sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Inventário de viagem


 
Assim que pusemos os pés nas terras gélidas, tivemos uma grande ou pequena surpresa ao perceber que, enquanto estivemos fora, as plantas quadruplicaram de tamanho, os gatos engordaram sobremaneira, as rachaduras da parede chegaram silenciosas até o chão e irromperam em tufos sísmicos, etc. Os olhos sonambúlicos, porém, continuam intactos, ainda que cada vez mais pálidos. Entramos em contato com eles numa experiência especular. Nada foi dito.

Os cadáveres ainda dormem no berço/os talos dos brócolis se desmancham macios. Retiramos cada ostra da água com cuidado, mas simplesmente não pudemos metabolizá-las. Todos os dias ali dentro foram o mesmo dia, e todos os anos foram o mesmo ano. Não soubemos apurar com eficiência se a irrazão na qual adentramos com moderada intensidade é aquele lago habitual de nonsense do qual nunca conseguimos de fato escapar, ou se se trata da forma atual e mais bem acabada da própria razão. Não importa. A realidade é toda fragmentada, vazada, maior que ela mesma, e nenhuma teoria coerente é capaz de apreendê-la de forma adequada. A falta de sentido, contudo, não é algo derradeiro, mas sim a via pela qual tombamos na realidade. Por vezes a falta de sentido é uma lousa lisa e escorregadia na qual as coisas não conseguem grudar. Por vezes, porém, as coisas grudam. Olhamos abismados para o mosaico quase compreensível que se forma e, ainda assim, o mosaico não é o sentido. Mas é que essa etapa não anula a etapa anterior. As coisas não preenchem a falta de sentido assim como móveis preenchem um cômodo. Uma coisa não está nem antes, nem depois, nem sobre e nem embaixo da outra, e sim ao lado. Uma não é sem a outra. Oscilamos desesperadamente entre elas sem saber que a verdade não está fixada em um dos lados, mas na travessia entre eles. A travessia é a própria realidade, e não há oxigenação apropriada. Atravessamos roucos e tontos para o outro lado enquanto as horas derretem. Recolocamos as ostras na água antes de voltar (elas choram enquanto dormem e nos colocam pouco a pouco no mais intolerável estado de nervos). As coisas são sempre pontudas e um pouco exaustivas. Em desespero, descobrimos o balcão dos ossos e recobrimos imediatamente antes mesmo de inalarmos o bolor.


Por fim, coletamos alguns objetos para trazer conosco para o lado de cá: alguns quilos de concreto esfarelado, sementes da falha geológica incrustada nas paredes e dois crânios murchos que guardamos embaixo da cama para que velem nosso sono. Trazemos também muitas perguntas mornas e úmidas dentro de um cobertor, e depois de dias e dias ainda não encontramos respostas. Deixamos os talos e as ostras, não há lugar para acomodá-los. Deixamos pessoas, pedras e olhos fantasmáticos. Trazemos junto dois pares de olhos que nos olham e amam em silêncio e carregamos sempre no bolso como amuleto. Todo o resto é disforme e não encontra palavra para caber aqui.  

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