a partir do livro Cupid and the king, de HRH Michael of Kent. As interpretações que me foram úteis retirei de songmeanings.com, genius.com e allthebirds.tumblr.com. A entrevista mencionada está aqui. A música juntamente com a letra está aqui. Uma versão ao vivo memorável está aqui. Não posso deixar de mencionar também o filme extraordinário de Max Ophüls intitulado Lola Montés, de 1955. 

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Quatro pequenos fluxos amorfos


I
 
Os dias amassados cintilavam, as noites passavam rápidas sem ter acontecido nada, e não havia esperança possível. Crianças despencavam dos abismos junto com os carros, os lustres trêmulos, os crânios e os defuntos amarelecidos. O tempo passa e despencamos de nós mesmos de tão velhos. Nas cavernas o conforto é infinito: somos abraçados por pequenas cobras brilhantes que rastejam por todo canto e dormem na pedra conosco. A linguagem cria uma nova escuridão para nos contorcermos. Eu amo você, vou ficar ao seu lado, vou te abraçar com seus próprios braços, e você terá amor infinito. O que é que não vai bem, além de tudo? O que há com você que não pode ser estilhaçado sem muitos prejuízos? Deixemos de lado as perguntas. Venha cá e deite-se comigo, vamos olhar as estrelas inexistentes no teto escuro. As palavras não têm absolutamente nenhuma serventia. Mas venha cá e me abrace, se abrace a si mesmo. Sinta o ar se tornando menos tóxico, as crianças rolando pelas pedras morro abaixo. Você terá amor infinito. Não há respostas nem perguntas.
 
II
 
As cobras brilhantes nos amam diretamente dentro de nossos olhos. Não suportamos tanto amor, somos insuportáveis de tão amargos. Larvas e vermes dentro de nós aguardam ansiosamente pelo grande banquete final, e nós também. Pelo dia em que nos tornaremos verdes, nossos olhos explodirão das órbitas, e os lábios em decomposição revelarão pela primeira vez um sorriso consistente. O tédio futuro, como o presente, será infinito. Por ora nos contentamos em desaparecer dentro das cobertas. No espelho vemos um contorno sem recheio, e o tempo desintegra as coisas que poderiam estar sendo. Venha e sente-se ao meu lado um pouco. Vamos pensar sobre o mundo em que gostaríamos de estar existindo. Onde os crustáceos fossem livres para caminhar pelas ruas. Onde pudéssemos, na plenitude de nosso desapego, comer almeirão todo dia. E onde os dias não fossem tão tétricos, não tanto quanto nossos sorrisos tão tétricos. E as memórias fossem leves como um pequeno embrião abortado. Com certeza que a vida seria tão alegre que as palavras escorreriam de todos os nossos orifícios, encantaríamos as pessoas com os melhores discursos sobre os mais refinados assuntos, como ostras e bolor. Chegaríamos tão no topo da felicidade que isso seria a morte, e não adiantaria de nada. Mas não pensemos em mais nada por enquanto, venha e sente-se ao meu lado.
 
III
 
Fora do absurdo só resta a morte certa. Por isso vamos imaginar algo capaz de nos manter afastados da realidade. Olhe para o céu escuro e pense em explosões solares, em acidentes aéreos e em naves extraterrestres. Quando escrevemos, tapamos os buracos com uma massa provisória que logo no dia seguinte já descolou. Não tem importância, escreve-se novamente. Olhe para mim e não me veja. Se me viu, olhe novamente para mim e não me veja, repita o mesmo procedimento infinitamente. Tudo se torna mais e mais complexo a cada dia que passa. Chegará o dia em que a complexidade será tanta que não conseguiremos nem mesmo entender que não entendemos. A complexidade será incomensurável consigo mesma. Esse será um dos eventos mais extraordinários do universo, mal conseguiremos relatá-lo. Por isso vamos esquecer um pouco da complexidade das coisas e vamos tão somente fritar um ovo ou sair para comprar meias. São pequenas atitudes como essas que nos salvam. Que nos salvam do passado mal vivido, que nos salvam dos traumas grotescos, daquele dia em que, no escuro, tivemos mais uma desilusão. Não pense, não pense para sempre! Esqueça, esqueça para sempre! Encoste-se em mim e mantenha a calma. Ainda se é jovem, poderia ser pior. Ainda se está vivo, poderia ser pior. Ainda há chá e café no armário, poderia ser pior. O pior não é o passado, nem de longe. O pior é o que está por vir. Vamos rolar juntos pelo chão e esquecer de tudo, menos dos sonhos sem sentido, como aquele em que um cachorro azul latia incessantemente, e que nos aterrorizou até os ossos porque se tratava do próprio demônio em formato de cachorro.
 
IV
 
“Se oito mil dias pesam como uma bigorna, então espere só mais dez anos para ver como será”. Há um deus com um humor negro refinadíssimo que me diz essas coisas o dia todo. Estou cansado e nem ouço mais. Na verdade, só dou ouvidos aos demônios, que são sempre muito prestativos e me auxiliam nas tarefas de rotina. Acordo todos os dias muito cedo para cumprir uma espécie de ritual: trocar lâmpadas fortes pelas queimadas, varrer cacos de cerâmica para debaixo dos tapetes, ferver água para o café até evaporar, ferver água novamente, cortar os pulsos com espátulas, etc. Depois o dia está aberto para o que der e vier. Podemos nos sentar e pensar sobre os fracassos? Mas é claro. E sobre o passado que deveríamos refazer? Pois melhor ainda. Temos de cuidar para não nos lembrarmos que, enquanto estamos lamentando o passado, acumulamos ainda mais tempo para se lamentar sobre. Colamos bilhetes pelas paredes para não nos lembrarmos disso. É preciso viver com muito cuidado, sem chegar propriamente a viver. Que há no mundo de mais maravilhoso que as oportunidades que não se concretizam? Precisamos nos livrar de pensamentos como esse. Vamos pensar seriamente sobre viver de alegria. Vamos perceber que o problema maior não é a falta de sentido da vida, pois há pessoas que vivem muito bem no interior da falta de sentido. Prazer e dor se confundem em tudo o que existe na face da terra. Há dias em que a alegria é cheia de agonia e a tristeza cheia de doçura. O amor é tão doloroso quanto a falta dele. Seria isso a falta de sentido? Não há como saber. É preciso amar as pessoas, especialmente aquelas que sabem que não há conforto possível na vida, que “ninguém descansa em cadeira de dentista”. Temos compaixão por elas e por nós mesmos. E também temos ódio e rancor por nós e por todos. Nada adianta para nada: pensamos sobre várias coisas e nada adiantou para nada. Fizemos tudo errado. Levamos tudo a sério demais. Não conseguimos nos salvar. Nossa missão para sempre impossível: salvar quem não quer ser salvo. Venha cá e me abrace novamente. O céu está altíssimo e não há sombra de dúvida. O sol está altíssimo e nós irreconhecíveis. Deixemos de lado as palavras toscas. Venha cá e me abrace. Vamos partir em segredo dessa para uma melhor.