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segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

Pantufas se foi



Pantufas se foi. Eu seguiria sem meu osso para procurá-lo, mas ainda não cresceu uma manhã, e eu não entendo como produzir um começo. Ele já deve estar perto ou longe? caminhei dezoito quilômetros na garoa florescida sobre a cidade. É ridículo demais, eu cabia em suas costas. meu amigo ainda não espera por mim? ainda que eu possa amar sua barriga? meu amigo me assusta quando não me espera. Ele me diz para ficar calmo, eu já disse que continuo apenas por um pontilhado fraco, quase no fim. posso cortar novamente suas unhas com calma, escovar sua crina macia pela manhã. Todos já morreram, eu fui o último que restou? O último de um bando disforme? Fortifico nossa casa. se você voltar, posso tricotar uma cortina, posso retirar os tijolos e lixá-los um a um, sem problemas, e posso limpar a mesa empoeirada. A árvore cresce para cima elevando também os fios de luz tão macios, agradáveis. Levo você até ali embaixo para ver os fios, você ronrona junto a mim, eu abraço você por inteiro, aperto sua barriga e mordo a pele fininha das orelhas. você apenas ronrona e ri até das minhas varizes. Não há mais lâmpadas em flor a serem acesas em um fio. Você torce meu pescocinho para me ajudar a continuar. Guarda minhas pedras em sua mochila pesada. Retorna minhas ligações do ano anterior. Me lembra todo dia, ao acordar, de que sou uma pessoa. Eu custo a lembrar. Com sono, encosto a mão em sua pata. Um mosquito pousa em algum lugar do cômodo. Eu observo sim, é claro. Ouço vozes de crianças me macetando. Não desejei feliz páscoa a ninguém. Eu acho que meu amigo está muito forte – ele conseguiria rolar comigo lá fora, brincar no pasto, incendiar qualquer um que se opusesse. Preparo os ovos desidratados para nossa próxima refeição. às vezes me perguntam se já estou dormindo. Saímos para mais um jantar logo depois de comer. Você pode me ajudar, você foi ensinado a roer. Roemos uma estrutura de aço inteira em poucos dias ou horas. Você puxa a abertura e me coloca como se eu fosse estar confortável. Eu finjo que estou e prossigo (não posso desagradá-lo, ele pode me deixar sucessivas vezes, para sempre). estoura uma lâmina no meu ouvido direito. não quero ter que recortar suas pálpebras, pois estou absolutamente sozinho e precisaria de alguma ajuda humana para resgatar. A vegetação é espessa, cai um pedaço antes de dormir. Faz sentido transitar aqui? Um olho em meu jardim pequeno, This coming gladness em meu funeral. Josefina entrega um buquê de qualquer flor ordinária que ela catou em um terreno baldio. Desejo então um bom dia a todas as coisas que acontecem, ao gato que olha e dorme, à pomba que se desfaz sobre a cama, ao arado tombado na porta, a esse desfiladeiro ao meu lado, ao demônio que me comunica quieto e deixa meus chinelos enfileirados para minha comodidade pela manhã. Agradeço a cada um individualmente, você me ergue do chão, estou encapsulado. Colocamos nossas capas de chuva, a minha está furada como uma peneira, a sua não chega a servir, mas fingimos muito cuidadosamente e saímos pelo meio do mato. Decidimos existir praticamente do nada! Uma coisa acontece, um céu muda seus contornos, sua base de sustentação. Eu rio de qualquer coisa parada. meu amigo salsichas devolve seu pequeno olhar para mim e eu desabo, choro durante setenta minutos e paro logo depois para escorrer o molho das lentilhas que já começam a brotar. Sento-me seco sobre uma coisa qualquer, paro de respirar por um momento e depois volto. Você era a única pessoa que compreendia meu sonambulismo crônico. Como prosseguir sem romper? Retiro alguma coisa que eu disse para fazer você voltar. Ele me olha fixo e diz: "você é meu companheirinho, você não é corajoso, eu também te amo, etc". Eu não consigo chegar a nenhuma parte de mim e nem dos outros. Eu posso tranquilamente desovar cada um deles, mas não você. Mas, e se você estiver certo? E se você esteve certo esse tempo todo e eu sou uma pessoa? Eu rio demais sem conseguir entrar no papel. Eu me lembro a todo momento e me canso, vou ouvir para sempre seu relinchar alegre. E cada vez que levantar da cama pensando em morrer. E cada vez que souber de uma coisinha no quintal, ou cada vez que começar a suspeitar. Agora estou sinceramente partido no meio. De onde vem esse prazer enorme em não pertencer? Duas cavernas se abrem na minha frente e eu entro na segunda. E se hoje digo a você que quero sair? Vamos até o ponto mais próximo, com certeza, a qualquer lugar em que a coisa esteja acontecendo. Ah, vamos sim... eu escovo os dentes maciamente enquanto espero, meu amigo traz toda a roupinha para que possamos sair calmos, indigestos. Você pode encaixar todo tormento em mim e me embalar como se eu fosse o seu tormento. Por todo o trajeto eu não penso que não vou me divertir, pois ele nunca está comigo por brincadeira. Eu celebro cada segundo, apenas me certifico de que meu cálcio esteja sendo absorvido lentamente, sem interromper. Porém, se não tenho mais imaginação, preciso ser levado ao outro lado contigo. Duas horas antes de receber a notícia, escrevi "Eu não posso vê-lo crescer. Eu já estou restrito a um outro universo". Que universo é esse? isso agora é fundamental. Se eu machuco a minha membrana no caminho, você interrompe comigo para reanimar. Volte e me ajude a cuidar por mais um segundo, antes que eu me esqueça! se eu pular fora antes do momento marcado, algo inesperado pode acontecer. Eu já estou pronto para decidir. Não há nenhuma opção no forno, e estou sozinho. Eu posso remar, mas preciso de ajuda, eu preciso que você me ajude a me mover para as próximas horas, senão não consigo definhar. Você não entende que por alguns dias sou incapaz de existir? Achei que você pudesse entender. Você não pode – como ele fez – me dizer que a maionese é uma bela comida, que as coisas são assim e assado, etc. Eu desafio qualquer coisa que possa estar chegando, você me incentiva a continuar sem osso nenhum, vê se pode! Incrível como nenhum osso. O trem está pegando fogo? Por que eu vomitava tanto? Acho que isso também eu nunca te contei. Éramos resolutos e infelizes. Você também pode supervisionar a minha barriga enquanto caminhamos no quintal. Eu deduzo que há uma terceira pessoa aqui conosco rindo por trás da minha cabeça, preparando o campo para me decapitar. Eu sinto e ele ri, ri por completo. Agora é como se todas as horas também estivessem dormindo, ressonando.


sexta-feira, 7 de setembro de 2018

Há um número de pequenas coisas



Andamos por todos os ventos na cidade. Alguém vai me salvar, – minhas vísceras já estão prontas. Eu repouso nos seus ombros mais secos, cuidando para não esfarelá-los. E assim eu faço cada dia. Não aceito nada menos que um não bem redondo na cara. O sol nasce sonoro, as estruturas do espaço amolecem com o calor. Eu colho suas palpebrazinhas, você me embala para dormir (sem sucesso). Doze bagres são nossos filhos e não sabemos como alimentá-los. Eu estou sonâmbulo até esse poste, mais alto. Vou amassar seus olhinhos para mim. O sofrimento é pequeno, infinito. E não adianta rir em silêncio, eu compactuo com minhas próprias ideias, executo todos os procedimentos sem hesitar. Desconheço outra forma de viver. Me concentro, psicografo enquanto os ovos cozinham, enquanto a coisa atravessa meu crânio. E, quando atravessa, eu não imagino outras possibilidades. Não há outra coisa que possa acontecer. Encolho minhas pálpebras em gratidão. Você está claramente sem reação, como se essa cena absurda fosse indissolúvel. mas você pode usar qualquer coisa para derreter esse gelo sobre meu colo: uma espátula, uma ostra fresca, uma betoneira. Enquanto experimentamos ainda mais o sol (os raios), os planetas continuam em pedaços. Mas eu piso em falso sempre que tento sair. Os pedaços estão disparatados. Apenas não recue, jamais. 

Por onde ele continua andando, eu entendo cada uma das flores depositadas. Vivemos dentro dessa tigela por tantos meses ou anos. Espero que renasçam todas as ervas, todos os pesos. Nada aqui pode fazer sentido, mas também, se algo fizer, será suficiente para destruir uma imagem? uma memória? não se sabe exatamente se toda lentidão foi construída ou rompida, despejada ou evaporada de antemão. Não troquei nenhuma palavra de manhã, nem a tarde. A flor desabrocha em meu ninho. Conquisto os próximos mares a pé, tremendo. Esqueço-me de todas as vezes em que fomos ao quintal, ao arbusto, em frente ao portão. Despedimo-nos antes que eu partisse a pé, eu poderia rastejar pelas ruas sem incômodo. fui embora pelo asfalto, passei pela janela, cobri os ossos, deixei de estar no temporal, cobri os pequenos animais que passavam. Não tem nenhuma importância estar vivo. Não tem problema e é agradável, eu me divirto com cada farpa. Nenhuma pessoa consegue observar, descrever o movimento, o próximo enquadro especial. Não deixo de observar suas sonolências. Você também não resiste de maneira particular. Não falo exatamente nada. Mas não acredite em nada do que está acontecendo, por favor. Eu também não acredito que você está aqui, e você esteve aqui o tempo todo. Eu agradeci e continuei seguindo pela estrada. Chegamos depois pela janela. Entrei, você riu e eu ignorei, como se ninguém tivesse existido na face da terra. Eu deveria estar aconchegado no meu ovo. Depois da longa viagem, chegamos e entramos pela janela. Eu vejo seu bico florescer. Não registro as próximas horas porque elas não passam a contar. Já desisti de todas as escoriações. Quando você resolveu meu braço, meu espaço oco. Não compreendeu nenhuma de minhas falhas como uma construção mole e macia. Vou começar a contar adiante os passos. Vou começar e peço que me ajudem: por onde você continua andando, carcomendo os cantos. Eu então dou um passo em falso. Você coloca suas patas em volta de mim, você sabe que eu não preciso de punição. Todas as próximas ostras estão recolocadas em um pardal, em um próximo fio ensolarado. Não existe nenhum método seguro para sobreviver. retorno para que possamos viver em ventos mais fortes, para que você possa abraçar minha cabeça. Mas se você chega, toca a campainha, entra até aqui sem minha permissão, eu olho cansado, não tenho claro para mim os meus procedimentos, aquilo que pretendo concretizar. Agora preciso de ajuda para reconstituir os passos. você sabe, no fim das contas, quem me tirou daqui? Quem foi levado até o próximo altar? Eu não soube de nada, eu mal retornei as ligações, e assim esperei que uma resposta melhor se formasse (e que viesse de mim, sobretudo). Ninguém sente a pálpebra salgada sem os ovos. Aqui fui depositado e não encantei ninguém. Fui celebrado até a próxima horda, até o próximo avestruz. Fui também silenciado por todos aqueles que entraram nessa casa e sentaram em torno da mesa, quietos, esperando que eu servisse a carcaça de um pardal. Esperando o próximo movimento ruim. Você entende? Desconheço as próximas aventuras. Se eu puder emprestá-los essa forma de viver, eles poderiam olhar. Eles nos olhariam com os beicinhos mornos, caídos? Ele é macio, está ressonando ao meu lado. não perdi a batalha ainda, mas quase. Estourei todos os legumes de uma só vez. Estou psicografando as cestas maiores, colocou o ovo dentro de mim. Mas os mortos não olham. Ah, mas então você também desistiu de todas as ostrinhas, e sem um ruído qualquer que pudesse denunciar a manobra. Derreteram-se os blocos de gelo sobre meu colo. Precisamos montá-los desde que você me conceda uma tarde inteira, sem sair. Não desisto. Já morri, mas queria deixar bem claro que não estou desistindo. Sigo em frente, com sangue nos olhos. Pulverizaram a estrada por onde preciso passar, e que doçura essa pedra rompida na qual tropeço e retropeço. Se você quebra sem querer meu crânio no percurso, eu não tenho do que reclamar. Os demônios me protegem dia e noite com muito cuidado. Carregam as vasilhas de água até a próxima estrada, na floresta, varrem a poeira para debaixo da porta, onde ela some. Sempre que necessário, arrebentam as teias de aranha recém tecidas, destroem todas as células e também os tumores. Agora minha ostra já está fraquinha. Meu deus do céu, eu me recuso. Eu me recuso a existir, e, ainda por cima, existir até quando? Por favor, assinale o calendário na parede. Peço encarecidamente para que, antes de ir, você assinale o calendário, me mostre o limite, o dia do juízo final enquadrado. Essa informação eu só não pude obter. As frestas se abrem para o abismo em flor. O abismo florido escapa por entre as folhagens, despejado. Sim, eu entendo as regras, eu recolho todos meus órgãos soltos pela sala antes de dormir. Todas as aves também secam a alvorada, e se você está aqui. Agora eu estou aqui descansando com meu melhor amigo, ao que ele olha a pomba no muro e eu pego no sono. Todas as convenções se tornam inúteis, pura perda de tempo. Cumprimos com o prometido. Não trouxemos nada que fosse muito pesado ou misterioso. Será que ele já mudou de ideia? Ou desistiram todos do meu pasto? Espera por uma mensagem que nunca vai chegar. 

Ontem ela chorou porque percebeu que vai continuar sozinha. frustraram-se as expectativas absurdas, e os outros planetas já estão em pedaços. Onde estão todas elas, em fileiras? Olhe as ostras no mar: é o próprio inferno. Os gatos dançam conforme a melodia, os pardais espasmam, todos os próximos bois caem do desfiladeiro. A história acaba simplesmente, sem fundo, e eu já estou pronto para submergir, eu que não fui sequer capaz de alegrá-los em uma tarde ruim. Telefono a ele – sem sucesso. peço para que, um ano depois, ainda não desista do meu pasto. Dias depois eu fui retirado. Dobramos todas as entradas para fora. A plantinha escondida no quarto. Sem assustar demais. A casa percorreu vazia. Ninguém soube encontrar seus lugares na mesa de jantar. Apalpei seus pés durante a noite. Nada foi devolvido com proporção, com justiça. Participei dos seus resíduos na festa. Estouros e luzes, com muita alegria pelos contos. Pessoas iam morrendo aos poucos. Refresquei os cantos de sua memória. Sem hesitar um descanso. Mas esse descanso e essa palavra – digo aqui enquanto sou entrevistado – é tudo o que há. Fracassei, minha pequena ostrinha. A história acaba sem que eu tenha sequer entrado nela e aproveitado um instante com os animais. Os vizinhos me veem e aplaudem, agora estou no auge, grito por existir. Estou descalço, porém. As folhas ainda invadem a calçada, até esse mês. Tardiamente, as folhas ainda invadem a calçada aos montes – eu amo vocês em silêncio. E seria adorável estar do outro lado. Ninguém olharia nenhuma sombra. Assim que desviássemos da rota, seria novamente um outono. Mas então onde está a coisa toda? Essa doçura está ao lado, não podemos nos importar. Aqui você já tem sua escovinha de dentes. Pronto para dormir. Todos consentiram com o final do meu universo. Nesses momentos de plenitude eu viro minha cabeça para o teto. Participo de todas as coisas que estão vivas. Eu recolho seus pedais que já estão mornos (eles podem precisar de mim). Eu explico que você é só uma criança assustada demais.

quinta-feira, 26 de julho de 2018

Eu fico feliz que você esteja dormindo



Nenhum osso faz parte de mim, nem mesmo esse que uso para recolocar as coisas nos cabides. Sento no asfalto, recolho meus calos, espero evaporar todas as chances, espero o vapor arrefecer. Cruzo a passagem sem qualquer ruído, começo a desaparecer. Enquanto isso ele me olha, e meu contorno é apenas espesso e ruim (não posso acreditar que fui deixado aqui com as cabras, com os patos assustados, com as pastilhas em flor, com os dromedários, etc. encapsulado, ostracizado como nenhuma outra hora degolada nos relógios).  

Ele observa minhas varizes. eu observo e não me calo. Ele olha, eu desvio o olhar quase sem saber. a construção parece mole. Enquanto isso, olho atentamente seus espasmos. ele apenas resiste, nada parece coexistir. De repente, chega um osso redondo e me assusta. O cavalo parado me azucrina, essa estria azulada me coloca em disformidade com os outros espécimes do mostruário. Percebo e quero apenas engendrar novas horas para cair. Esse massacre carinhoso é o que nos coloca depois da realidade, submersos na calçada, se ainda não choveu. O horizonte é bloqueado, não pude reviver em paz. Ele me olha sem perceber minhas sobrancelhas. Não devolvo nenhum olhar que não me foi dado ou oferecido. Já avisei que vou morrer com muito cuidado e esperança, e até lá continuar ciscando como todos, encontrando insetos para preencher o tempo que é só o imenso vômito em que nadamos com muita assepsia. Para chegar ao instante final e agradecer a todos, enquanto minhas narinas já aquecem com o sono hipnótico, com o tempo sendo comprimido até a espessura de um papel. Obrigado a todos que estiveram aqui, adorei estar vivo, fomos até a outra ponta do parque, cuidei de nossos pastos, dos ombros. Enquanto não acontece, nadamos em frente, com sangue nos olhos. Deus interfere maciamente em cada um dos poros, pedimos a Ele que não nos deixe perdoar nada nem ninguém. Meus olhos circundam o ambiente, cobrem todo espaço mal preenchido: uma lentilha, um espasmo, um quadro de algodão. A vantagem aqui é que ninguém me esmaga, a não ser a coluna de ar sobre meu crânio. Dormimos durante o sereno, perdemos os joelhos para a maré fria. O vento úmido chega para mofar nossas entranhas. abençoar as crisálidas, as conchas presas ao véu da areia, o lixo oceânico, etc. As pombas comem a comida dos cachorros. Ele iniciou a floração pelos meus cabelos, prometeu que me cobriria para sempre e me deixaria dormir, então encostou a unha na superfície flácida de uma bochecha opaca e oleosa (a ternura envolvida apareceu camuflada, enfraquecida). Pego novamente uma outra fruta ou legume e encaixo em sua cabeça como uma coroa. ele não consegue mais rir ou não quer. Colocamos então cada espaço para afrouxar, sua fragilidade foi responsável por outras horas. Eu recebo seus sinais como um animal cansado, não canso de esperar. Quando chega o momento preciso, enfrentamos o que quer que seja com as quatro patas no chão. Ninguém pôde nos avisar, fomos os últimos a saber. Mas não posso esperar aqui para sempre. Tenho medo de que, ao ir embora, ele se torne um pássaro ruim. Empacoto as urtigas para comer mais tarde, reduzo a atenção até o mínimo necessário. Alongo minhas artérias, resseco a ponta do cordão. Me armo como uma ostra, uma aranha fraca. Decido não continuar. Precisamente nesse instante ele chega até mim e me mostra a chave inesperada, sem nenhuma cerimônia ou interrogação. Trago seus braços para o interior da sombra. Você tenta inutilmente fumar um palito de fósforo queimado. Não consigo entender um milésimo sequer de toda essa realidade imbecil. Retiro os fósforos de sua boca um a um, deposito embaixo da maleta para caso de urgência, para uma necessidade vindoura. Preocupo-me com as nuvens e depois com mais nada. As horas vão sendo catapultadas para depois e aqui nada permanece. Optamos juntos por cozinhar as próximas horas até o ponto de ruptura. Ele tomou minha mão, vindo de um ambiente calmo de mistério, eu podia sentir a vibração na outra mão. eu disse a ele que íamos de encontro ao inferno. Sentamos, vieram e fizemos o pedido. Alguma colocação percebida de perto, eu disse a ele que ninguém em uma mata tinha despejado aquilo sem nenhum furor – o que me fez lembrar imediatamente da noite da festa. Caminhando pelo campus escuro, vento seco, alguém surgia aos poucos de um ponto luminoso no descampado. Chegamos até uma parede de vidro, trocaram poucas, pequenas palavras, e voltamos. Hoje eu fico feliz que você esteja dormindo, mas naquele dia eu pude transformar cada carícia nova em um conforto nervoso, arquejante, impaciente. Eu previa a catástrofe, mas o momento era de puro cuidado. As mãos compreendiam, apesar do frio. Apenas ali naquela noite (que durou meio segundo) ou em outras. Não sei bem o que tiraram de mim. Quando ele virou e disse: “você simplesmente não existe!”, lembro que rimos muito ao perceber que, na verdade, isso nada tinha de metafórico. E que para sempre os acontecimentos seguiriam mais ou menos o mesmo circuito: ninguém se importa, bom apetite, coma seu ovo. Eu olhava os espelhos grudados em seus dentes, e algo foi tirado de mim. “você não existe” – ecoa macio, quase inaudível. Você não existe – mas nenhum de nós. Acaba com os meses acumulados, com os anos. Eles são pedaços de árvores. Eu peço encarecidamente para não morrer. Recebo um sinal de que um ou dois dias a mais podem ser concedidos. Uso ou perco a graça, exponho meus dentes, esfrego nas árvores essa coisa óbvia ou estranha, espero roer cada canto de memória, cada lembrança áspera. Fracos são os gestos simples, azuis. Ela me ensinou a sofrer em cada uma dessas etapas, eu admito que aprendi melhor do que deveria, reproduzo agora o peso agoniante. Ela me espera com um cálice, tremendo. Convidei o peixe para outro evento mais tarde. Trouxe os galhos um a um, em segredo. Pude macetar as outras crianças dentro do sono. Não existo porque fui enviado às rochas maiores. Rochas maiores, afastadas do chão. O bagre é quieto e não olha. Quando fui encontrá-lo no parque, sentamos na grama para conversar sobre as coisas que estavam crescendo, morrendo. Olhávamos absortos, ali estávamos nós, olhando a ponte ao fundo e por trás o pôr-do-sol. Era macio o dia, como uma folhinha. Havia coisas nebulosas, incômodas, o que não se poderia saber ou imaginar. Eu não acreditei que aquilo poderia ser uma coisa, que ele ou eu seríamos pessoas, que o gramado era um gramado, e assim por diante. Muitas coisas morrem porque falta quem acredite. Eu sabia esperar o tempo passar, pequenos eventos incompreensíveis preenchiam inadequadamente as falhas, eu extraía do lugar da cabeça uma sombra nova, entregava a ele para que se pudesse comentar algo rápido, sem viabilidade. Pouca coisa dita parecia viável. Quando a projeção mais mirabolante ela lançada entre nossas pernas, eu acenava, dizia que sim. Olhava os músculos soltos, a forma bruta. Sentados na grama, não havia nada de sensacional ou abrupto, nada seria capaz de romper o dia pelas pontas, pela metade, pois ali na passagem de ar o tempo seguia em direção às outras ruas até chegar no portão, no quintal, na garagem, na sala, na escada, no quarto, na cama. Um ruído alto não seria mastigado, seríamos dispostos para dormir como dois pequenos bebês roxos, assustados de sono (eu não tinha sono algum, mas uma concha ou ostra me fazia dormir, também o calor, os estrondos cada vez mais leves). Vinte e sete horas até morrer por completo, eu tenho essa graça (Ele lá embaixo me concedeu, e não devolvo), os demônios também concederam graças importantes, às vezes apenas retroativamente importantes. Outro dia ele tentou me convencer de que todas as espécies são igualmente evoluídas, já que bem adaptadas a seu respectivo habitat. Todas chegaram até aqui, e eu também. O universo já caiu em desuso. Mas não deixei nenhum animal para trás, não consegui caminhar sem minha semente, trouxe o avestruz, a ostra, o bagre que ainda me olho fosco. E cada história é tão mansinha! Eu não acredito. Peço silêncio para terminar. Uma euforia toma conta, sobe até a ponta de um braço, de um osso. Ele disse apressado que não podia se movimentar, disse que não poderiam continuar longe, mas. Façam silêncio, por favor! preciso colocar minha ostra para dormir. É impossível proceder dentro desse alarido. Eu peço que agora me ajudem. As horas acabaram, temos de iniciar o protocolo de desligamento, acionar as autoridades competentes, completar o ciclo e enxugar os olhos que escorrem.

Agora ele me ajudou a me enterrar dentro da cisterna. Pedi as cobertas, o molho evaporado, o espeto. Mas sem sofrer demais eu quero estar junto de você, e você também pode sofrer se quiser. Ele concedeu o aval. Sem pestanejar, compreendi com mais exatidão o espaço de todas as horas, de todos os animais maiores. Tomei cada um pela coleira, passeamos pelo bosque. Agora no pórtico com luz, estou com ele aqui na frente. Chegamos em casa e peço a ele que verifique as vigas no teto. Olhe e não espere desfiar. Senão, a casa cai em cima de nossas cabeças ineptas. Conceda esse espaço para sentar e viver, sem lembrar. Mas cada coisa não acontece, nunca. eu espero espumar o caminho para poder sair. Ele me dá a mão, descemos pelo barranco, por dentro dos troncos das árvores, extraio a polpa dos ossos, escorro o rosto pasmo de sono. 


quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Despedida



Bom dia minha pequena ostrinha. Alguma coisa deposita sua mão sobre nós, dormimos até esperar. E, quando rompe cada ponto, somos obrigados a despencar em algum abismo cuidadosamente cavado. Se não existe perdão, rapidamente somos inclinados a relinchar. Onde estarão elas? qual o domínio mais recente? qual trombeta toca no inferno? Qual tesouro? Qual semente? Apenas aqui há material suficiente para concretar seus ossos, e também os meus. Na mesa já está tudo preparado, flores brancas ou azuis, velas acesas, ossos desmembrados. eles devem sentar ao redor, cruzar os dedos, as pernas, esperar, tecer cada lamúria, suturar algum crânio que necessite. orar baixinho, pedir que escureça violentamente até o ponto de ruptura. isso é absurdamente importante, avançar com raiva e violência até cortar a linha. Entre um silêncio e outro, olhamos para o canto inóspito, a janela foi adequadamente enquadrada. peca por não saber? outros olhos não souberam até então. Pode observar com calma antes que alguma coisa se manifeste, ou que um rombo, um atravessado de raspão. Olha fixamente até a junção dos tetos. Pensa no que acontece, pede ao deus bom que se manifeste se for o caso, mas não espero. Ele pediu que sentássemos na posição requisitada para aguardar o colapso dos rins ou vesícula. Tudo isso ele recebeu ali naquele momento no interior da copa. pronto e suave, pensou, com as mãos sobre os joelhos simples. O que seria pouco a pouco ao longo de um ritual desconhecido? estávamos por esperar. Mas então, cada aposta ali poderia figurar como um novo sofrimento sem que ninguém soubesse. Mas era, acima de tudo, a purificação. Aliás, alguém estaria sabendo fora dali? No corredor, na passarela, no interior do tanque? provavelmente não. Olha a nuvem sombria. Não podemos levantar nem mesmo para verificar, temos de realizar mais de uma dúzia de procedimentos simultâneos sem saber aonde eles levarão. A janela foi silenciosamente aberta para que ninguém pudesse perceber. Uma ratoeira paira sozinha sobre a cômoda, ao lado de restos de comida. Moscas secas caem do outro lado, o vapor floresce as orquídeas, as larvas secas. Olha a nuvem sombria, precisa incendiar cada fragmento do planeta. Todas as grandes infinidades, esse pequeno desenho no asfalto, o funcionário designado não passou para consertar. flores rastejantes, coisas ovaladas, carne decomposta nos sulcos do asfalto, e eu agora sou culpado por ter regurgitado? sem que ninguém perguntasse o que estava ocorrendo? Pontas soltas não desfazem nada do que foi feito janela acima. uma multidão secretamente atinge o prédio ao se deslocar em manada, compensamos com os comprimidos esmigalhados no fundo da garganta. não fez nenhuma diferença, meu deus, a árvore sequer se desloca. não entendo? Um casco bem cuidado, um rosto polido, no espelho de baixo, ali você conseguia terminar, poder sair em paz consigo mesmo e sorrindo. corta cada pedacinho aqui dentro e espera terminar? Por favor, espera. Eu estou disposto a sacrificar tudo por qual rosto ou semente? O ano acaba com tudo. Absorva minha pedra, traga as mãos até a barriga fria; por favor, me envie a ostra cônica. Desista do meu osso, siga em frente sem nada (tudo). Pedais no colo, eu entorto os ombros e pescoço, sigo o suspiro mais silencioso até derrubar as prósperas edificações, e a coisa se manifesta. Ondas não existem. perfazem, contudo, a sala. um riso de criança espoca quietinho no canto, algumas velas já acabaram de roer. O ritual se desenvolve em uma meia dúzia de estágios que desconhecemos. Temos de nos submeter a ele por precaução, antes que toda sanidade se perca em definitivo. Quando se olha com um canto do olho, as frutas secas aparecem penduradas na escada. ele já estava quase morto, olhava e pedia por um sofrimento menor. Apalpamos seus ossos com algodão úmido, não ligamos para os olhares de indignação na mesa, ele perde muito sangue em meu ombro e nesse momento é preciso amaciar sem nada, sem suspeitar. sem dedicar até depois mais tarde esse sonho para mim. Mas o ritual é exaustivo. Corta a árvore até o talo, a estrutura dissolve como meu corpo, sem que ninguém olhe. eu observo transcorrer. Na estrada, no caminho para a floresta. Um anjo-nuvem se desloca, estou um pouco cansada e não apago. Já morri há mais de cinco anos, não volto, me perco na estrada. trago mais carcaças para o ritual, distribuo as cápsulas de sono aos ratos que esperam para mordiscar minhas entranhas. peço a eles que me deixem passar até a próxima. Não me calo, espero que não se sintam efusivos demais para viver. a vida é só um rastro fraco, intrépido. O tempo voa dentro da câmara, doze horas mais tarde tivemos de trazer mais carcaças para que todos pudessem comer. Aos poucos estou voltando, ou é só delírio? Alguém na mesa me pede para que corte as libélulas, me assusto e deixo a faca cair. há uma ostra aqui ao meu lado, ela sussurra em um dialeto que eu já dominei, mas esqueci. Continua sem empurrar. Cada pequeno rastro não segue a estrada, eu rezo para que eles voltem à superfície e para que, segurando minha bacia, eu possa caminhar. não sei se é o melhor modo. Diamanda Galás mastiga meu globo ocular ainda vivo. estoura em lágrimas finas que escorrem e deslizam pelo queixo e abaixo. A ostra azul cimenta meus braços (que já estavam amarrados), e eu apago. Acordo em um estágio ainda mais macabro com os crânios sendo cuidadosamente deitados sobre a mesa, olhando para mim. eu cubro com um pedaço rasgado, subo sentado a ossarina, peço que me deem o extrato mais concentrado para agilizar aquele ritual maçante. depois eu esqueço, despejo meu sangue de volta dentro corpo e volto a respirar. Então me arrependo, caio azul de sono. Pressinto o ar achatar-se sobre a minha cabeça, respiro meu próprio sono hipnótico. Cozinho todas as membranas em uma panela funda, em fogo baixo. Deixo minhas vísceras em uma caixa na portaria, apenas creio e continuo, agora sem pensar em nada. Alguns lapsos de memória ou linguagem fazem apenas sugerir que nada existe, que a realidade é quebrada, que não vale a pena existir, etc. Então é possível crer em todas as coisas que me destroem. eu sinto seus ossos sem roer. Quando chega a madrugada, todos já estão dispersos demais para ouvir o que sussurram os demônios, solto ruídos imperceptíveis já sem paciência, perco um dente cada vez que o vapor sobe da cozinha. Assa um pequeno bebê roxo até tostar. Respiro a maciez tóxica do meu horizonte, espero até acalmar. Ninguém escapa e eu sinto medo pela noite, peço a eles que não soltem minha ostrinha. Ela deve navegar. Deve navegar sozinha. Digo a eles, sempre que vocês rodam eu espero meu ombro deslocar. não digo nenhuma mentira. Os anjos destroncam meus braços e mordem minha cabeça em chamas. Só assim posso trabalhar e viver em paz. Após o ritual, vigiei e orei por quatro dias inteiros até o solo afundar levemente, e eu espero assimilar. Não reconheço em ninguém uma flor, uma penugem. Olho em volta dos olhos também. As frutas secaram tanto que caem no chão e se partem como torrões de açúcar. Espero no desfiladeiro. Ele ainda aquece meus ombros/estamos unidos por um cordão ainda muito frágil (que ele já macetou). Consigo rir sem que nada na atmosfera indique uma floração. O que faço com seus ossos no fim do caminho? Não, essa não é uma pergunta propícia nesse momento. Não estamos preparados para a volta dEle. Não sei esticar. Diga a ele que não acredite em mais nada, não sei o que estou fazendo. Não me deixem engessar por pena, não esperem até que eu colha tarde demais. Outras três horas passam, eles entram, abrem os armários, esfarelam os bulbos de alho, enfrentam os besouros secos, esparramam o sal sem perceber. A fumaça do fogão é excessivamente ácida e corrói minhas mucosas brilhantes. Escorrego em um precipício até perder metade do crânio em uma pedra manualmente talhada. Sei e consigo ver, mas não acumulo nada por medo que minhas articulações frágeis se rompam. Passo a cuidar melhor do corpo já cortado pela metade, não abro mais nada sem antes saber muito bem a procedência. Por exemplo, já consigo me deitar por conta própria, sem desmaiar. Cobre minha crista com sua indiferença azul e pálida. O outro globo ocular não mastigado é um creme claro e aveludado. Recubro meu gordo espaço com a poeira desencaixada das flores, com as sementes de antes. Monto minhas sementes dentro do crânio. Se voltarmos até o alto daquela montanha, ele estará esperando por nós? Ele nos sujou com sua indecência, estamos para sempre marcados com um sinal invertido na testa, e assusta cada canto que possamos entrar e olhar. Mas, se formos até a montanha, ele estará esperando por nós? espero que possa deitar, arrastar minhas cabras e deixá-las evaporando. Já não sinto nada nesses escombros, a tentativa funcionou? Eu deixo de existir e não quero mais voltar.   

Mas qualquer porta está aberta? Depois do ritual eu espero que ela se manifeste. uma luz. Uma sombra macia me segura quando desmaio. Não olho, não escrevo, não percebo. estou tão feliz que mal consigo gritar, engasgo com minha voz. Procuro o pâncreas no jardim para guardar de volta, passo por períodos de sono ou sofreguidão. Não entendo sem andar, estou prestes a chegar ao lugar específico. Não sei se algo orbita em volta de minha placenta pálida pendurada no varal. Abre meu olhar rugoso. termina a lista de acontecimentos para hoje, o espécime depositado no aquário, a rolha dentro do envelope, a geladeira partida, o terreno, o casco renovado. O que fazer com todos os dias que passaram? A flor do algodão se parece comigo? Olhe e me diga. pare de rir, pare de rir e me diga. ela se parece com minha cabeça esmagada? olho para baixo e é inevitável sorrir, o desespero é tudo que existe nessa concha. obrigado por me mostrar a passarela que atravessa a rodovia congestionada, obrigado por me conduzir até ali. encontrei cogumelos, subi nos troncos e caí, você riu? não. eu não me ajudei também. não quis, mas continuei, era levemente frio. esse tempo está devidamente guardado. como dosar as memórias? eu sinto o ruído espacial, algo leva o pêndulo ruidoso. ele virá comigo, comeremos amêndoas escuras! comeremos até vomitar. O final é leve, lúcido. eu respeito seus olhos, construo você com flores e wakame. trago suas flores comigo, espero na calçada. eu despejo e assisto o tempo roer. não espero mais nenhuma asa. trago as sentinelas asmáticas para que não deixem esse fundo de ostra evaporar. trago as plantas alimentícias não convencionais agora já macias, murchas e cadavéricas para jantarmos juntos em uma celebração sob a lua cheia. cubro a cavidade dos meus olhos, me recuso a acreditar.


terça-feira, 22 de agosto de 2017

sonolência ou arrebatamento



Ya no seré feliz. Tal vez no importa.
Hay tantas otras cosas en el mundo.
Borges, “1964” 




O caminho vem erguido por uma densa neblina que espiraliza até o céu. Cada vez que cada flor despenca, meu deus. olhe, olhe o céu também. Venha até esse ponto aqui, não há vento que não possa nos embalsamar, ainda bem. fique tranquilo. Pequenas coisas acontecem e nos movem adiante, pensa com um lugar coberto por outras horas. A realidade escorre para fora de nós, nada pode ser feito para detê-la. A realidade, essa pequena coisa ridícula, ultrapassa todo encantamento. O fracasso é muito, mas muito engraçado. Apenas aqui dentro uma extensão como essa pode afundar em crateras incompreensíveis. Enquanto engatinhamos pelo túnel, o mundo lá fora recebe estouros que se propagam em todas as direções. Em algum cômodo em chamas, uma televisão ligada, prostrada e sozinha avisa que a Turquia é o país que mais prende jornalistas no mundo. obrigada. Quebramos cada fatia de parede deixada para trás e somos avisados de que não podemos nos mover demais até o amanhecer. O túnel pode ser muito mais do que uma passagem para o inferno. Por enquanto, melhor é não saber. não estamos em boas águas. O caminho cortado é uma pequena abertura em nossa solidão extrema. O tempo está próximo. O túnel é praticamente um cano grosso lascado, passa carcomendo cada lustre ao luar. florescem teias de aranha em nossos cabelos. Temos de agradecer usando um pé ou um braço (ele nos deu simplesmente tudo o que temos). alegremente depositamos tudo na estante e espirramos com o mofo que cresce nas extremidades da ossatura da caverna. Utilizamos os ossos para afastar as vespas do chão. chegaremos a tempo de ver as coisas que devem acontecer depois destas? agora acabou simplesmente a força para amar as coisas? 

Depois da viagem monumental, chegamos a uma clareira no miolo da cidade, e ali cada um recebe a sentença que já vem cozida e enlatada, torrada e partida, e espera em uma fila medíocre, procura um abrigo até que venha o juízo final. A terra é pouco a pouco invadida por anjos de alguma facção nova ou pouco conhecida. Então um demônio puxa a cadeira para que eu possa me sentar. Em uma grande floreira achatada após um atropelamento, agradecemos a todos por terem sobrevivido a essa maré conosco, mas daqui em diante o que se passa é pura brutalidade sem salvação. estranho como ossos sem lágrimas. A atmosfera é sinistra e risível, o evento é uma grande farsa e todos já suspeitam de um derramamento gratuito de sangue. Antes que seja possível raciocinar, o primeiro anjo sobe a escadaria da igreja, toca a trombeta e as árvores e ervas verdes queimam festivamente sem qualquer comoção. As vespas sofrem um lamento e compartilham do mesmo sinal vaporoso. Elas são retorcidas por cima, assim, veja: (o anjo faz o sinal e nos mostra). úmidas e diminuídas. não há nada que possa estancar a dor. coletamos algumas algas com um escorredor de macarrão e fazemos uma compressa tão quente que só termina de esturricá-las. Eu olho as carcaças e me espanto com seus ossos expostos/o assombro é denso e me cancela o riso. Do outro lado da cerca elas renascem com asas aveludadas e são arrebatadas uma a uma. damos bom dia a todas as vespinhas. Todos os olhos são voltados para elas. É quando o segundo anjo despenca do edifício e, ainda torto no chão, toca desafinado e quase sem fôlego a sua trombeta, e um terço de todo mar que não vemos daqui se transforma em sangue espesso. O anjo esfolado também cumprimenta as vespinhas. E eu sinto que ainda falta um preenchimento absurdo. O terceiro anjo acende um cigarro em meio a multidão e caminha tão calmo e preciso... ele nos olha e diz: não tem problema algum se vocês não estão existindo. E depois some. Uma estrela gigantesca e brilhante cai bruscamente do céu, estouram-se as lâmpadas e ela se apaga para sempre. Tambores desconhecidos ressoam tão longe... A nós humanos nos falta um órgão capaz de digerir o absurdo. De uma porta escancarada sai o quarto anjo e dispersa a multidão com bombas de gás lacrimogênio. a terra escurece e cada animal, planta e pedra passa a tossir incessantemente até esburacar. O quinto anjo, como profetizam as escrituras, traz consigo a chave do poço do abismo. Eu não pude saber, pois já morri e não fui solicitado. As trombetas tocam uma a uma, suportamos tudo cuidadosamente sem perecer. eu já morri há alguns anos e não fui iniciado nessa jaula. Achamos tudo de um mau gosto sem fim. meu deus, olhe o rastro sinistro deixado na estrada e nos olhos. A vida é maravilhosa/um sol surge sobre um quintal/uma criança morre em Aleppo/um tumor domina um ovário. mais nada. O sexto anjo rola de cima de um avestruz, cai de costas no chão e diz: mais nada. E apenas isso. Com ajuda dele, fazemos as malas rapidamente e desistimos de cada coisa precisa. Depois ele solta os quatro anjos de pé nas extremidades do planeta, eles matam um terço de todos e descansam. Assim a atmosfera amorna e engrandece. O sétimo anjo ordena que todos fiquem quietinhos enquanto o assombro não vem. Com todas as instruções anotadas em um manual, ele avisa que em caso de emergência, linhas telefônicas e energia elétrica serão cortadas por alguns minutos, horas ou mesmo anos, mas que podem ser restituídas normalmente nas primeiras horas do próximo dia útil. Ele também avisa que a subida é para poucos e, ainda que gratificante, vertiginosa. Recomenda-se alguma medicação para os que tiverem estômago frágil. Àqueles que possuem labirintite, recomenda-se que aguardem o guindaste para poder subir com conforto e segurança, e assim por diante. Agora, se tivermos de realizar a travessia, estaremos muito mais preparados! pois sim, estaremos mais preparados, e mal podemos esperar pelo fim. O saldo foi positivo, sem sombra de dúvida. mesmo com toda ansiedade, o mundo foi feliz e trouxe ossos para dentro de nossos corpos. O anjo segura as batatas enquanto maciamente costuramos o cadáver que deixamos descongelando da noite para o dia. É uma criança que volta à vida assustada e roga por um balde de água fresca para reidratar as membranas, mas que é ainda incapaz de falar. então pede grunhindo, e nós, é claro, prontamente atendemos. obrigado por continuar tão azul e sem cor! a coragem da criança me emociona, eu voo até a palma de um outro lugar, espero com a floração nova nos ombros, caio até rolar do precipício. tudo é tão enfadonho que rolamos pelo asfalto e dormimos por exatas setenta e oito horas até o evento acabar, e não acaba. O sétimo anjo apenas coroa o bolo e cai em sonolência. quem dera pudéssemos dormir também, mas não: temos de enterrá-los antes! avise o anjo que ronca, avise que temos de enterrá-los antes para que possamos ir. por isso a conclusão é simples. O anjo acorda e ajuda a pulverizar um silêncio voraz. Depois de minutos, um apodrecimento suave arranha a hostilidade do tempo. Enquanto ele segura as batatas, torcemos a porta para o horizonte. “eu preparei o livro e comi” – disse a pobre criancinha, e envelheceu junto de todos ao longo dos milênios até morrer. Tão compacta, tão pequena... mais ou menos do tamanho de uma ostra de jardim. O livrinho, que deveria ser doce como mel, tornou-se amargo ao ser engolido. Mas que floração ridícula! retire-os daí, corremos fazendo sinais enigmáticos usando nossa própria sombra duplicada. tire-os o mais rápido daí, por favor, tire-os rápido o bastante para que não sejam deixados, ignorados aqui. O livro amargou o ventre da criancinha que estava quase liberta. Esforçando-se para ter um mínimo de empatia, o anjo disse-lhe: “eu também tendo a não ser muito feliz”. e depois de alguns segundos de silêncio ruborizado, os dois riram, riram juntos. riram até enfartar. ainda estão rindo, na verdade. quando uma parede aponta para nós, ou o caldo suave amorna no prato, então, ainda estamos rindo aqui embaixo e continuamos. E assim vai. uma montanha sonolenta também é arrebatada vagarosamente com a ajuda de um guindaste para compor as curvas do horizonte no paraíso. Todos que estão sendo arrebatados não possuem rosto. O encerramento do evento não faz com que todas as respostas sejam encontradas. pelo contrário. Há uma profunda confusão mental penetrando cada poro dos que ainda estão ali. também entre os abandonados não se vê mais o rosto de ninguém. ainda estamos na caverna? no túnel? na praça? na montanha recrutada? na montanha não estamos, pois não fomos arrebatados. No túnel não estamos, pois pudemos presenciar o arrebatamento. Ainda há tantas coisas no mundo, lesmas retorcidas ao queimar, rochas coradas de calor, enxofre vazando do encanamento, coisas que queimam sutis. Aos poucos todos os pequenos foram arrebatados, uma doce luz ressurge. que luz quietinha, diz uma criança retorcida no asfalto antes de subir. A atmosfera toda é rosada pelo sol murchando no céu, o espaço todo é vazio, acobreado, triste e pequeno. quem olha ali dentro não entende coisa alguma, ninguém consegue dar um passo sequer sem cair em uma rede pendurada como armadilha. sem enfrentar o peso do mundo inteiro. mas também a morte não existe ali dentro porque já aconteceu. todos que estão queimando e percebem isso, cedo ou tarde são pegos sorrindo ou mesmo gargalhando, construindo com migalhas imundas alguma tranquilidade hipnótica. Dizem que alguns deles, inclusive, depois de queimar completamente e perder para sempre todas as suas terminações nervosas, tornam-se monges e resistem para sempre em alegria apática. Os mais prestativos já ajudaram, mesmo cobertos de queimaduras de terceiro grau, a cobrir toda essa ossatura negativa, ajudaram também a varrer a poeira e desativar a coisa amarga que revolve no estômago. A vida é excessiva dentro de qualquer inferno. Os que estão abandonados também enfrentam o peso do mundo inteiro, constroem mapas e forjam estratégias para trazer para dentro do inferno o inseto e o meteorito abaixo do estômago, sem assustar.  



terça-feira, 27 de junho de 2017

Apocalipse de manhã



Cai o meteoro em um exato momento. Atinge o sino pela manhã. Todos caem ao mesmo tempo do universo, reduzem a ostra até um patamar sensível, enterram o mesmo peixe seis vezes, roem a cutícula das aves, mostram o rosto em formato azul. Apagam aqueles que cintilam, continuam sem galhos. Precisam continuar sem galhos e ruins. Cozinham dentes com papoulas, esperam até um ouvido absurdo acabar. Roubam o rosto das horas, transpõem para o tecido interno a poeira das grades, respiram o ar escuro que levanta das moitas em chamas, vivem até que um vento penetre ruim e sem vida, precisam de um ouvido que cuide. Hoje o dia é escuro e não há postes. Olhe para as plantas e espere até reviver. Mas ele cai tão sonoro! cai tão sonoro e depois abafa. Junte as peças e varra por dentro até que ali nada mais se veja. E feche também as janelas – é claro, o ruído não nos deixa adormecer. As pessoas aguardam o meteoro com uma alegria sonora. Torcem os cadarços e não penduram as roupas que já estão secas. Obviamente, pois apenas aguardam porque sem hora marcada pode vir uma destruição. Uma mariposa fraquinha e ressecada pousa na fresta. Torce os olhos de sono/caminha contra o vento. Continua sem galhos. Precisa continuar sem galhos e ruim. Um homem também recebe o impacto mesmo sem a ossatura frágil de uma mariposa. Ele rola os olhos antes mesmo de ver a urtiga espirrar (com o sol entrando em ondas trêmulas primeiro na pele e depois nos nós do crânio e abaixo do queixo e nariz). O ruído ali pode ou não ter asas ou nervos escorridos pelos membros atingidos. Depois eles retornam de ossos traumáticos, acalmam doces o piso quieto da memória. Pisam até que não se veja mais o céu. Percorrem o ondulado sonhando, respirando um ar úmido das cobras quietas. uma pomba nervosa devora um osso em minutos. Crescem de veias azuladas, permanecem fiéis à cópia crescida das flores, permanecem dentro das raízes. Crescem de corredores mais largos. Já a mente não pode desafinar com esse apito. Pede ao apito que se aquiete? Onde estão os postes? Olha a carne espessa e assombra. Continua na clareira, olha o abismo com migalhas. Acerta o alvo, traz a couve para a cesta e semeia. Agora tudo é uma nova luta pela sobrevivência (cuidamos para não sermos enjaulados em um novo universo). Aqui nada mais carece de explicação. Estamos quietos e respiramos o abismo. A dor rompe cada membro comprimido. Outra bomba caiu precisamente sobre o corpo seco da mariposa. Queimamos juntos e as cinzas são amontoadas sobre o carpete e mais adiante. A mariposa nos olha e não sabemos como afrouxar o tronco sisudo da porta ou como romper com cada miolo de árvore quieta. e não é possível comunicar. Como então fugimos daqui? Olhamos o comprimento de escada diante da parede, a janela falsa aponta para uma clareira quase escura como o céu, mas quase não é possível sair daqui. E se rompermos o caule das plantas? Sem hesitar, o céu cobre as horas aquecidas pelo cometa, atravessamos o mural onde fervilham os olhos de todas as espécies um a um. Pode-se virar uma palavra de um lado pro outro e não há nada ali, nada pode ser deslocado se há um completo vácuo de sentido. Rompemos até chegar a uma pesada caverna. A mariposa já não tem pernas para andar, e muito menos nós. Depois que o cometa desceu, as malhas ressecadas da mariposa foram reduzidas a uma cinza espessa (granulosa e incisiva), os pés das pirâmides foram dobrados para dentro de modo que as pessoas pudessem passar sem enxergar por baixo do túnel o tempo passando, que era ruim e no entanto não poderia ser descartado em lixo comum (pois tóxico). Até o céu não podemos crescer. sentimos apenas fervilhar o poste até o mural. Ainda que a atmosfera tenha virado forno, nossos ossos estão tão frescos que poderiam ser apunhalados um a um. A fumaça esconde a origem. Agora a mariposa repousa quieta sobre uma batata no jardim. Cada pessoa que passa está tão viva e tão morta que nada na atmosfera consegue ajudar em uma recuperação sadia. Devemos aceitar todas as perdas, sem exceção? Naquela floresta enorme e sem caules (pois foram todos retirados por conta da metamorfose das ogivas), esperamos que eles tragam o presente satânico, cozinhamos os dentes com papoulas e fechamos os olhos para esperar – uma lágrima escura evapora antes mesmo de escorrer. A dor é um cálculo permanente. As palavras não traduzem dor alguma, não compõem uma sentença coerente, mas apenas se amontoam como broches, como conchas, como partes de carros quebrados, como fósseis de crianças. Sem contar a eles nós podemos amassar nossos próprios rins e misturá-los ao purê? Dois pêndulos caem desorientados, os olhos não saem de suas órbitas e as ondas de vento apontam um caminho. e não há um caminho, apenas as ondas de vento simulam um caminho. Um peixe pula da base e se suicida. Por que não pudemos chegar junto dela? atravessar o cesto com cascas? oferecer a mão suja de café? O olho azul registra peças daquele luar? Uma coisa infeliz rosna em meu colo/a morte é a coisa mais engraçada que já aconteceu. Todas as esperanças cínicas são renovadas após a destruição. um braço sem corpo acena alegre no meio dos escombros, uma perna sem tronco chuta um vaso de samambaia partido e se corta. e poças de sangue seco, e carcaças de crianças sonolentas. o que fazer com tudo isso depois de sonhar? o que fazer com tudo isso depois que a quimera se dissipa e o calor todo despenca junto com todas as palavras ao mesmo tempo? Um feto amortecido olha e sussurra um provérbio que ninguém entende. rompe o luar mais fraco e não permanece no mesmo posto (ninguém permanece). Torce isso, torce como um galho. não reduz a nova fumaça, não é isso. torce no olho. coloca uma fileira sem ondulações. Olhamos o palco vazio: mas então ninguém vai salvar ninguém? É isso mesmo? sim. agradavelmente a ostra responde do fundo menos sonoro do oceano que sim, é isso mesmo, uma gralha ou outra responde, um tufo de terra na parede resmunga que sim, a cobertura de mofo no lustre, os blocos de vento, os pólipos e as treliças. a nuvem de poeira é pouco a pouco dissipada para o oceano morto. um universo de cascas de besouro incendiadas, toda lágrima secou na atmosfera infernal e também os olhos esturricaram e agora lembram ameixas secas compradas a granel. deus olha tudo e acha bom.


domingo, 13 de outubro de 2013

Sobrevivência no escuro

 

Os dias nos derretem pouco a pouco. Iniciamos nosso ritual sabático que nos conduzirá a uma infelicidade mais suave e indolor que a habitual: espalhamos pedras pelo chão bruto, coletamos meteoritos numa peneira, vestimos os casacos nos sapos, arrancamos nosso pâncreas com um pegador de macarrão, fritamos os pâncreas das crianças e, durante todo o processo, nos esquecemos de que deveríamos ser felizes. Choramos pelos dias e horas que se desmancham e pelos sonhos atoleimados no quintal. É inevitável uma dose de comoção. Depois cozinhamos crânios humanos, flores incolores, pequenos repolhos, crianças antigas, sonhos enlatados, olhos e beiços azuis. Fazemos tudo isso pela nossa sobrevivência. Há pessoas que encontram a felicidade dentro da tristeza circundante. Nós simplesmente não fazemos ideia. Somos iguais a eles: não nos importamos em ser infelizes, por toda a vida. Repetimos para nós mesmos inúmeras vezes: a tristeza não importa, o que importa é o mundo: os carros atravessam sem pensar, as pessoas vivem e envelhecem, as árvores despencam com os temporais. Mais nada. Se há ou não relâmpagos, se as casas caem ou não dos barrancos, bem, então podemos começar a viver? Não. Não é possível realizar esta inferência. Tudo o que temos hoje para viver são as pedras, os meteoritos, os olhos azuis, deus e os demônios.

O que pesa para nós, em primeiro lugar, é a dificuldade das horas, das coisas, das pessoas, etc. Olho para as rachaduras da parede e sei que elas são difíceis. As pessoas são difíceis quando existem e caminham. Estabelecer ou aprofundar contato com elas também é difícil. A dificuldade ao longo de milênios, juntamente com os fracassos e as perdas, cristaliza-se em pedras. Os demônios nos oferecem resistência e consolo diante das pedras. As pedras são nossas escolhas mal feitas. Mesmo quando muito antigas, elas incidem sobre nós por toda a vida. As pedras depositadas no jardim, ao contrário do que pensam as pessoas, não são tudo o que há, mas apenas uma espécie. Pois há também os meteoros e os meteoritos, que são pedras cósmicas. E há também as pedras radioativas e cancerosas sobre nossos ombros. E também as pedras vulcânicas esfuziantes. E também as pedras submarinas, salgadas e desbotadas. E há também pedras vulcânicas submarinas, que não existem, embora sejam possíveis. Por exemplo: quando há pedras sobre nosso peito, mal conseguimos respirar. Nos lembramos daquele lugar, daquele lugar lá no alto, mais uma vez, mais uma vez. E não adianta pra nada. Quando estamos inquietos ou desesperados, presos sob uma rocha, os demônios nos ligam de madrugada, e suas vozes etéreas adentram com facilidade nossa cabeça oca. Eles nos dizem com suavidade: “fuja, fuja para sempre. Esqueça, esqueça para sempre. Corra apenas atrás do que você acredita”. Então respondemos em prantos que não acreditamos em nada, ao que eles replicam: “Corra apenas atrás do que você não acredita”. Decidimos não correr e aceitamos, relutantes e sonolentos. Então dormimos e, ao descermos ao inferno, respiramos melhor. Morremos por algumas horas, e a casa, que normalmente é um marasmo, torna-se quase tolerável. É quando recebemos a visita dos meteoritos, que são a esperança morta e cintilante no céu. Dentro do sonho as coisas explodem com maior intensidade. Tornamo-nos uma só pessoa e enfrentamos a realidade de modo certeiro e impreciso. Essa única pessoa desabafa sem pudores: por que não sei reagir aos cometas? Por que não sei caber nas situações dos outros? Por que ainda penso que preciso de um estopim? Por que os anos passam e, no entanto, não saem de mim? Pois bem. Há várias respostas possíveis. Trabalhamos com várias possibilidades, e nenhuma delas é possível. Depois de tantos questionamentos, sonho por um instante com as coisas como elas deveriam ser e, quando acordo, despenco novamente para a realidade velha e lascada de muitos eus. Quando nos damos conta de que já não estamos mais dentro do sonho, lamentamos e imploramos para que nos deixem estar calmos e sonolentos, pois já estamos pagando pelo que fizemos. Estamos permanentemente em estado de desconforto profundo.

Não há comunicação possível. Ele nos deixou abruptamente, sem respostas. Ele nos olha e diz: fodam-se! E no fim das contas está certo! Por deus que ele está muito certo. Pergunto-lhe: onde você se meteu? De novo: onde você se meteu? De novo. E ele continua certo, para sempre. Certo dia bebemos um chá tão rosa, tão magenta, tão vermelho. Depois houve o dia em que o frio era intenso e as risadas nos faziam esquecer que havia o mundo. Tremíamos de felicidade e, contudo, não éramos felizes. Ainda bem que hoje os dias por lá estão altos e com sonoridades sofisticadas. Ao menos é o que se espera. Retorno o telefonema que não recebi e digo-lhe: por que o vinho e o livro? Não obtenho resposta. O livro nos diz que não há e nunca houve esperança. Mas já sabemos disso há tempos. Pergunto-lhe em seguida: o que se pode dizer sobre estar frio e já ser outubro? Ele diz: foda-se. Sorrio e volto aos meus afazeres. Preciso terminar de decepar a cabeça das galinhas e das crianças. Faço tudo com tanta doçura que até parece que estou dormindo. É um dos raros consolos que tenho, pois os dias seguem mais esqueléticos que meus ossos engordurados. Os dias são esqueléticos e somos incapazes de viver em sociedade. Indignamo-nos com deus e o mundo, e estamos atravessados de uma ponta a outra pelo silêncio. Como podem os tumores, ao crescerem, serem um “outro” e, ao mesmo tempo, nós mesmos crescendo dentro de nós e cheio de nós? Revoltei-me com deus e o mundo quando vi que seus tumores espalhavam-se por dentro e por fora, causando-lhe dor insuportável e obrigando-lhe a enfrentar a frieza de uma família podre como nem mesmo um cadáver consegue ser podre. E é completamente impossível que deus possa existir. Mas isso todos nós em sã consciência já sabemos. Não faz sentido existir deus nem nós. Deus, você que é uma estátua morta e lascada, por favor, sente-se conosco. Conte-nos sobre todo o sofrimento humano desde o início da história da humanidade, todo o sofrimento que você assiste com olhar sádico e sorriso malicioso, sem fazer nada. Deus, o altíssimo deus, spangle maker, esqueceu-se de nós. Esquecemo-nos dele antes. Deus é um torturador, ele vive à base de sangue coagulado e grão de bico. Deus é uma farsa tanto quanto nós. Por favor, venha até nós, abençoe nossas barrigas oleosas, abençoe nossa ignorância infinita, por favor, venha até nós em forma de neblina. Tenha piedade do deserto glacial infinito dentro de nós. Por favor, venha e sente-se ao nosso lado. Conte-nos todas as mentiras de que precisamos para sobreviver e, quando finalmente pudermos viver, conte-nos as verdades. Venha até nós transfigurado numa salvação alegre, num tronco de árvore alegre, numa criança decepada alegre, num passado vertiginoso alegre, num reencontro com defuntos alegre. E perdoe nossa falta de bom senso, de sanidade e de coerência para nos expressar.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Quatro pequenos fluxos amorfos


I
 
Os dias amassados cintilavam, as noites passavam rápidas sem ter acontecido nada, e não havia esperança possível. Crianças despencavam dos abismos junto com os carros, os lustres trêmulos, os crânios e os defuntos amarelecidos. O tempo passa e despencamos de nós mesmos de tão velhos. Nas cavernas o conforto é infinito: somos abraçados por pequenas cobras brilhantes que rastejam por todo canto e dormem na pedra conosco. A linguagem cria uma nova escuridão para nos contorcermos. Eu amo você, vou ficar ao seu lado, vou te abraçar com seus próprios braços, e você terá amor infinito. O que é que não vai bem, além de tudo? O que há com você que não pode ser estilhaçado sem muitos prejuízos? Deixemos de lado as perguntas. Venha cá e deite-se comigo, vamos olhar as estrelas inexistentes no teto escuro. As palavras não têm absolutamente nenhuma serventia. Mas venha cá e me abrace, se abrace a si mesmo. Sinta o ar se tornando menos tóxico, as crianças rolando pelas pedras morro abaixo. Você terá amor infinito. Não há respostas nem perguntas.
 
II
 
As cobras brilhantes nos amam diretamente dentro de nossos olhos. Não suportamos tanto amor, somos insuportáveis de tão amargos. Larvas e vermes dentro de nós aguardam ansiosamente pelo grande banquete final, e nós também. Pelo dia em que nos tornaremos verdes, nossos olhos explodirão das órbitas, e os lábios em decomposição revelarão pela primeira vez um sorriso consistente. O tédio futuro, como o presente, será infinito. Por ora nos contentamos em desaparecer dentro das cobertas. No espelho vemos um contorno sem recheio, e o tempo desintegra as coisas que poderiam estar sendo. Venha e sente-se ao meu lado um pouco. Vamos pensar sobre o mundo em que gostaríamos de estar existindo. Onde os crustáceos fossem livres para caminhar pelas ruas. Onde pudéssemos, na plenitude de nosso desapego, comer almeirão todo dia. E onde os dias não fossem tão tétricos, não tanto quanto nossos sorrisos tão tétricos. E as memórias fossem leves como um pequeno embrião abortado. Com certeza que a vida seria tão alegre que as palavras escorreriam de todos os nossos orifícios, encantaríamos as pessoas com os melhores discursos sobre os mais refinados assuntos, como ostras e bolor. Chegaríamos tão no topo da felicidade que isso seria a morte, e não adiantaria de nada. Mas não pensemos em mais nada por enquanto, venha e sente-se ao meu lado.
 
III
 
Fora do absurdo só resta a morte certa. Por isso vamos imaginar algo capaz de nos manter afastados da realidade. Olhe para o céu escuro e pense em explosões solares, em acidentes aéreos e em naves extraterrestres. Quando escrevemos, tapamos os buracos com uma massa provisória que logo no dia seguinte já descolou. Não tem importância, escreve-se novamente. Olhe para mim e não me veja. Se me viu, olhe novamente para mim e não me veja, repita o mesmo procedimento infinitamente. Tudo se torna mais e mais complexo a cada dia que passa. Chegará o dia em que a complexidade será tanta que não conseguiremos nem mesmo entender que não entendemos. A complexidade será incomensurável consigo mesma. Esse será um dos eventos mais extraordinários do universo, mal conseguiremos relatá-lo. Por isso vamos esquecer um pouco da complexidade das coisas e vamos tão somente fritar um ovo ou sair para comprar meias. São pequenas atitudes como essas que nos salvam. Que nos salvam do passado mal vivido, que nos salvam dos traumas grotescos, daquele dia em que, no escuro, tivemos mais uma desilusão. Não pense, não pense para sempre! Esqueça, esqueça para sempre! Encoste-se em mim e mantenha a calma. Ainda se é jovem, poderia ser pior. Ainda se está vivo, poderia ser pior. Ainda há chá e café no armário, poderia ser pior. O pior não é o passado, nem de longe. O pior é o que está por vir. Vamos rolar juntos pelo chão e esquecer de tudo, menos dos sonhos sem sentido, como aquele em que um cachorro azul latia incessantemente, e que nos aterrorizou até os ossos porque se tratava do próprio demônio em formato de cachorro.
 
IV
 
“Se oito mil dias pesam como uma bigorna, então espere só mais dez anos para ver como será”. Há um deus com um humor negro refinadíssimo que me diz essas coisas o dia todo. Estou cansado e nem ouço mais. Na verdade, só dou ouvidos aos demônios, que são sempre muito prestativos e me auxiliam nas tarefas de rotina. Acordo todos os dias muito cedo para cumprir uma espécie de ritual: trocar lâmpadas fortes pelas queimadas, varrer cacos de cerâmica para debaixo dos tapetes, ferver água para o café até evaporar, ferver água novamente, cortar os pulsos com espátulas, etc. Depois o dia está aberto para o que der e vier. Podemos nos sentar e pensar sobre os fracassos? Mas é claro. E sobre o passado que deveríamos refazer? Pois melhor ainda. Temos de cuidar para não nos lembrarmos que, enquanto estamos lamentando o passado, acumulamos ainda mais tempo para se lamentar sobre. Colamos bilhetes pelas paredes para não nos lembrarmos disso. É preciso viver com muito cuidado, sem chegar propriamente a viver. Que há no mundo de mais maravilhoso que as oportunidades que não se concretizam? Precisamos nos livrar de pensamentos como esse. Vamos pensar seriamente sobre viver de alegria. Vamos perceber que o problema maior não é a falta de sentido da vida, pois há pessoas que vivem muito bem no interior da falta de sentido. Prazer e dor se confundem em tudo o que existe na face da terra. Há dias em que a alegria é cheia de agonia e a tristeza cheia de doçura. O amor é tão doloroso quanto a falta dele. Seria isso a falta de sentido? Não há como saber. É preciso amar as pessoas, especialmente aquelas que sabem que não há conforto possível na vida, que “ninguém descansa em cadeira de dentista”. Temos compaixão por elas e por nós mesmos. E também temos ódio e rancor por nós e por todos. Nada adianta para nada: pensamos sobre várias coisas e nada adiantou para nada. Fizemos tudo errado. Levamos tudo a sério demais. Não conseguimos nos salvar. Nossa missão para sempre impossível: salvar quem não quer ser salvo. Venha cá e me abrace novamente. O céu está altíssimo e não há sombra de dúvida. O sol está altíssimo e nós irreconhecíveis. Deixemos de lado as palavras toscas. Venha cá e me abrace. Vamos partir em segredo dessa para uma melhor.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Sobre o cansaço

 

Os demônios são como amigos ou parentes, só que eles vivem conosco em nossa casa. Estão ao nosso lado. Abrem ou fecham uma porta para nós, eles não permitem que esqueçamos de nossa podridão e da podridão do mundo. Por vezes, eles auxiliam em alguns trabalhos domésticos. Corrigem uma rachadura do teto, trocam um vidro quebrado, varrem um aglomerado de poeira para dentro da lixeira. Às vezes, quando não têm mais nada pra fazer, eles riem tanto de nós que chegam a ficar sonolentos e depois dormem durante dias, exaustos. Cada um possui uma cama, mas é sempre uma cama invisível, que paira sobre nós quando dormimos. Depois eles acordam e sussuram em nossos ouvidos sobre como corpos jogados em rios apodrecem rapidamente, e como crescem as ervas ao lado dos rios, e como depois as pessoas bebem a água e contraem infecções das mais diversas. Eles insistem em nos lembrar que não há razão alguma para absolutamente nada do que fazemos. Desde quando acordamos e pisamos com os pés mornos nos chinelos até quando anoitece, cada pequeno ou grande evento é vazio. Se ao invés de caminharmos até o banco ou a padaria, optamos por esfarelar um bloco de isopor ou esfregar os azulejos da cozinha, isso não faz a mínima diferença, para nada. Eles não nos deixam esquecer, a todo instante, que a vida podia ser diferente. Embora essa informação escorra por nossos dedos – não sabemos como utilizá-la. Ou não queremos utilizá-la. Tomamos café com eles enquanto rugas muito impercepíveis brotam na nossa cara. O mais interessante ocorre quando dormimos: eles entram em nossa cabeça e nos fazem ter um sonho dentro de outro sonho dentro de outro sonho. Hoje, por exemplo, eu sonhei que estava viajando de ônibus, mas acordei dentro do sonho e percebi que na verdade estava voltando de carro, e então acordei novamente dentro do sono e eu estava na casa de uma velha que não conheço, mas que é da minha família. Então minha mãe disse: amanhã continuaremos nossa longa viagem. E foi então que eu acordei de todos esses sonhos, e eles foram tão vagos e terríveis que só mesmo um demônio poderia tê-los produzido.

Os demônios são humanos mais antigos que os próprios humanos. Por isso a respiração deles é mais lenta e pausada, quase não conseguimos sentí-la, a menos que estejamos muito angustiados. Quando nos angustiamos e emitimos um grunhido ou um gemido, é sinal de que eles estão por perto, olhando por nós, chorando por nós. Quando silenciamos – o que fazemos o tempo todo – eles se afastam entediados. Os únicos responsáveis por cultivá-los somos nós mesmos. Eles não se alimentam de nossos sentimentos, mas da razão. Eles são famintos por racionalidade, nos forçam a enxergar conexões pouco visíveis entre fatos, pessoas, lugares, animais, móveis, insetos, drogas, lagartas, etc. Quando eles estão por perto, simplesmente esquecemos que já vimos um filme e o vemos novamente. Esquecemos que já conhecemos uma pessoa e acabamos conhecendo-a de novo. Esquecemos que já sofremos por um evento passado e passamos de raspão por ele, sangramos até os ossos simplesmente por termos esquecido. Quando eles estão entediados, eles produzem artesanato com os fios de cabelo que perdemos por aí. O que importa nessa história toda é que, como sempre ao nosso lado, eles impedem que saltemos da janela ou algo do tipo. De certo modo, devemos nossa vida a eles. É por isso que nada muda. É por isso que não conseguimos dormir de olhos abertos. É por isso que temos pesadelos com aves e espíritos. É por isso que não conseguimos mais dormir. É por isso que a vida parece apenas um prolongamento da morte que ainda não veio. É por isso que não conseguimos escrever sobre o desinteresse em escrever. É por isso que somos invisíveis e é por isso que a invisibilidade não é confortável como um prato de comida quente. E é por isso que precisamos planejar em segredo um plano para nos livramos deles. É por isso que nos transformamos em arbustos e estamos com os dias contados.