Assim que pusemos os pés nas terras gélidas,
tivemos uma grande ou pequena surpresa ao perceber que, enquanto estivemos fora,
as plantas quadruplicaram de tamanho, os gatos engordaram sobremaneira, as
rachaduras da parede chegaram silenciosas até o chão e irromperam em tufos
sísmicos, etc. Os olhos sonambúlicos, porém, continuam intactos, ainda que cada
vez mais pálidos. Entramos em contato com eles numa experiência especular. Nada
foi dito.
Os cadáveres ainda dormem no berço/os talos dos
brócolis se desmancham macios. Retiramos cada ostra da água com cuidado, mas
simplesmente não pudemos metabolizá-las. Todos os dias ali dentro foram o mesmo
dia, e todos os anos foram o mesmo ano. Não soubemos apurar com eficiência se a
irrazão na qual adentramos com moderada intensidade é aquele lago habitual de
nonsense do qual nunca conseguimos de fato escapar, ou se se trata da
forma atual e mais bem acabada da própria razão. Não importa. A realidade é toda
fragmentada, vazada, maior que ela mesma, e nenhuma teoria coerente é capaz de
apreendê-la de forma adequada. A falta de sentido, contudo, não é algo
derradeiro, mas sim a via pela qual tombamos na realidade. Por vezes a falta de
sentido é uma lousa lisa e escorregadia na qual as coisas não conseguem grudar.
Por vezes, porém, as coisas grudam. Olhamos abismados para o mosaico quase
compreensível que se forma e, ainda assim, o mosaico não é o sentido. Mas é que
essa etapa não anula a etapa anterior. As coisas não preenchem a falta de
sentido assim como móveis preenchem um cômodo. Uma coisa não está nem antes, nem
depois, nem sobre e nem embaixo da outra, e sim ao lado. Uma não é sem a
outra. Oscilamos desesperadamente entre elas sem saber que a verdade não está
fixada em um dos lados, mas na travessia entre eles. A travessia é a própria
realidade, e não há oxigenação apropriada. Atravessamos roucos e tontos para o
outro lado enquanto as horas derretem. Recolocamos as ostras na água antes de
voltar (elas choram enquanto dormem e nos colocam pouco a pouco no mais
intolerável estado de nervos). As coisas são sempre pontudas e um pouco
exaustivas. Em desespero, descobrimos o balcão dos ossos e recobrimos
imediatamente antes mesmo de inalarmos o bolor.
Por fim, coletamos alguns objetos para trazer
conosco para o lado de cá: alguns quilos de concreto esfarelado, sementes da
falha geológica incrustada nas paredes e dois crânios murchos que guardamos
embaixo da cama para que velem nosso sono. Trazemos também muitas perguntas
mornas e úmidas dentro de um cobertor, e depois de dias e dias ainda não
encontramos respostas. Deixamos os talos e as ostras, não há lugar para
acomodá-los. Deixamos pessoas, pedras e olhos fantasmáticos. Trazemos junto dois
pares de olhos que nos olham e amam em silêncio e carregamos sempre no bolso
como amuleto. Todo o resto é disforme e não encontra palavra para caber aqui.
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