segunda-feira, 15 de julho de 2013

Quatro pequenos fluxos amorfos


I
 
Os dias amassados cintilavam, as noites passavam rápidas sem ter acontecido nada, e não havia esperança possível. Crianças despencavam dos abismos junto com os carros, os lustres trêmulos, os crânios e os defuntos amarelecidos. O tempo passa e despencamos de nós mesmos de tão velhos. Nas cavernas o conforto é infinito: somos abraçados por pequenas cobras brilhantes que rastejam por todo canto e dormem na pedra conosco. A linguagem cria uma nova escuridão para nos contorcermos. Eu amo você, vou ficar ao seu lado, vou te abraçar com seus próprios braços, e você terá amor infinito. O que é que não vai bem, além de tudo? O que há com você que não pode ser estilhaçado sem muitos prejuízos? Deixemos de lado as perguntas. Venha cá e deite-se comigo, vamos olhar as estrelas inexistentes no teto escuro. As palavras não têm absolutamente nenhuma serventia. Mas venha cá e me abrace, se abrace a si mesmo. Sinta o ar se tornando menos tóxico, as crianças rolando pelas pedras morro abaixo. Você terá amor infinito. Não há respostas nem perguntas.
 
II
 
As cobras brilhantes nos amam diretamente dentro de nossos olhos. Não suportamos tanto amor, somos insuportáveis de tão amargos. Larvas e vermes dentro de nós aguardam ansiosamente pelo grande banquete final, e nós também. Pelo dia em que nos tornaremos verdes, nossos olhos explodirão das órbitas, e os lábios em decomposição revelarão pela primeira vez um sorriso consistente. O tédio futuro, como o presente, será infinito. Por ora nos contentamos em desaparecer dentro das cobertas. No espelho vemos um contorno sem recheio, e o tempo desintegra as coisas que poderiam estar sendo. Venha e sente-se ao meu lado um pouco. Vamos pensar sobre o mundo em que gostaríamos de estar existindo. Onde os crustáceos fossem livres para caminhar pelas ruas. Onde pudéssemos, na plenitude de nosso desapego, comer almeirão todo dia. E onde os dias não fossem tão tétricos, não tanto quanto nossos sorrisos tão tétricos. E as memórias fossem leves como um pequeno embrião abortado. Com certeza que a vida seria tão alegre que as palavras escorreriam de todos os nossos orifícios, encantaríamos as pessoas com os melhores discursos sobre os mais refinados assuntos, como ostras e bolor. Chegaríamos tão no topo da felicidade que isso seria a morte, e não adiantaria de nada. Mas não pensemos em mais nada por enquanto, venha e sente-se ao meu lado.
 
III
 
Fora do absurdo só resta a morte certa. Por isso vamos imaginar algo capaz de nos manter afastados da realidade. Olhe para o céu escuro e pense em explosões solares, em acidentes aéreos e em naves extraterrestres. Quando escrevemos, tapamos os buracos com uma massa provisória que logo no dia seguinte já descolou. Não tem importância, escreve-se novamente. Olhe para mim e não me veja. Se me viu, olhe novamente para mim e não me veja, repita o mesmo procedimento infinitamente. Tudo se torna mais e mais complexo a cada dia que passa. Chegará o dia em que a complexidade será tanta que não conseguiremos nem mesmo entender que não entendemos. A complexidade será incomensurável consigo mesma. Esse será um dos eventos mais extraordinários do universo, mal conseguiremos relatá-lo. Por isso vamos esquecer um pouco da complexidade das coisas e vamos tão somente fritar um ovo ou sair para comprar meias. São pequenas atitudes como essas que nos salvam. Que nos salvam do passado mal vivido, que nos salvam dos traumas grotescos, daquele dia em que, no escuro, tivemos mais uma desilusão. Não pense, não pense para sempre! Esqueça, esqueça para sempre! Encoste-se em mim e mantenha a calma. Ainda se é jovem, poderia ser pior. Ainda se está vivo, poderia ser pior. Ainda há chá e café no armário, poderia ser pior. O pior não é o passado, nem de longe. O pior é o que está por vir. Vamos rolar juntos pelo chão e esquecer de tudo, menos dos sonhos sem sentido, como aquele em que um cachorro azul latia incessantemente, e que nos aterrorizou até os ossos porque se tratava do próprio demônio em formato de cachorro.
 
IV
 
“Se oito mil dias pesam como uma bigorna, então espere só mais dez anos para ver como será”. Há um deus com um humor negro refinadíssimo que me diz essas coisas o dia todo. Estou cansado e nem ouço mais. Na verdade, só dou ouvidos aos demônios, que são sempre muito prestativos e me auxiliam nas tarefas de rotina. Acordo todos os dias muito cedo para cumprir uma espécie de ritual: trocar lâmpadas fortes pelas queimadas, varrer cacos de cerâmica para debaixo dos tapetes, ferver água para o café até evaporar, ferver água novamente, cortar os pulsos com espátulas, etc. Depois o dia está aberto para o que der e vier. Podemos nos sentar e pensar sobre os fracassos? Mas é claro. E sobre o passado que deveríamos refazer? Pois melhor ainda. Temos de cuidar para não nos lembrarmos que, enquanto estamos lamentando o passado, acumulamos ainda mais tempo para se lamentar sobre. Colamos bilhetes pelas paredes para não nos lembrarmos disso. É preciso viver com muito cuidado, sem chegar propriamente a viver. Que há no mundo de mais maravilhoso que as oportunidades que não se concretizam? Precisamos nos livrar de pensamentos como esse. Vamos pensar seriamente sobre viver de alegria. Vamos perceber que o problema maior não é a falta de sentido da vida, pois há pessoas que vivem muito bem no interior da falta de sentido. Prazer e dor se confundem em tudo o que existe na face da terra. Há dias em que a alegria é cheia de agonia e a tristeza cheia de doçura. O amor é tão doloroso quanto a falta dele. Seria isso a falta de sentido? Não há como saber. É preciso amar as pessoas, especialmente aquelas que sabem que não há conforto possível na vida, que “ninguém descansa em cadeira de dentista”. Temos compaixão por elas e por nós mesmos. E também temos ódio e rancor por nós e por todos. Nada adianta para nada: pensamos sobre várias coisas e nada adiantou para nada. Fizemos tudo errado. Levamos tudo a sério demais. Não conseguimos nos salvar. Nossa missão para sempre impossível: salvar quem não quer ser salvo. Venha cá e me abrace novamente. O céu está altíssimo e não há sombra de dúvida. O sol está altíssimo e nós irreconhecíveis. Deixemos de lado as palavras toscas. Venha cá e me abrace. Vamos partir em segredo dessa para uma melhor.

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