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sexta-feira, 10 de julho de 2020

obrigado a todos que submergiram




Hoje não me reconheci, comecei a lavar a louça pelos talheres. Pensei: se ele estivesse aqui comigo, então ele estaria aqui comigo, e eu não reclamaria de nada além do habitual, a dor nas costas ou o incômodo constante diante das pequenas tarefas deixadas por fazer. Um dia como hoje não é grande coisa também, e eu e você não saberíamos o que fazer com os destroços, mas secretamente poderíamos gerar algo para estiolar, para escapar de um buraco absurdo no qual fomos gentilmente depositados. Se não existe nada nem ninguém, como saímos desse espelho? Juntando uma coisa na outra, sem colar? eu pergunto em prantos se alguém saiu de banho tomado, se alguém desinfetou os guardanapos um a um até eles esfarelarem. Por favor, alguém desceu do carro quando viu o animal morto parado? alguém me trouxe um rinoceronte filhote para cuidar e eu só vi agora? Ele pode ser ajudado a transpor até outro oceano. Nada é tão interessante quanto parece. Tem algo na linguagem que é irritante por si só? Mas, e se o potencial não for todo esse? O lugar foi depositado como que para respeitar. Sem saber, eu deixei que eles respeitassem cada espaço, e parece que eu não tenho como ajudar, não sei qual urna para depositar uma palavra ou um grunhido que possam interpretar como uma intervenção. Alguém por favor abre um espaço para um neurótico passar? obrigado. Eu receio que nada seja tão simples assim, que eu possa me colocar no seu lugar, mas sem ficar por muito tempo. Não sei o tamanho da fatia do desastre que já passou, e se o que está por vir é só areia muito fina. “Convenhamos que nós já chegamos mais longe do que imaginávamos que chegaríamos”, isso foi muito especial, me foi dito no dia cinco de junho e eu cataloguei com cuidado, espetei no meu quadro como um inseto fossilizado, meditei em silêncio sobre tudo que não entendi. Como aquelas verdades em que, de tão manifestas, batemos a testa ao passar. Algo não me deixa engolir, já caímos para fora de qualquer lógica assumida, eu senti que estávamos esperando. Um avião com noventa toneladas de lixo hospitalar passa por cima da minha cabeça. perco o timing quando você me diz: aqui cresce seu osso em alguma parte. Sim, eu confesso que estive perto de todos eles que estavam nascendo. Todos os dentes. Enquanto eu lavava a panela nova e intacta sem alguma dificuldade, Laurie cantava em meus ouvidos: this is the hand, the hand that takes. Eu estou requisitado a responder sem nem mesmo saber como serão as próximas horas, os próximos dias, e assim por diante. presumo que meu amigo salsichas já não exista em nenhum território. Ele me conta uma anedota que eu não entendo e ele não repete. Eu acaricio seu pescoço, penduro um belo colar com um pingente que de longe parece uma rocha magmática comum, mas de perto é só uma fatia de broa de centeio ressecada. Se ele estivesse aqui, estaríamos procurando por todos aqueles que estão dormindo perdidos, terminaríamos macetando-os em um ritual maciço, previamente agendado. 

Agora eu começo em um novo oceano (mas é o mesmo). Não me proponho a caminhar, mas uma coisa macia gruda em minhas costas. ele era muito engraçado, eu ria dele pelo menos uma dúzia de minutos por dia. Agora eu tenho que insistir um pouco mais para que o bonito tente regurgitar. Pois sim, eu espero ter ajudado. ninguém me mostra se há por onde ir, se há algo a que posso me agarrar de modo recalcitrante. Mas, meu amigo, com toda sinceridade, você estava descascado e ruim. Você percebe que, antes de cantar “you’re trying too hard” pela segunda vez, ela ri despretensiosamente? Ela não se aguenta e ri, e essa é toda reação ao percebermos que o esforço é, simplesmente, absurdo. Não espere nada diferente, mas posso completar uma respiração melhor e simplesmente murchar em silêncio. Estamos adentrando agora o osso ruim, mas que pode ser piorado, desde que se saiba todos os procedimentos de antemão. Coloca na sua mochila o andaime desmontado que será levado para o campo, dorme por catorze horas seguidas e se enrola em um tronco do sonho para simplesmente não voltar. Sonha: a vida pode ser bem mais simples que isso. E nós até podemos existir. Dorme, meu docinho, esse inferno não vai acabar. Você está cada dia mais crescido e até cai dentro dos milênios. Nada será como antes, os cadáveres se amontoam na calçada, a existência deles é seu próprio desmanchar. Uma ostra velha some no firmamento. Um outro olho despenca e desmancha. Você olha calmo no meu olho e eu escondo. E, por um simples descuido, esqueço de esquentar o café, de trazer o peixe para a grelha, de telefonar para os familiares mortos, de consumir o Rivotril empanado e frito ainda quente. Esqueço-me de todos que estão morrendo nas casas, nos jardins (é tecnicamente possível morrer em um jardim?), enfim, não sei responder com exatidão. sim, adequadamente eu não sei te informar, você vai me desculpar, com certeza. A encomenda está parada e não quer aterrissar até a minha casa. Não me informe se você estiver dormindo, mas pode retornar minhas mensagens dentro de alguns meses se assim for melhor pra você. Obrigado a todos que submergiram. Eu perco meu osso (não estou entubado), você morreu e eu não dormi. O sentido de morrer está dado, vamos completar. você não ia prosseguir por muito tempo, talvez no máximo uma década. Eu rio quando me lembro de uma carcaça sobre a minha cama, sobre mim, ou me olhando no sofá sem ruídos. Escorre uma pequena lágrima insone que pode ser confundida com soro fisiológico ou chuva ácida. Como chegamos nesse ponto, meu deus? As pendências se acumulam, as pessoas me informam para esperar, ao menos agarro meu título e vou-me embora. Me pega por aquilo que podemos construir juntos. Um buraco em meu estômago mole. Eu encolho todas as minhas vértebras e deixo você sair, enfim. Ao vento quieto. Deixo de existir, ao vento quieto. É quase amanhã. Eu vejo a forma com que eles digerem a morte dos pais deles, e penso se vou digerir assim a morte deles também. Em minha floresta onde estarei um dia, junto a meus gatos, minhas folhas, meu osso de estimação, minha tartaruga empalhada, meu pasto inteiro onde eu mesmo possa pastar todo dia ao acordar. Sim, isso tudo é tão distante, mas tão presente... Meu irmão está certo, não há nada lá fora. Será que no fundo ele sabe mais do que todos os outros que ainda estão tentando? É preciso averiguar com uma pesquisa muito delicada, para a qual não estamos sendo financiados. Me faltam palavras para viver, não consigo me enfrentar, todas as lembranças dormem em silêncio. Me peça para ir desgrudando as coisas devagar, senão termino em poucos minutos e passamos o resto do ano sem nada para fazer. Mas uma coisa alegre se abre na varanda, quando eu já tive uma (já tive?). Um urso cai da escada e é isso que estamos assistindo até agora, o período inteiro está amassado, é muito bom o tempo livre, é bom o tempo que passamos desintegrando aqui ou no quintal, preparando uma salada de miolos, passando os panos úmidos pelo cilindro até secar, amassando o caldo para o purê, fazendo tudo com muita, mas muita minúcia, o dia é limpo e quase não há som ao redor, ele mesmo raramente falava alguma coisa, só quando queria um cubo de gelo para brincar. Foi-se. O bloco de sucrilhos umedecido pela manhã, os cotonetes que escondemos e não podemos encontrar (seu uso já foi banido, mas ignoramos). Mas, pelo amor de deus, ninguém aqui colabora, um inseto acha que precisa bater à porta quando quer entrar, são formalidades excessivas que vão se acumulando e desativam qualquer vontade que tínhamos (não tínhamos) de continuar. Eu desaprovo (coloco as mãos na cintura e me mantenho em silêncio absoluto). Normalmente eu venho até aqui e fico confuso. Você tem que se juntar a esse time, você não pode esmorecer, não pode jogar fora todo trabalho feito e acumulado etc. Você precisa pensar nisso com mais calma e cuidado, retorcer os onze anos até que escorra o resíduo aproveitável. Você não devia se isentar, por deus que não. Você fez tudo isso com seus próprios braços e pernas, olhe e se desespere, mas com calma. Com sua ansiedade orgânica, seus ossos guardados em ziploc.




terça-feira, 31 de março de 2020

Às vezes vejo um vulto e me alegro




Pantufas me ligou. Atendi em prantos porque já sabia do que se tratava. Ele me pede para assinar os formulários empurrados por debaixo da porta durante o temporal. Respondo que eles já se desmancharam por completo, que a verdade é mais (ou menos) firme do que parece, e que definitivamente não me preocupo mais, pois desde que me ensinaram a respiração diafragmática, não há nada que eu não esteja preparado para enfrentar ou perder. 

Ele faz então um comentário que eu adoro e vai de encontro com a minha ostra. O meu amigo não me espera, tenho certeza, mas eu chego sem avisar. Coloco as malas no centro da sala, desembrulho as linhaças embaladas a vácuo, semente por semente. Puxo o abacate que derreteu dentro do isopor. Penso: se eu chegasse mais cedo, ele ainda estaria aqui? Um ou dois anos mais cedo? eu pedi permissão para passar para o próximo degelo. Agora lembrei que ia escrever e retirar todas as pálpebras. Pantufas está aqui e não me passa nenhuma informação ruim. A solidão nos quebra por inteiros, mas, no meio de uma pandemia, ele não me liga para passar uma informação ruim. O mundo continua ótimo, as pessoas se sentem amadas e reprimidas. Eu me divirto com a pessoa que nunca serei, mas me fortaleço com os blocos de terra que colho e mastigo direto do quintal. Se ele estivesse aqui, correríamos pela sala juntos em busca de algo para jantar. Eu pediria a ele que trouxesse outro pardalzinho ensanguentado para preparar uma refeição adequada (a massa seria qualquer uma, a abobrinha eu adicionaria de qualquer jeito para diminuir o índice glicêmico, conforme minha amiga me ensinou). Beberíamos qualquer coisa sem álcool e sem gosto, pois no dia seguinte eu saio para medir minha fosfatase alcalina bem pela manhã, e depois me liberam para mijar todo chá que consumi ao longo da semana inteira que durou dezoito dias e nunca terminou. Quase piso em uma pomba na calçada, ando como se alguém me perseguisse, e assim deve ser. Penso em tudo que poderia ter feito, nas pessoas, coisas e pedras que poderia ter visitado esses meses todos antes da explosão. Tudo é tão óbvio que não consigo acreditar. No meu sonho, algumas noites mais pra frente, eu fazia um esforço ridículo para me mostrar compreensivo com as coisas que eram despejadas como uma verdade auto evidente por um velho que me recuso a nomear. Com muita dificuldade, eu tentava fumar um saquinho de chá usado. A verdade é que tenho muita esperança (eu tenho toda esperança, sim). Esperei que ele estivesse aqui para me ajudar a empilhar. Fui barrado e não me ajudaram a estruturar um caminho, sendo que nenhum dos dois estará aqui comigo, nunca. Pantufas me olha atônito, me diz que é possível continuar assim, sem coisas para dizer, e que tudo bem não dizer, não é um absurdo. Como vamos nos preparar juntos para essa guerra? Vamos acumular todas as armas para existir? Você me ajuda a arrancar um cano da tubulação de água, vou polir meu guarda-chuva, reunir as facas de manteiga, as tesouras sem ponta, os gravetos. Todo armamento é coletado dentro de alguns dias. não sei como fazer sua armadura. Recorto uma caixa de ovos, costuro com arames de saco de pão, prendo em seu dorso com elásticos, você me olha cético, nunca fabriquei material bélico na vida. Sabemos que qualquer erro mínimo pode colocar em risco nossas vidas que já estão acabando. Você mia alto como um ganso quando encaixo o pote de manteiga na sua cabeça como um capacete. Não conseguimos levar a sério nada disso, mas dessa vez é um ser morto-vivo, infinitamente menor que os sapos e cabritos que enfrentamos das outras vezes. Você se descontrola por um instante e ameaça fugir outras vezes, morrer outras vezes, sem deixar sinal. Seria tudo mais fácil se apenas assinássemos um requerimento para não sermos infectados? As autoridades sanitárias dizem que, no mínimo, isso não funciona. Mas Pantufa é sua própria autoridade e não se curva a mais ninguém. Por um segundo ou um século nossas armaduras devem perdurar, mas o quanto baste. Eu me movimento de maneira tosca e você já desiste de emitir qualquer juízo, você sabe que sou infinitamente mais burro do que você, e nesses seis anos você teve o cuidado de desenvolver toda complacência para me ver executar todo tipo de asneira sem julgamentos, e sem nos colocar em perigo, só que agora é diferente. Nosso inimigo não está escondido por trás das urtigas, a solidão é limpa e extrema, estamos extremados e você me joga toda responsabilidade por existir. É verdade, era impossível estar aqui o ano inteiro. Você podia ter me enfrentado, mas entendo que sua estratégia seja mais sofisticada, mesmo que o fim tenha sido torpe. Eu odiei cada segundo, sim, mas não esses em que estávamos aqui. Você executava a mesma sequência de movimentos sempre que entrava no quarto: contornava silenciosamente a cama até o lado direito (esse passo era tão silencioso que muitas vezes era imperceptível, como se a sequência começasse só no passo seguinte), pulava na cama, passava por cima da minha barriga como se nada estivesse acontecendo (e não estava mesmo, nunca), seguia até a outra ponta, até a mesa de cabeceira do lado esquerdo, olhava por ali, suspeitava, permanecia tempo o suficiente para parecer que aquela etapa era tão necessária quanto as anteriores, olhava para mim e voltava, sentava ao meu lado, dormia, entrava nas cobertas quando necessário, deitava no pé da cama quando queria. E assim era. Às vezes, muito secretamente, você parecia me pedir para não continuar, e você estava certo, mas isso eu só observo retrospectivamente. Eu não obedeci e você então me mostrou. Eu olhava por cima dos seus ombros uma luz alcançada para poder dormir. 

Quando você chegou tão minúsculo, dentro da gaiolinha, tão miseravelmente pequeno e molinho, levei você até o quarto, não conseguia sequer acreditar. Ele tinha um laço azul no pescoço, como um presentinho mole e esquivo, mas doce. O que ele pensava? Ele não chorava nem sorria, apenas pulava de um lado para outro do assoalho. Ficou alguns meses dentro do quarto até que as outras janelas fossem teladas e ele pudesse conhecer e se apossar do resto da casa. Eu devia ter suspeitado que alguém estava prestes a macetar minha única alegria, mas eu não tinha como suspeitar. Não tive condições de criar um dia de dentro de uma palavra. Você semeia minhas mãos do jeito errado e nada cresce. Às vezes vejo um vulto e me alegro, são pequenos momentos que fazem o dia valer a pena, ou quase isso. Alguém aparece para me entregar um produto que não pedi ou uma informação que não solicitei, mas que será importante em algum momento nessa travessia pelo horror com corpos empilhados nas calçadas. Minhas mãos têm estrias ou só estão desesperadas? Ouvimos seu miado todas as tardes (sei que não estou delirando, pois não ouvi sozinho), mas será ele ou outra pessoa? Ainda subo no telhado para ver, isso eu prometo. Enquanto isso, deixo os cabelos de molho na tigela com leite que ele nunca consumiu. Ele me envia um olhar perverso e diz, em tom de autoajuda: “você precisa acessar um eu interior mais maciço, mais fibroso, em que cada paulada seja dada para matar”. Meus lábios racham antes mesmo que eu consiga processar toda a mensagem, mas ele só está sendo metafórico, me dizendo para ir atrás das coisas sem esperar por nada ou ninguém. Ainda estou infusionando dentro da cisterna, com os braços destacados do corpo. Peço a ele que se apresente a todos que estão dormindo, é uma questão de educação (que eu não cumpro). Ele então me olha mais calmo, me pede para não ter vergonha de nada que acontece. Aparentemente, tudo o que ele quer é que eu endureça e cresça de uma vez para não precisar sofrer. Ele tem o cuidado de retribuir cada coisa dada, até mesmo o que faltou. Eu adorava dizer que não há um único poste plantado no meu quintal, e você não se aguentava de tanto rir, você ria das coisas que eu ia colocando sobre a mesa. Me desculpe, eu não devia tentar ser uma pessoa, mas não consigo segurar. Minha linguagem é muito limitada, eu sei, não consigo expressar muita coisa, você até cansou de me desafiar. Eu quase me surpreendo com você de novo. Eu sigo até uma próxima hora, cozinho coisas no vapor. Esquento novamente meu chá de sertralina e coloco as nozes para moer no caldo que utilizarei mais tarde, só quando a semana virar. Você era a pessoa mais engraçada que conheci. Você me encontrava com espanto sempre nos mesmos lugares (eu não tinha criatividade nenhuma para me esconder, meu mundo é onde nada acontece). Quantas pessoas ainda pedem para macetar minha cabeça e eu não permito? O mundo continua ótimo, eu só recebi um telefonema ruim durante um temporal. Mas tudo mudou sem o meu consentimento, tudo mudou sem que sequer chegasse o formulário para eu assinar. E assim as coisas vão sendo empilhadas umas sobre as outras como conchas, formigas ou células tumorais. 



segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

Pantufas se foi



Pantufas se foi. Eu seguiria sem meu osso para procurá-lo, mas ainda não cresceu uma manhã, e eu não entendo como produzir um começo. Ele já deve estar perto ou longe? caminhei dezoito quilômetros na garoa florescida sobre a cidade. É ridículo demais, eu cabia em suas costas. meu amigo ainda não espera por mim? ainda que eu possa amar sua barriga? meu amigo me assusta quando não me espera. Ele me diz para ficar calmo, eu já disse que continuo apenas por um pontilhado fraco, quase no fim. posso cortar novamente suas unhas com calma, escovar sua crina macia pela manhã. Todos já morreram, eu fui o último que restou? O último de um bando disforme? Fortifico nossa casa. se você voltar, posso tricotar uma cortina, posso retirar os tijolos e lixá-los um a um, sem problemas, e posso limpar a mesa empoeirada. A árvore cresce para cima elevando também os fios de luz tão macios, agradáveis. Levo você até ali embaixo para ver os fios, você ronrona junto a mim, eu abraço você por inteiro, aperto sua barriga e mordo a pele fininha das orelhas. você apenas ronrona e ri até das minhas varizes. Não há mais lâmpadas em flor a serem acesas em um fio. Você torce meu pescocinho para me ajudar a continuar. Guarda minhas pedras em sua mochila pesada. Retorna minhas ligações do ano anterior. Me lembra todo dia, ao acordar, de que sou uma pessoa. Eu custo a lembrar. Com sono, encosto a mão em sua pata. Um mosquito pousa em algum lugar do cômodo. Eu observo sim, é claro. Ouço vozes de crianças me macetando. Não desejei feliz páscoa a ninguém. Eu acho que meu amigo está muito forte – ele conseguiria rolar comigo lá fora, brincar no pasto, incendiar qualquer um que se opusesse. Preparo os ovos desidratados para nossa próxima refeição. às vezes me perguntam se já estou dormindo. Saímos para mais um jantar logo depois de comer. Você pode me ajudar, você foi ensinado a roer. Roemos uma estrutura de aço inteira em poucos dias ou horas. Você puxa a abertura e me coloca como se eu fosse estar confortável. Eu finjo que estou e prossigo (não posso desagradá-lo, ele pode me deixar sucessivas vezes, para sempre). estoura uma lâmina no meu ouvido direito. não quero ter que recortar suas pálpebras, pois estou absolutamente sozinho e precisaria de alguma ajuda humana para resgatar. A vegetação é espessa, cai um pedaço antes de dormir. Faz sentido transitar aqui? Um olho em meu jardim pequeno, This coming gladness em meu funeral. Josefina entrega um buquê de qualquer flor ordinária que ela catou em um terreno baldio. Desejo então um bom dia a todas as coisas que acontecem, ao gato que olha e dorme, à pomba que se desfaz sobre a cama, ao arado tombado na porta, a esse desfiladeiro ao meu lado, ao demônio que me comunica quieto e deixa meus chinelos enfileirados para minha comodidade pela manhã. Agradeço a cada um individualmente, você me ergue do chão, estou encapsulado. Colocamos nossas capas de chuva, a minha está furada como uma peneira, a sua não chega a servir, mas fingimos muito cuidadosamente e saímos pelo meio do mato. Decidimos existir praticamente do nada! Uma coisa acontece, um céu muda seus contornos, sua base de sustentação. Eu rio de qualquer coisa parada. meu amigo salsichas devolve seu pequeno olhar para mim e eu desabo, choro durante setenta minutos e paro logo depois para escorrer o molho das lentilhas que já começam a brotar. Sento-me seco sobre uma coisa qualquer, paro de respirar por um momento e depois volto. Você era a única pessoa que compreendia meu sonambulismo crônico. Como prosseguir sem romper? Retiro alguma coisa que eu disse para fazer você voltar. Ele me olha fixo e diz: "você é meu companheirinho, você não é corajoso, eu também te amo, etc". Eu não consigo chegar a nenhuma parte de mim e nem dos outros. Eu posso tranquilamente desovar cada um deles, mas não você. Mas, e se você estiver certo? E se você esteve certo esse tempo todo e eu sou uma pessoa? Eu rio demais sem conseguir entrar no papel. Eu me lembro a todo momento e me canso, vou ouvir para sempre seu relinchar alegre. E cada vez que levantar da cama pensando em morrer. E cada vez que souber de uma coisinha no quintal, ou cada vez que começar a suspeitar. Agora estou sinceramente partido no meio. De onde vem esse prazer enorme em não pertencer? Duas cavernas se abrem na minha frente e eu entro na segunda. E se hoje digo a você que quero sair? Vamos até o ponto mais próximo, com certeza, a qualquer lugar em que a coisa esteja acontecendo. Ah, vamos sim... eu escovo os dentes maciamente enquanto espero, meu amigo traz toda a roupinha para que possamos sair calmos, indigestos. Você pode encaixar todo tormento em mim e me embalar como se eu fosse o seu tormento. Por todo o trajeto eu não penso que não vou me divertir, pois ele nunca está comigo por brincadeira. Eu celebro cada segundo, apenas me certifico de que meu cálcio esteja sendo absorvido lentamente, sem interromper. Porém, se não tenho mais imaginação, preciso ser levado ao outro lado contigo. Duas horas antes de receber a notícia, escrevi "Eu não posso vê-lo crescer. Eu já estou restrito a um outro universo". Que universo é esse? isso agora é fundamental. Se eu machuco a minha membrana no caminho, você interrompe comigo para reanimar. Volte e me ajude a cuidar por mais um segundo, antes que eu me esqueça! se eu pular fora antes do momento marcado, algo inesperado pode acontecer. Eu já estou pronto para decidir. Não há nenhuma opção no forno, e estou sozinho. Eu posso remar, mas preciso de ajuda, eu preciso que você me ajude a me mover para as próximas horas, senão não consigo definhar. Você não entende que por alguns dias sou incapaz de existir? Achei que você pudesse entender. Você não pode – como ele fez – me dizer que a maionese é uma bela comida, que as coisas são assim e assado, etc. Eu desafio qualquer coisa que possa estar chegando, você me incentiva a continuar sem osso nenhum, vê se pode! Incrível como nenhum osso. O trem está pegando fogo? Por que eu vomitava tanto? Acho que isso também eu nunca te contei. Éramos resolutos e infelizes. Você também pode supervisionar a minha barriga enquanto caminhamos no quintal. Eu deduzo que há uma terceira pessoa aqui conosco rindo por trás da minha cabeça, preparando o campo para me decapitar. Eu sinto e ele ri, ri por completo. Agora é como se todas as horas também estivessem dormindo, ressonando.


sábado, 23 de março de 2019

obituário tardio



Ontem ele saltou a janela trazendo na boca um pardalzinho murcho pingando sangue no tapete da copa. Seguia imponente em direção ao quarto para depositar sobre a cama a ave quase morta, quando foi interrompido. Lamentaram o ocorrido, tentaram remendar a situação. eu não lamentei. Segui o traçado em silêncio e celebrei a conquista, não quis parecer ingrato. Temi pela situação ao mesmo tempo em que me rejubilei sem consternações. Eu sinto pena que ele tenha de passar por tudo isso. Uma coisa crescente bloqueia a garganta e me engasga, distribuo os avestruzes nas fatias de pão. O perigo ronda as coisas mínimas. Eu percebo sua criança mais tarde: ela transborda e tropeça. aguardamos alguém com quem seja possível morrer. Eu tropeço em uma poça de sangue no meio do caminho/uma árvore retorcida brota dos joelhos de um homem morto. eu me estendo a sorrir por uma coisa doida, esquecida. Eu retorci os ossos com as pinças pequenas, rejeitei uma vida inteira, incendiei as provas e comprometi os próximos dias. Meu amigo repousa o ombro em minha face, digo a ele que não traga mais o trofeuzinho ruim pela estrada. Rimos até enxugar, e depois suspeitamos. Eu percebi o frasco vazio. Uma cabeça decepada agora é nossa amiga até o mais profundo, submerso. Terminamos logo no início, despejei o óleo de eucalipto sobre suas coxas e tornozelos. Diamanda e os ratos não me fazem mais nada, eu trago os galhos envelhecidos por todo corredor com força e sem apego, sem sustos. Então você me ajuda a trazer os galhos, eu reforço suas asas, você me paga com grãos de arroz carunchados. Retrocedo em cada sinal, cada bloco de tempo vazio. Você então fica calmo? Porque você está aqui, você até já está. Continua fervilhando, mas não importa o que aconteceu. Procuramos no obituário pela manhã as pessoas que desapareceram em todas as dimensões. Elas escaparam por diferentes ralos, foram colocadas em caixas de isopor. Você torceu meu pescoço e eu pude agradecer, assim o fiz imediatamente, devolvi as ostras fracas unidas pelo fio fino, inobservável. Aqui choveu o dia todo, mas ainda são duas horas. E assim mesmo é. Passei tão mal por não ter existido. As pessoas continuaram sustentando seus ossos enquanto caminhavam na rua, mas sem pestanejar. Eu estive ao seu lado sobre a porta, passei pela trilha de pedrinhas pálidas, saltei por cima de outra coisa que não identifiquei, fui até o pequeno pardal. pedi ajuda, implorei, falei (bastante cruamente), que não sabemos como continuar. Enrolamos um pequeno alpiste e, com as mãos, continuamos sem saber se ele conseguiria se alimentar mesmo depois de morto. E se fosse um grãozinho de milho ínfimo, quase molecular? Formamos outras roupagens para conter as orquídeas. Eu recorto meus lábios com uma tesoura sem ponta, conto os passos na escadaria, reencontro o ruído mesquinho. Eu endureci na cadeira, as pessoas chegaram pouco a pouco e me viram naquela situação. Espalharam rumores pela cidade, disseram que sou lúgubre demais (não sou), e que eu não viveria muitos segundos a mais, nem que tornassem a casa inteira uma caixa esterilizada (com que fundos?). Percebemos a ironia com um susto doce. 

Algumas coisas estão enterradas pela manhã. Um sol nascente, um espelho d'água. Meu corpo pesa com que peso? com que coisa somos destinados a continuar? por que continuar? etc. Escrevemos todas as perguntas com um giz escuro. Ela vem comigo pela praia, passamos por tudo. Cruzamos todas as faixas de areia que se entrecruzam como estradas, como arcos. Nenhum lugar tem alguma saída. Enquanto sintonizo o guarda-chuva no quintal como uma parabólica, você percebe como se pode continuar sentindo, pensando. Você carcome meus ossos como alguém que tem muita fome. Estamos acorrentados no porão. Eu digo que não quero participar dessa palhaçada. Eles me devolvem a confirmação de um regresso por precaução. Eu continuo parado e não tenho sono. Uma mão ou uma pata é depositada sobre meu ombro direito. Recoloco a poeira sobre os sofás. Você me diz, jurando com as mãos juntas (isso é patético), que o dia que nasce é outro, não o mesmo. É preciso acreditar, com certeza, pois um espelhamento acontece. Retiramos as palavras não ditas para não estorvar o campo de diálogo. Um pequeno ovo é recolocado no quintal. Por que você não me avisou que as horas estavam passando? a casa é ríspida, mas está de pé sem assombros. O filho não consegue chegar mais tarde, não fazemos com que sejam estiolados um a um. Somos esquecidos de repente, mas eu faço por existir. Não deduzo nada de cada situação. A nuvem não acorda, a palavra é ridícula. O gato está mancando. Sei enunciar pequenas frases, cheias de sentido. A vida é um orifício penoso. Fazemos uma festa ruim com as sobras. Eu tento me salvar, mas o resultado fica aquém do esperado. As lembranças não cansam de espocar e são reconduzidas a uma sala de espera úmida e insalubre. Não há formação de nuvens. Qualquer coisa me faz chorar com seus ossos, e eu consigo deduzir suas pálpebras se você não se mexer. Fique parado até minha eternidade chegar. 

Aqui nessa janela eu fico então conversando comigo mesmo, espero um sol pulular. Sem dúvida alguma, eu preciso pertencer. Eu preciso que me deixem pertencer, ainda que eu não queira. Nesse estofo macio eu posso me movimentar e criar meus dias. A solidão é fresquinha e não carece de mais nada. A palavra é tranquila, insípida. O pasto é largo e acomoda a todos. Eu então tento reconstruir meus ossos um a um. Espalho meus dias sobre a mesa para poder calcular. Você observa na janela uma coruja, um bicho de pelúcia macabro sustentado por um graveto. Eu receio estar sendo dissolvido num tanque de carpas sem perceber. Eu não represento uma ameaça a nenhum deles, eu fico aqui para sempre, eu conto os blocos de isopor presos em seus cabelos. Dou um beijo em cada um dos meus queridos, confio que a coisa racha por dentro, basta olhar e ver. Estou enrolado por dentro com seus dentes em meu colo. Eu choro em momentos milimetricamente planejados, eu esqueço. Você então me ajuda a esquecer um pouco mais. Peço a você que continue seu caminho. Percebo que não cumpri uma única exigência sequer, dentre milhares. Pela manhã eu aqueço e, logo que abro meus olhos, desisto. Quantos atropelamentos eu já não enfrentei? Vocês sabem. O lugar é fraco, eu posso segurar suas mãos enquanto isso, enquanto o tempo passa. Passa o tempo e o rosto afunda, a coisa morde. E é tão difícil deixar as manchas pela sala, e é tão difícil escrever... A ostra já está redonda. Eu consigo enxergar muito mais à frente. Perco meu papel no chão, imploro por alguma coisa que venha de cima. Pensa com a minha fibra sutil. Implode meus rastros para que eu não possa mais caminhar. Você acha mesmo que estou vivo? Você acredita? Caímos na gargalhada, rolamos na grama alta de tanto rir, uma face da grama despenca para o outro lado. Pessimamente somos ejetados para fora do planeta. não fiz nada por ela, e quanto tempo faz que conversamos. ela me dizia para existir. Sentimos também as correntes. Ela morre e não me avisa, ela morreu e ninguém foi capaz de me avisar. Você guarda meu lamento enquanto eu não puder morrer da mesma forma? O caminho agora segue fechado, você pode vir até aqui e ver. Eu fui cremado naquele dia junto dela, e minhas cinzas depositadas na tigela de iogurte e maçã. Eu não quero defender nada. Eu não quero estar prestes a morrer assim, sem avisar. Eu deixo um beijo para você aqui no final, eu não soube antes, não pude saber. Você entende que eu não pude saber? Posso vê-la em algum momento para me desculpar? Você morreu sem que eu tivesse tempo de me desculpar, sem que pudéssemos passar uma madrugada a mais sobre um tabuleiro, sobre a realidade que eu não fui capaz de cuidar ou entender. Você me encontra depois então para que eu possa me desculpar.  




sábado, 29 de dezembro de 2018

Testamento



O meu grande amigo acena para mim. Ele caminha suavemente empurrando os ossos para frente, quase como um de nós, mas macio como em uma nuvem. Eu componho suas bochechas. Então eu beijo suas bochechas, troco a posição das pernas na sala, termino por incendiar as cortinas que ele já arranhou e torceu enquanto eu não estava aqui. Eu deixei de estar por tanto tempo que ele cresceu quase do tamanho de um boi, um animal parado, um automóvel, um amontoado seco de ossos, uma cavidade. Eu percebo seus olhares de sono, ele está depositado junto à mesa para participar. Ignora uma xícara de café, uma fatia de bolo. Ele me pede para levantar o rosto, endireitar os ombros, manter a postura ereta, esperar, não esmorecer. Eu continuo colapsado, toco sua face, escovo sua crina na primeira hora da manhã enquanto ainda estou sonâmbulo, mas prestes a despertar. ele rasteja pelo meu ombro. eu posso desejar estar amassado. Ele tenta me convencer, com os procedimentos mínimos e sem qualquer rigor, de que sou uma pessoa. Eu não consigo acreditar em nada do que está acontecendo. Eu choro de sono, ele ri da minha sombra, um crânio avulso também olha e ri, mas em silêncio. Eu estou envelhecendo mais rápido que vocês, digo. Não consigo comprovar agora as minhas suspeitas, mas já passei por experiências similares, perdi uma aposta para aqueles que estavam escapando pelo ralo. eles surgiam de cada poça implantada no asfalto, bem na minha frente, e de dentro do sono eu podia macetar um por um e depois ser alcançado por minha própria asfixia. Trouxemos todas essas opções como em um cardápio, e aqui eu não existo, repeti. A vida virou um caldo confuso, cheio de vértices. Esperamos pelo sinal luminoso do espaço. aqui dentro da minha casa eu espero amornar os dias, eu espero as crianças voltarem. Elas me trazem presentes, eu enlouqueço em poucos segundos. Os médicos entram e despejam sobre meu crânio um caldo fervente de uma jarra partida. Meu amigo me olha ainda em silêncio. Eu peço para que, enquanto espera, ele coma seu ovinho. A coisa aparece apontada para mim, eu desapareço dentro das árvores, espero por um universo, com todo arrependimento do mundo. Não estaremos por aqui por muito tempo, não há lugar para nós, Então forjamos outro universo para sentar. Ele permanece comigo sem que a passagem de tempo nos atrapalhe. é muito bom estar vivo e com todos os ossos prontos para nada. eu estou prestes a dilacerar as cordas, cortar o cordão das flores. Eu coleto os peixes e deixo-os sobre o asfalto para que ninguém diga uma palavra ou se irrite. Não suporto seus olhares de rancor, de sombra. Eles, nesse exato momento, estão dispostos em círculo, cantando coisas sem nexo, esfregando as patas na parede. Minha boca está quebrada, não consigo sintonizar uma próxima partida, a percepção requer um novo instrumento, uma folha que possa ser usada como escudo, um galho partido que possa ser usado como espada. Uma nuvem levanta e interrompe o fluxo, lembra as coisas perdidas, despejadas, decompostas. O que poderia ter sido, o que quase alcancei, o que construí por poucos dias, o que construímos por poucas semanas, assim foi, sem nenhuma palavra para colocar ali. E se coletamos todas essas palavras e elas não ocupam um quinto sequer do espaço? sem poder registrar sequer, todo desconforto possível em nossas mãos que mal se tocavam, etc. Ele me alcança cansado, me incentiva a continuar. eu então descrevo todos os rostos pela manhã enquanto espero. cada decepção, uma por uma. O dia é calmo, as pessoas caminham pela estrada de pedra, o pombo reenvia as conexões, eu desisto de viver, caio da escada e quebro um braço ou dois. Ao que eles chegam para me ajudar a levantar e respondo que estou apenas calibrando minhas articulações. todas aparecem infladas, inutilizáveis. estou incansavelmente descolado do universo. encontro uma pomba no chão, peço para que se anime. Doze horas passam novamente, a cidade escurece, some. Acende um sinal luminoso no céu. Todos chegam para comer empovorosos. Desistiram de chegar mais tarde, olharam o caminho cinzento. Durante todo esse tempo eles estiveram prontos para existir, mas nada aconteceu, nada aconteceu sem a nossa permissão, tivemos um controle excessivo, o controle impediu que aparecessem brotos, formas torcidas, rostos pálidos, cascas sem flor. O tempo transcorreu vazio dentro de cada quarto: paredes mofadas, fumaça de incensos cancerígena, muita alegria no interior de cada concha lascada. Como passaram esse tempo? eu adoraria saber. poderíamos fazer uma reunião com petiscos, ansiolíticos e charutos. Vocês poderiam coletar todas as coisas que evitei, sentaríamos em roda, vocês me contariam uma história aleatória, sem pensar, como em um fluxo, e no final seria minha própria história porque qualquer peça poderia ser desencaixada e recolocada em outro lugar sem nenhum prejuízo. o absurdo não conhece nenhuma ordem. Naquele dia em especial foi depositado sobre minha cabeça aberta um colar litúrgico, uma concha macia, parecida com nossos avestruzes pequenos que criamos de manhã. Dois deles foram depositados também em nossa palma. Polvilhei seus resquícios, comecei a chorar sem provas, eles me deram o coelho para macetar, chorei por ele com quem eu mal conseguia falar, depois adormeci, morri em silêncio, com uma curvatura de moscas sobre minha cabeça cicatrizada. Então, quando estou no palco, todos me olham com muita paciência. Pensam: talvez você não vá muito longe, mas esperamos que você possa sair intacto. Eu não posso então nem me virar e já sou rotulado com alguma porção de ossos crus. Ora. Ele se sente subjugado por uma pequena ostra incrédula que também não move meu chão. Cantamos para os cadáveres das crianças que acordam um a um e se juntam a nós para alegrar. O mundo se transforma em um novo inferno, os círculos ardem ainda mais, não entendemos como é possível viver, solicitamos o manual que já vem incinerado. Propomos uma nova reunião para discutir os métodos, selar os propósitos, alinhavar os instrumentos, desistir de um sonho. Finalizamos as concreções. Perguntei a todos que morreram se desejariam existir por um segundo a mais bem na minha frente. Mas eles já fizeram as malas, coletaram as canecas, as escovas, as capas dos botijões. Outro cadáver levanta e me cumprimenta, eu me alegro, derrubo o vaso e espatifa. A realidade é só um osso difícil de roer. Se eu quiser continuar, ele não pode me impedir de viver em nenhum momento. Não posso deixar nada por fazer, não posso permitir nada no interior de uma ponte. A corda é esticada dez vezes para alinhar as fibras. Ele se alegra demais para morrer, ninguém mais suporta o quanto a pele transpira macia, ninguém suporta que ele sorria tanto nessa circunstância, nesse lodo dramático. meu amigo salsichas está sentado e não aparece. Eu recomendo que não apaguem essa imensidão inteira. sem que você percebesse, eu estive ao seu lado, esperei você dormir para quebrar os pratos e talheres, contei as bolhas de mofo no teto, aguardei o carro se aproximar. Eu estive dormindo, confesso. Sei que você não podia imaginar. Eu fui até a próxima boia (só para) não dizer seu nome. Você invadiu como uma coisa extrema, soberba. Mas tudo é sempre muito divertido aqui nesse pasto. Não deixei de rir nem mesmo depois do tombo grotesco, de cada fraturinha. E agora esse é o centro da minha vida. Você então me ouve dizer que o silêncio, com todas as horas, resiste a decrescer. Porque absolutamente nada disso é comunicável. Os tumores podem ser trançados nos pontos do tricô. Mas eu já não vou muito longe, meu docinho. Estou sentado em frente à estátua há milênios. Eu sinto sua falta, e sei que você jamais usaria um tijolo para abrir minha cabeça, meus olhos, ou qualquer coisa parecida. Então pode ficar por aqui, beber o chá que esfriou. Tornar provável uma nova concentração, uma folha ambígua. O meu grande amigo não acena mais para mim. Agora, depois de todos esses meses, ele prefere não ficar ao lado, ele prefere o lugar mais seguro, e eu lhe dou toda razão. 

Pois bem, sente-se e me peça para continuar narrando porque eu já esqueci. Eu amo cada pedaço, aprendi a esperar, a desmaiar com a cabeça no fundo. Olha, pra mim já deu (e então devo rir até sufocar?). Os anos se seguem uns aos outros, a matéria dos anos é porosa, eu peço que me perdoem atentamente. agora eu desejo que todos vocês continuem nas próximas horas como se não houvesse meu pasto ruim. Pudemos parafusar todas as horas de manhã, quando você acordou. O ônibus passou e dele surgiram ondas que recobriram o ponto com colocações muito precisas. Guardei na mala para poder seguir também. Tomo a palavra para me posicionar pelos homens, pelas estátuas. Percebo que não consigo existir. Então peço ajuda a um poste que me acompanha, sinto os sinais como em um dia nublado no qual as coisas começam a anoitecer antes do horário marcado, uma atmosfera sinistra. Propicio as escadas como folhas abertas marcadas para serem trituradas em um quintal. Convido todos a participar desse ritual desorganizado, em que cada um deve falar o que bem entender e depois, torcendo para que o tempo não mude bruscamente, recolocar nossas esperanças em um baú fundo artesanalmente talhado. Eu também não fui essa pessoa, eu não soube construir coisas já com medo de que elas ruíssem. Mas venha comigo nessa pequena bolha pelo espaço. você está deitado, você se conecta com as coisas na parede, com isso que é uma pessoa que morreu, e depois você viajou até uma ponte e depois outra pessoa morreu, e depois você percebeu os espelhos e outra pessoa morreu, e depois. Mas ainda assim, eu tenho medo que a qualquer momento ele caia sozinho, fique preso na grade, se enforque no puxador da cortina. Percebe cada coisa revivendo? Estufando da terra morna, meus pés queimam. mas os dele são recobertos de uma lona espessa, ele pode caminhar horas ou dias sem nenhum desconforto. Se eu quiser continuar por esse caminho, nenhum deles pode dizer nada. E, magicamente todas as conversas aparecem já construídas, faladas, vividas em cada proporção. Podemos apenas colocar no bolso as memórias renovadas e continuar. ninguém está aqui.


sexta-feira, 7 de setembro de 2018

Há um número de pequenas coisas



Andamos por todos os ventos na cidade. Alguém vai me salvar, – minhas vísceras já estão prontas. Eu repouso nos seus ombros mais secos, cuidando para não esfarelá-los. E assim eu faço cada dia. Não aceito nada menos que um não bem redondo na cara. O sol nasce sonoro, as estruturas do espaço amolecem com o calor. Eu colho suas palpebrazinhas, você me embala para dormir (sem sucesso). Doze bagres são nossos filhos e não sabemos como alimentá-los. Eu estou sonâmbulo até esse poste, mais alto. Vou amassar seus olhinhos para mim. O sofrimento é pequeno, infinito. E não adianta rir em silêncio, eu compactuo com minhas próprias ideias, executo todos os procedimentos sem hesitar. Desconheço outra forma de viver. Me concentro, psicografo enquanto os ovos cozinham, enquanto a coisa atravessa meu crânio. E, quando atravessa, eu não imagino outras possibilidades. Não há outra coisa que possa acontecer. Encolho minhas pálpebras em gratidão. Você está claramente sem reação, como se essa cena absurda fosse indissolúvel. mas você pode usar qualquer coisa para derreter esse gelo sobre meu colo: uma espátula, uma ostra fresca, uma betoneira. Enquanto experimentamos ainda mais o sol (os raios), os planetas continuam em pedaços. Mas eu piso em falso sempre que tento sair. Os pedaços estão disparatados. Apenas não recue, jamais. 

Por onde ele continua andando, eu entendo cada uma das flores depositadas. Vivemos dentro dessa tigela por tantos meses ou anos. Espero que renasçam todas as ervas, todos os pesos. Nada aqui pode fazer sentido, mas também, se algo fizer, será suficiente para destruir uma imagem? uma memória? não se sabe exatamente se toda lentidão foi construída ou rompida, despejada ou evaporada de antemão. Não troquei nenhuma palavra de manhã, nem a tarde. A flor desabrocha em meu ninho. Conquisto os próximos mares a pé, tremendo. Esqueço-me de todas as vezes em que fomos ao quintal, ao arbusto, em frente ao portão. Despedimo-nos antes que eu partisse a pé, eu poderia rastejar pelas ruas sem incômodo. fui embora pelo asfalto, passei pela janela, cobri os ossos, deixei de estar no temporal, cobri os pequenos animais que passavam. Não tem nenhuma importância estar vivo. Não tem problema e é agradável, eu me divirto com cada farpa. Nenhuma pessoa consegue observar, descrever o movimento, o próximo enquadro especial. Não deixo de observar suas sonolências. Você também não resiste de maneira particular. Não falo exatamente nada. Mas não acredite em nada do que está acontecendo, por favor. Eu também não acredito que você está aqui, e você esteve aqui o tempo todo. Eu agradeci e continuei seguindo pela estrada. Chegamos depois pela janela. Entrei, você riu e eu ignorei, como se ninguém tivesse existido na face da terra. Eu deveria estar aconchegado no meu ovo. Depois da longa viagem, chegamos e entramos pela janela. Eu vejo seu bico florescer. Não registro as próximas horas porque elas não passam a contar. Já desisti de todas as escoriações. Quando você resolveu meu braço, meu espaço oco. Não compreendeu nenhuma de minhas falhas como uma construção mole e macia. Vou começar a contar adiante os passos. Vou começar e peço que me ajudem: por onde você continua andando, carcomendo os cantos. Eu então dou um passo em falso. Você coloca suas patas em volta de mim, você sabe que eu não preciso de punição. Todas as próximas ostras estão recolocadas em um pardal, em um próximo fio ensolarado. Não existe nenhum método seguro para sobreviver. retorno para que possamos viver em ventos mais fortes, para que você possa abraçar minha cabeça. Mas se você chega, toca a campainha, entra até aqui sem minha permissão, eu olho cansado, não tenho claro para mim os meus procedimentos, aquilo que pretendo concretizar. Agora preciso de ajuda para reconstituir os passos. você sabe, no fim das contas, quem me tirou daqui? Quem foi levado até o próximo altar? Eu não soube de nada, eu mal retornei as ligações, e assim esperei que uma resposta melhor se formasse (e que viesse de mim, sobretudo). Ninguém sente a pálpebra salgada sem os ovos. Aqui fui depositado e não encantei ninguém. Fui celebrado até a próxima horda, até o próximo avestruz. Fui também silenciado por todos aqueles que entraram nessa casa e sentaram em torno da mesa, quietos, esperando que eu servisse a carcaça de um pardal. Esperando o próximo movimento ruim. Você entende? Desconheço as próximas aventuras. Se eu puder emprestá-los essa forma de viver, eles poderiam olhar. Eles nos olhariam com os beicinhos mornos, caídos? Ele é macio, está ressonando ao meu lado. não perdi a batalha ainda, mas quase. Estourei todos os legumes de uma só vez. Estou psicografando as cestas maiores, colocou o ovo dentro de mim. Mas os mortos não olham. Ah, mas então você também desistiu de todas as ostrinhas, e sem um ruído qualquer que pudesse denunciar a manobra. Derreteram-se os blocos de gelo sobre meu colo. Precisamos montá-los desde que você me conceda uma tarde inteira, sem sair. Não desisto. Já morri, mas queria deixar bem claro que não estou desistindo. Sigo em frente, com sangue nos olhos. Pulverizaram a estrada por onde preciso passar, e que doçura essa pedra rompida na qual tropeço e retropeço. Se você quebra sem querer meu crânio no percurso, eu não tenho do que reclamar. Os demônios me protegem dia e noite com muito cuidado. Carregam as vasilhas de água até a próxima estrada, na floresta, varrem a poeira para debaixo da porta, onde ela some. Sempre que necessário, arrebentam as teias de aranha recém tecidas, destroem todas as células e também os tumores. Agora minha ostra já está fraquinha. Meu deus do céu, eu me recuso. Eu me recuso a existir, e, ainda por cima, existir até quando? Por favor, assinale o calendário na parede. Peço encarecidamente para que, antes de ir, você assinale o calendário, me mostre o limite, o dia do juízo final enquadrado. Essa informação eu só não pude obter. As frestas se abrem para o abismo em flor. O abismo florido escapa por entre as folhagens, despejado. Sim, eu entendo as regras, eu recolho todos meus órgãos soltos pela sala antes de dormir. Todas as aves também secam a alvorada, e se você está aqui. Agora eu estou aqui descansando com meu melhor amigo, ao que ele olha a pomba no muro e eu pego no sono. Todas as convenções se tornam inúteis, pura perda de tempo. Cumprimos com o prometido. Não trouxemos nada que fosse muito pesado ou misterioso. Será que ele já mudou de ideia? Ou desistiram todos do meu pasto? Espera por uma mensagem que nunca vai chegar. 

Ontem ela chorou porque percebeu que vai continuar sozinha. frustraram-se as expectativas absurdas, e os outros planetas já estão em pedaços. Onde estão todas elas, em fileiras? Olhe as ostras no mar: é o próprio inferno. Os gatos dançam conforme a melodia, os pardais espasmam, todos os próximos bois caem do desfiladeiro. A história acaba simplesmente, sem fundo, e eu já estou pronto para submergir, eu que não fui sequer capaz de alegrá-los em uma tarde ruim. Telefono a ele – sem sucesso. peço para que, um ano depois, ainda não desista do meu pasto. Dias depois eu fui retirado. Dobramos todas as entradas para fora. A plantinha escondida no quarto. Sem assustar demais. A casa percorreu vazia. Ninguém soube encontrar seus lugares na mesa de jantar. Apalpei seus pés durante a noite. Nada foi devolvido com proporção, com justiça. Participei dos seus resíduos na festa. Estouros e luzes, com muita alegria pelos contos. Pessoas iam morrendo aos poucos. Refresquei os cantos de sua memória. Sem hesitar um descanso. Mas esse descanso e essa palavra – digo aqui enquanto sou entrevistado – é tudo o que há. Fracassei, minha pequena ostrinha. A história acaba sem que eu tenha sequer entrado nela e aproveitado um instante com os animais. Os vizinhos me veem e aplaudem, agora estou no auge, grito por existir. Estou descalço, porém. As folhas ainda invadem a calçada, até esse mês. Tardiamente, as folhas ainda invadem a calçada aos montes – eu amo vocês em silêncio. E seria adorável estar do outro lado. Ninguém olharia nenhuma sombra. Assim que desviássemos da rota, seria novamente um outono. Mas então onde está a coisa toda? Essa doçura está ao lado, não podemos nos importar. Aqui você já tem sua escovinha de dentes. Pronto para dormir. Todos consentiram com o final do meu universo. Nesses momentos de plenitude eu viro minha cabeça para o teto. Participo de todas as coisas que estão vivas. Eu recolho seus pedais que já estão mornos (eles podem precisar de mim). Eu explico que você é só uma criança assustada demais.

domingo, 15 de outubro de 2017

Pós-apocalipse



Há uma ostra que segue cada caminho sem roer. Ali, enquanto eu arrumo as meias e batizo seus ossos. Essa ostrinha sobe, sobe esse pontilhado comigo. Foi trazido para o colar das conchas. Ostrinha, segue o pato, abençoa o arado, traz o osso sacrificado de manhã, estoura o câncer em meus olhos, traz ruas ou riachos para meu colo, deposita os embriões na estrada, eles engatinham até o depósito. estão a salvo, tremo de alegria ao olhar. Por favor, não deixe que macetem minha ostrinha. Eu tentei, e muito. eu juro que tentei. Creio nEle como em todas as coisas. o vácuo em meu colo é preciso, deixo de me comunicar, tomo oito litros de chá oxidado por minuto, espero a balsa atracar, ouço o ruído idiossincrático, estico a espinha até alcançar os cabides, peço ao pêndulo que se aquiete. Ouço o pêndulo estiolar. Continuo a escrever e não ouço as vozes na calçada. Peço quieto para que não me atrapalhem. Quais pequenos compartimentos esperam por um deserto. Pode-se retirar ao sentar. Coloque o mesmo tiro para vibrar. Pressione até que saia todo ruído e desmaie. Espere até que nada mais exista. Vamos morrer com cuidado, meu amorzinho? As palavras ainda são promessa. o domínio retorcido de todo um universo. só não apodrecemos porque já fomos cremados. eu adorei quando ela trouxe meu osso para cozinhar e substituiu pequenos corpos, insetos eletrizados, torcidos de manhã. Traz a jóia persa e deposita em minha boca bem aberta, um pequeno rivotril amassado. Há uma ostra, que segue cada caminho sem roer.

terça-feira, 27 de junho de 2017

Apocalipse de manhã



Cai o meteoro em um exato momento. Atinge o sino pela manhã. Todos caem ao mesmo tempo do universo, reduzem a ostra até um patamar sensível, enterram o mesmo peixe seis vezes, roem a cutícula das aves, mostram o rosto em formato azul. Apagam aqueles que cintilam, continuam sem galhos. Precisam continuar sem galhos e ruins. Cozinham dentes com papoulas, esperam até um ouvido absurdo acabar. Roubam o rosto das horas, transpõem para o tecido interno a poeira das grades, respiram o ar escuro que levanta das moitas em chamas, vivem até que um vento penetre ruim e sem vida, precisam de um ouvido que cuide. Hoje o dia é escuro e não há postes. Olhe para as plantas e espere até reviver. Mas ele cai tão sonoro! cai tão sonoro e depois abafa. Junte as peças e varra por dentro até que ali nada mais se veja. E feche também as janelas – é claro, o ruído não nos deixa adormecer. As pessoas aguardam o meteoro com uma alegria sonora. Torcem os cadarços e não penduram as roupas que já estão secas. Obviamente, pois apenas aguardam porque sem hora marcada pode vir uma destruição. Uma mariposa fraquinha e ressecada pousa na fresta. Torce os olhos de sono/caminha contra o vento. Continua sem galhos. Precisa continuar sem galhos e ruim. Um homem também recebe o impacto mesmo sem a ossatura frágil de uma mariposa. Ele rola os olhos antes mesmo de ver a urtiga espirrar (com o sol entrando em ondas trêmulas primeiro na pele e depois nos nós do crânio e abaixo do queixo e nariz). O ruído ali pode ou não ter asas ou nervos escorridos pelos membros atingidos. Depois eles retornam de ossos traumáticos, acalmam doces o piso quieto da memória. Pisam até que não se veja mais o céu. Percorrem o ondulado sonhando, respirando um ar úmido das cobras quietas. uma pomba nervosa devora um osso em minutos. Crescem de veias azuladas, permanecem fiéis à cópia crescida das flores, permanecem dentro das raízes. Crescem de corredores mais largos. Já a mente não pode desafinar com esse apito. Pede ao apito que se aquiete? Onde estão os postes? Olha a carne espessa e assombra. Continua na clareira, olha o abismo com migalhas. Acerta o alvo, traz a couve para a cesta e semeia. Agora tudo é uma nova luta pela sobrevivência (cuidamos para não sermos enjaulados em um novo universo). Aqui nada mais carece de explicação. Estamos quietos e respiramos o abismo. A dor rompe cada membro comprimido. Outra bomba caiu precisamente sobre o corpo seco da mariposa. Queimamos juntos e as cinzas são amontoadas sobre o carpete e mais adiante. A mariposa nos olha e não sabemos como afrouxar o tronco sisudo da porta ou como romper com cada miolo de árvore quieta. e não é possível comunicar. Como então fugimos daqui? Olhamos o comprimento de escada diante da parede, a janela falsa aponta para uma clareira quase escura como o céu, mas quase não é possível sair daqui. E se rompermos o caule das plantas? Sem hesitar, o céu cobre as horas aquecidas pelo cometa, atravessamos o mural onde fervilham os olhos de todas as espécies um a um. Pode-se virar uma palavra de um lado pro outro e não há nada ali, nada pode ser deslocado se há um completo vácuo de sentido. Rompemos até chegar a uma pesada caverna. A mariposa já não tem pernas para andar, e muito menos nós. Depois que o cometa desceu, as malhas ressecadas da mariposa foram reduzidas a uma cinza espessa (granulosa e incisiva), os pés das pirâmides foram dobrados para dentro de modo que as pessoas pudessem passar sem enxergar por baixo do túnel o tempo passando, que era ruim e no entanto não poderia ser descartado em lixo comum (pois tóxico). Até o céu não podemos crescer. sentimos apenas fervilhar o poste até o mural. Ainda que a atmosfera tenha virado forno, nossos ossos estão tão frescos que poderiam ser apunhalados um a um. A fumaça esconde a origem. Agora a mariposa repousa quieta sobre uma batata no jardim. Cada pessoa que passa está tão viva e tão morta que nada na atmosfera consegue ajudar em uma recuperação sadia. Devemos aceitar todas as perdas, sem exceção? Naquela floresta enorme e sem caules (pois foram todos retirados por conta da metamorfose das ogivas), esperamos que eles tragam o presente satânico, cozinhamos os dentes com papoulas e fechamos os olhos para esperar – uma lágrima escura evapora antes mesmo de escorrer. A dor é um cálculo permanente. As palavras não traduzem dor alguma, não compõem uma sentença coerente, mas apenas se amontoam como broches, como conchas, como partes de carros quebrados, como fósseis de crianças. Sem contar a eles nós podemos amassar nossos próprios rins e misturá-los ao purê? Dois pêndulos caem desorientados, os olhos não saem de suas órbitas e as ondas de vento apontam um caminho. e não há um caminho, apenas as ondas de vento simulam um caminho. Um peixe pula da base e se suicida. Por que não pudemos chegar junto dela? atravessar o cesto com cascas? oferecer a mão suja de café? O olho azul registra peças daquele luar? Uma coisa infeliz rosna em meu colo/a morte é a coisa mais engraçada que já aconteceu. Todas as esperanças cínicas são renovadas após a destruição. um braço sem corpo acena alegre no meio dos escombros, uma perna sem tronco chuta um vaso de samambaia partido e se corta. e poças de sangue seco, e carcaças de crianças sonolentas. o que fazer com tudo isso depois de sonhar? o que fazer com tudo isso depois que a quimera se dissipa e o calor todo despenca junto com todas as palavras ao mesmo tempo? Um feto amortecido olha e sussurra um provérbio que ninguém entende. rompe o luar mais fraco e não permanece no mesmo posto (ninguém permanece). Torce isso, torce como um galho. não reduz a nova fumaça, não é isso. torce no olho. coloca uma fileira sem ondulações. Olhamos o palco vazio: mas então ninguém vai salvar ninguém? É isso mesmo? sim. agradavelmente a ostra responde do fundo menos sonoro do oceano que sim, é isso mesmo, uma gralha ou outra responde, um tufo de terra na parede resmunga que sim, a cobertura de mofo no lustre, os blocos de vento, os pólipos e as treliças. a nuvem de poeira é pouco a pouco dissipada para o oceano morto. um universo de cascas de besouro incendiadas, toda lágrima secou na atmosfera infernal e também os olhos esturricaram e agora lembram ameixas secas compradas a granel. deus olha tudo e acha bom.


domingo, 19 de março de 2017

depois da realidade



E as vespas perdidas entre os grãos, e cada coisa acontecia atrás da porta. Todo dia era um ritual para encaixar-se como pessoa, fazer parte da natureza circundante, pertencer ao osso vivo e vibrante de cada hora. Muitas coisas poderiam ser precisamente a ostra que nosso mundo não tinha. Há inúmeras coisas como possibilidades dentro da caixa que paulatinamente trava ao ser aberta. A linguagem precisa ser retirada de dentro do osso. É preciso, ainda que o vento tenha desmanchado o telhado, chutado as calhas e estremecido a estrutura do galpão. por deus que podemos. de algum modo estar dentro da ostra, e também podemos participar. Desde que estivemos impunes por uma terra seca, na qual cada coisa acontecia atrás da porta até morrer. As plantas, por exemplo, cresciam atrás da porta até estiolar. Apenas o corpo presente era um material contra a violência. Estalando cada coisa pela ponta até o ralo. Assim o vapor seco crescia; o rosto amolecia frágil, sem sono. Sem esteiras na porta, sem a decrepitude que engatinhava. A planta de isopor crescia sobre uma folha de papel até despencar. O osso aparecia suave e sem medo. sem receios. O dia amamentava as urtigas. Ao final da tarde e com avanços múltiplos e imperceptíveis que formavam um bloco único que era a própria decadência silenciosa. Os pequenos progressos apareciam como marcas na pele que não podiam ser retiradas com a pinça. A cólica subia até o último osso da garganta, escorria das flores e encharcava a terra arenosa. Pela primeira vez estruturado como edifício, visto dos múltiplos ângulos por um olho distante. Enquanto isso “eu me divirto muito comigo mesmo e até saio no pátio”. Ali, murado e repentino, uma espécie de segredo aderia ao concreto e aos carros congelados. Nada podia estragar o momento em que as bochechas aqueciam com o vento frio senão talvez a pergunta interrompida que voltava raspando. Depois mais tarde visitava no interior do sono com patas e unhas incompreensíveis. E dormir não quebra tudo? Ou apenas rearranja o mosaico quebrado da realidade? O sono comprime a realidade rachada e o sonho pulsa as fibras desreguladas da memória. A linguagem precisa ser arrancada com os nervos, veias, ranhuras e calos inespecíficos. Abre-se a janela no escuro mais fundo da madrugada e recolhe-se o sinal fresco e salgado. Estamos absolutamente encantados com a coisa que o vento produz. Mesmo um tremor de frio é só mais uma quinquilharia no cômodo de um sonho. Somente quando aberto de madrugada, ele rompe o frio fino que esvazia. Talvez estejamos dentro de uma hora muito lamacenta. talvez o fundo do ralo seja só um espelho que resiste. talvez o que esteja depositado em um prato raso rachado seja a opção mais simplória de um projeto que não deu certo. Assim, cada parte resiste sem conseguir abrir ou brotar. Talvez nem mesmo o pequeno urso seja a ostra? A roda gira novamente em sentido contrário, mas dessa vez impulsionada apenas pelos olhos parados na pedra. Cada grão de arroz da tigela é retirado em câmera lenta. uma vespa entre os grãos sente um esmorecimento. “não vai dormir não, morceguinho?”. Talvez a tampa do fundo lamacento queira saltar de vez. A dor nos ossos agora é macia e não corrói. O corpo morto também é material contra violência? Individuado, marcado em cada poro, sem esquecimentos. protegidos do desamparo. Seria assim depois de milênios sem cor, seria assim também sem identificar a cor dos milênios gotejando em silêncio por um cano da tubulação. Camas que nos desapontam e adoecem com o peso. Os anos passam atravessando e rasgando uns aos outros. Os ossos pulverizados são depositados na bandeja de plástico descartável. Olhos claros ou escuros observarão a urna até que eles mesmos sejam pulverizados sem constrangimentos. Tão somente os olhos amarelos – sempre vivos de sono e ternura – resistem depois da realidade. entram em uma espécie de casa, levantam o sol pela manhã, deitam e dormem sobre as plantas no vaso.    



terça-feira, 6 de dezembro de 2016

resíduo mnemônico




Eu tenho pena que exista uma pequena ostra sentada. E que as coisas estejam dissolvidas em um vácuo qualquer. E que os azuis estejam abertos, e que não exista mais nada. é azul. uma pequena solidão alveolada, estufada, macia e velha. São pequenas ostrinhas que atravessam o julgamento prematuro. Ali dói cada pedaço mínimo, cada fatia enrolada ou partida, cada coisa amanteigada como uma flor, etc. E como as coisas se movem. Elas poderiam ir e poderiam ser, sem esperar, elas poderiam depositar o próprio crânio na bandeja. E uma constelação até poderia ser a ostra maior. E as últimas horas amenizariam todas as outras, a corda se formaria e fecharia no fim. E ao menos se não houvesse mais nada, e ninguém mais tremulasse nas condições atmosféricas extremas, então.


sexta-feira, 16 de setembro de 2016

ostracismo nº1



É muito solitário. A coleta dos pequenos animaizinhos que agonizam, as memórias abstratas que não coincidem com nada, a travessia percorrida sem cessar. Que bom que algumas ostras são trazidas para dentro do ombro, e as outras se desmancham na maré. O que traz para dentro da ostra a possibilidade de um pequeno desastre? A ostra no colo está devidamente enxugada, é claro? Guardamos pacientemente todas elas nas caixinhas, que serão veladas pelos fantasmas que moram no quintal. Olhe para os fantasmas, e cada rosto está em branco. Quando o eco vaza e desestabiliza a atmosfera nauseante, então esse acontecimento é absolutamente real. Mas quando uma ostra rosna dentro de alguma das pequenas caixinhas, é só resquício de um sonho ruim. Não há razão para lamentar ou sofrer. São só ostras trêmulas dentro de caixinhas, como nós mesmos no interior de uma morte. Por qual poro podemos sair? Digam-nos, apontem-nos a saída. E desde que haja uma saída, eu pago o que for preciso, por isso digam a ela. É preciso que se dê o recado. Se formos cuidadosos, então. Eventualmente, uma raiz branca brota com violência. Aqui a cobertura tem a textura de uma planta porosa. Sem sequer respirar, as células tremem e quase implodem. A respiração é agradável, incômoda e finita. Cada ostra tem um pequeno talo que não precisa ser retirado. Nenhuma memória coincide com nada. Basta que se puxe o talo da ostra pelo avesso, pois invertidas elas ocupam completamente o espaço sem que se precise adicionar coisas ou acontecimentos ou pessoas como acompanhamento, é uma tranquilidade. 

domingo, 10 de julho de 2016

O bolo para a mariposa




Ele, quando olha em silêncio, não diz. A respiração é só um detalhe. O rosto se forma em massa mole pronta para ir ao forno. Olhar fixo e absorto, as favas de baunilha presas ao cabelo. Os dedos cobertos com coisas. As bromélias estufadas, os resíduos espumados, os dias exaustivos, os metais pesados, os espessantes e edulcorantes que são a malha que recobre o tecido longo e desbotado da ostra oval. Tudo é o mise en place do bolo que deverá ser entregue à mariposa em troca da verdade que já possuímos e não podemos desativar. Um cardume se desloca. Pensa: no mundo exato as pessoas poderiam fugir sem se desesperar. O ar escuro desorganiza os processos racionais. O cardume está precisamente depositado dentro da bandeja, junto aos ingredientes: uma planta-ovo retirada com cuidado de seu milímetro quadrado no campo de lavoura, os besouros azuis, a cobertura verde das folhas maduras, a infusão dos ossos que espera para amornar, o fundo de ostra que preparamos há oito meses e congelamos para que durasse até essa ocasião. Estamos diante de uma tarefa árdua, quase como um preparo minucioso. O sal precisa ser pacientemente adicionado. O peito inteiro, quando dói, o diafragma abre e um fragmento de mar frita as urtigas sem sal algum. Ainda que o sal escorra da montanha? Não há sal algum que escorra incólume. Um inseto preso com um prego, as plaquetas que implodem simplesmente, sem sequer perguntar. Juntamos as pedras no lugar dos olhos e não olhamos para uma ponte que ainda se estende, quando uma coisa excelente como esse plano minucioso é colocada na pedra e batida até espasmar. Rosas planas sopram das pontas, nada acontece sem que tenha sido dada uma ordem para acontecer. Por isso esse escambo doce com a mariposa deve ser documentado. A hora range como uma porta, mas uma ou duas horas mais tarde não deve fazer diferença. Olhamos as instruções claras no livro de receitas: é preciso de dois a quatro infernos para criar uma massa úmida de um bolo. A quantidade obtida é suficiente. O único que poderia carregar uma flor silenciou por cinco dias. Fizemos a jornada triunfal e depois mais cruzamos um pequeno oceano até chegar ali onde os romanescos eram depositados nos pratos que colocávamos na bandeja. E assim aconteceu. Até que voltamos dentro de um verão escaldante, cheios de milhões de coisas para contar. Contamos para a cotovia, para o bem-te-vi e para o pardal. Por medo do colapso, a atmosfera foi reduzida a um mínimo insignificante, até colapsar. Ao inseto que voava foi ordenado que se sentasse e comesse quieto. Cada nuvem era um dia em si mesmo que não acontecia. Agora batemos o creme de claras e, se tudo sair como planejado, então o dia não será mais o que é, e será possível descansar. Ainda bem que o dia aqui não está mais existindo, e nem depois. Olha-se o jornal e está escrito: “Crânios de criaturas desconhecidas são encontrados em maletas”. Mais nada. Isso no primeiro dia, e no segundo dia já não aconteceu algo que alterasse alguma coisa. Quando o primeiro se foi, as flores ainda estavam de molho por pouco tempo, a água ainda era pálida e insípida. Quando o segundo se foi, a casa escorrida em cimento bruto. Quando o terceiro se foi – então. Agora as pessoas podem salvar umas às outras. A verdade precisa ser desativada. O bolo deve assar uniformemente enquanto o fundo de ostra reduz na panela. Iniciamos um procedimento estritamente pragmático de um amontoado de leituras que se somam e produzem um incômodo diário e uma mobilização quase sistemática. E então, no passo seguinte, todo planejamento racional se choca com sua própria impossibilidade. E enquanto planejamos a matéria porosa dos próprios dias, a mariposa enfim chega e aguarda calmamente a entrega da encomenda que estufa no forno até secar. As palavras se organizam urgentes diante da coisa, que não acende nem apaga. Depois da ponte não há nada, as pontes adiante uma após outra marcam o intervalo da rodovia, o instante em que os carros ultrapassam uma barreira que está dada intuitivamente. A mariposa olha fixamente e não treme. Ela pede uma vasilha de flores para guardar os pés e ordena que se feche as janelas para estancar o vento. Isso até poderia chegar a ser uma pista, pois quando a mariposa olha cansada, ela revela as cifras daquele que nos desativou. E quando a mariposa carrega um ímã, ela própria se desmagnetiza. Muitos deles já estão compreendendo o esquema, eles não aprovam qualquer um. E ela também. As horas caem de uma vez só e se espatifam pelo chão. Olhamos envergonhados sem nem conseguir olhar. Os desenhos guardados na estante dentro de uma memória morna. O fundo de ostra está pronto para cobrir o bolo. O vento paralisa na face externa do vidro da janela, as bromélias não conseguem entrar. Dormimos assustados com a profundidade que o próprio sono alcança, até que o sono é perturbado pela ostra que rosna enquanto dorme, e acordamos. Cortamos os cachos de luz nos cabelos, retiramos a tampa da caixa craniana. O que houve? Tudo aconteceu como deveria acontecer, e a proteção permitiu que, depois de uma cobertura imensa de palavras sobrepostas, as coisas pudessem despencar dentro da caixa que construímos para adentrar e viver. O sono chega novamente, e dessa vez dormimos em virtude dos espasmos, e não a despeito deles. O dia atinge seu máximo – que na verdade é também seu mínimo. A mariposa espera sentada, cansada de esperar. Uma solidão pequena se esconde nos alvéolos de uma levedura na parede. O mofo estufa e os musgos espalham-se sobre a mesa e inclusive no vidro da janela. O dia está tão alto que chega a estar baixo. Entreguem a ela de uma vez! A mariposa espera na portaria: pálida, calma, altiva, grande como um pardal empalhado. O vento para pela segunda vez. O dia está guardado em local inespecífico. Ela se transforma, pouco a pouco, em uma árvore (aviso: se ela for, iremos com ela). Olhe para o meteoro que vem nos buscar (a mariposa já quer ir embora, mas não deixamos). Retiramos a cobertura de musgos com um boleador: forma-se uma bola de sorvete azulada que cobre as extremidades do bolo todo áspero, salgado, frio, insosso, oleoso e azul (a mariposa devolverá sem hesitar!). Nem a melhor cobertura de manteiga rançosa e rosas poderia remediar. É preciso um bolo melhor. Olha-se por todo canto. O que há aqui além de espinhas de peixes utilizados no cozimento da massa? Sim, e as batatas antigas que murcham e perdem umidade para o ar que também perde umidade para a atmosfera que pulveriza a umidade e permanece intacta, assim como deve ser e assim por diante. Melhor seria um bolo de flores para uma mariposa cansada, isso com certeza sim. Não há mais volta, mantemos a postura e não transparecemos o abismo. Estufamos o diafragma para fingir que ainda estamos respirando – todo choque aqui pode ser fatal. O bolo é entregue à mariposa morta de tanto esperar. Quieta, ela olha e sequer abre um olho ao dizer. E sequer espera por um aro que encaixe para poder dizer (nenhum aro encaixa, jamais). A mariposa abre a boca escura e sussurra em dialeto morto. Cai um olho da ostra e escorre. O dia treme em todas as extremidades. Por deus do céu, que conselho medíocre o da mariposa. Quando olhamos inconsolados e repetimos a pergunta, ela nos entrega a verdade duplicada. Após o bolo ser entregue, o caminho sinuoso que, passando pelas peras, o rochedo. Até o fim da caverna para sepultar a ossada do cardume utilizado. Qual o tamanho do vazio? Antes de ir embora a mariposa nos ajuda, segurando uma fita métrica rasgada, a medir o tamanho do vazio. Ela tem pressa, mas é solícita. Depois disso, macia e enigmática, ela guarda o bolo insosso. A conversa final com a mariposa também é insossa. Desdobra-se o corpo da mariposa em pequenas e suaves folhas opacas que vão cobrir os blocos de nosso corpo morto. Agradecemos a todos os fantasmas por esperar – escorre uma lágrima de um pequeno fantasma filhote. O vazio é totalidade sem tamanho, essa é a obviedade que toda palavra carrega consigo sem saber. O dia continua exaustivo sem cessar. 

domingo, 8 de novembro de 2015

Sob um mar

                                                                           
          Sopraste com o teu vento, e o mar 
os cobriu; afundaram-se como 
chumbo em volumosas águas.
Êxodo 15:10



Em primeiro lugar, trêmulos estão os lustres sob as águas geladas, estorricados e quebradiços apesar da umidade excessiva. Em segundo lugar, a grande ostra ralada próxima ao poste marinho. Em terceiro lugar, a noite insossa e disforme sobre o mar. Em quarto lugar, a falta de preenchimento dentro dos ossos. Iniciamos enfim.

Dentro de um mar gradativamente mais ácido pisamos na saliência de um pequeno rombo dentro da profundidade terrificante. Perdidos no interior das algas. Sem referências, sem perspectivas e sem sonolências. Rompendo películas imperceptíveis/sugando a seiva de árvores subaquáticas. Imploramos para que outras ostras nos olhem e realizem o procedimento adequado, que é o mínimo de expressão dentro do mar. Dentro de uma escuridão atemporal e vazia – a porosidade do mar é causada pelo próprio sal que coagula na superfície (perdoem-nos o excesso de cientificidade). O sal dissolve nossos calcanhares, o rosto pregado num ponto excessivo, os rins que boiam como esponjas quase gelatinosas. Naquela escuridão infinita de um mar acoplado na base da noite, continuamos a penosa coleção de ossos enquanto os alvéolos espasmam com a falta de oxigenação apropriada. As estátuas fincadas no solo marinho olham com ternura para o miolo da escuridão. Por vezes uma coreografia de microrganismos/raramente um feixe de luminosidade faz imaginar que, de algum lugar do solo, um tufo de areia pode bruscamente saltar e descobrir coisas vivas e escuras. Enrolam-se precisas nos calcanhares as algas, pois desconhecem suas próprias razões. Elas pressentem o rombo suave junto ao príncipe de uma velha imensidão (quase) concisa. E não há nada a ser feito a respeito. Primeiramente olhamos como quem não reconhece nada além de uma neblina formada pelo deslocamento dos cardumes. As gotículas que formam uma nuvem dentro das águas e a dificuldade de enxergar sem uma ostra sequer para encaixar nos olhos. Perguntamos a alguém que tenha de sobra uma ostra em cada olho se seria possível emprestar-nos uma para grudarmos no nosso. Dentro do escuro. As coisas passam a compor um silêncio em que os pequenos cristais tremelicosos do lustre emudecem e turvam nossa travessia para baixo. Na cavidade imprecisa nada consegue ser confortável. Não há absolutamente ninguém aqui agora, nem nós mesmos. Há coisas que são pequenas ratoeiras, perdidas no espaço. Se não fosse o mar, dunas de poeira cobririam as palavras não vistas e os olhos. Alguém um dia vai ouvir o grito das ostras? Sempre tão empoeiradas e vestidas com a mesma ossatura, ninguém suspeita de nada. Pensam alguns que se trata de umidade e poeira calcificada, e nada mais. Mas assim como uma nuvem microscópica não é só uma nuvem, um fundo de ostra também não é só um fundo. Em todo caso, melhor romper enquanto sentamos na varanda e sentimos o peso dos raios descendo até a copa das árvores. No fundo mais inóspito do mar é que a regressão encontra uma flor e aparecemos com as costas arqueadas e as pupilas dilatadas recordando o rosto vermelho e olhos úmidos sem comoção. Diante do monstro sagrado que consumiu o tempo: rosto vermelho e sangue que escorre de lábios murchos, sem nenhuma razão. Até quando as coisas estarão fora de nós para observarmos? Um sentimento feito de isopor, incompreensível e levemente dolorido, manchado de líquidos antigos. Esperamos a guerra no asfalto sem rir e sem chorar. Sem um padrão de medida definido, como medir as coisas? Como comparar a efetividade com a ideia? Como avaliar a palidez das horas, como julgar a falta de fundamento dentro do mar? Pois se dentro da fossa submarina a distância de uma ponta a outra não pode ser calculada, já que sequer existe uma ponta ou outra. O índice da profundidade é só ela mesma. Ali dentro, o mar perde uma localização concreta: quantos palmos existem para esquerda? para cima? para baixo? para trás? não se sabe. O ponto não é localizável, e quem ali se encontra sabe que nem o fundo nem a superfície são localizáveis. Pode-se tatear sem pressa através de um corredor imaginário, e ainda assim não se chega ao fundo, nem à superfície, nem a um canto encaixado a uma caverna ou a uma fossa abissal. Para um animal marinho gigantesco, pode-se dizer que é uma liberdade poder movimentar-se sem reservas e sem mover um fio áspero sequer ligado a uma ostra. Para nós, a ausência de padrão de medida paralisa o movimento. Se ao menos chegássemos ao fundo, poderíamos ter a certeza do caminho a ser tomado então: o de volta. Não há sustentação, porém. E nem uma sustentação invertida: um teto que nos impeça de subir ou uma parede na qual possamos bater o nariz. A liberdade coincide com uma falsa liberdade delirante. Ela é apenas a distorção esfumaçada de uma vida em que cada osso estaria encaixado no lugar em que deveria estar. Mas sob um mar o rosto chega a aparecer e então o colapso conduz ao esquecimento, e é preciso esquecer. Viver é sempre artificial/estar grudado ao canto morno da parede. Sentir o ar correr sem mistérios e não entender como pode um ar correr sem mistérios, e não entender como não é possível entender que um ar corra sem mistérios, e então pegar esse bloco inteiro e aplicar a ele seu próprio raciocínio: não se pode entender que. Após a operação completa, o resultado é: "não se pode entender que". E se rompemos a operação e descartamos todo pensamento, o resultado é: "não se pode entender que". De qualquer ponto que se parta, o resultado é sempre o mesmo. Rimos tanto que nossos dentes caem e os perdemos sob um mar. Assim, com tinta de lula escrevemos os caracteres incompreensíveis que compõem o padrão de medida. Mas pedimos em silêncio para que nos ajudem. Ajudem-nos a untar os lustres com óleo oxidado, ajudem-nos a filtrar a água macia onde as ostras morreram de inanição! Temos de fazer algo para acalmar os nervos e nutrir as pequenas crateras que tremulam: embalar ostras em alto mar, descascar nozes até o fim dos tempos, etc. Para os espelhos da noite, o corpo envelhece mais rápido e por vezes até some. Uma nova escolha pode determinar que nos próximos tempos uma flor brote suave de cada poro. Uma alegria funda pode também brotar de cada poro. A oleosidade do lustre quase se deixa escapar. Desconstruímos o rosto mole: as bochechas fartas deixamos amortecendo no balde com gelo. Os olhos são cuidadosamente espetados em arames e funcionam como brincos tímidos. O olhar difuso dos olhos teve de ser descartado para não deixar o prato intragável. A testa trêmula não tem função. As pálpebras se desfazem suavemente e perfumam as horas que continuam a passar para os outros. Com o conhecimento técnico adequado as orelhas estão marinando no caldo de alecrim e papoulas. O peito é fraco e seco, precisa de catorze dias para absorver o tempero. Nada pode sair dos eixos precisos. Olhem e se desesperem: como poderíamos interferir? Viajando centenas de milhares de quilômetros apenas para entregar-lhes uma caixa de ostras carameladas? não é possível. É aqui que não devemos ficar. Mas eles ririam, eles ririam tanto! Seríamos suaves... e inclusive a chuva, que gostaria de cair agora, deixaria para cair mais tarde. Soltaríamos rojões pelo céu de ventos calmos. Enquanto eles seguram nossa mão, lembramos daquela tarde lacônica: distraídos partíamos o crânio em partes menores para facilitar o derretimento no purê. O cérebro era vivo e brilhante, ainda que morto. Distribuíamos as fatias pelos pratos conforme a necessidade e o merecimento. Os lábios rachados foram para o monstro que soube parti-los (sabíamos que ele ficaria muito feliz em emoldurá-los e pendurá-los na melhor parede que pudesse encontrar). Fomos até a horta e trouxemos um punhado de flores azuis que maceramos junto com o sangue antigo/escorreu um óleo rançoso que tivemos de despejar nas hortênsias que não existem. Hoje é outro dia e também não existe. Aliás, o dia de hoje já está bem mais envelhecido que um fóssil, e isso eles não puderam chegar a saber. Segue o jantar em fervura: duas folhas verdes pesadas cobrem o fundo do prato. E o acompanhamento suave: uma lata de crisântemos em conserva? deus do céu... (os túneis dentro do silêncio se desmancham pouco a pouco. Um por um, os resquícios de conforto se dissolvem, uma lua que reflete no mar se expande noite adentro). Quantos dias esperamos por eles? dias? horas? anos? O silêncio é índice da infinitude. Mas um dia teremos de morrer. Não entendemos quem são eles. E nem a razão pela qual eles vêm nos buscar antes que a madrugada esteja adequadamente consolidada. Suas mãos tão geladas paradoxalmente só conseguem amornar as nossas. Colocamos o ponto final no fim de uma janela. De cujos vincos caem grãos de poeira pulverizados que colam no rosto úmido e são pequenos absurdos – como tantos outros. Não há eixos, nunca houve. Cada ostra dentro de cada olho eu amo tanto. Alegremente eles vão tomar tudo o que é nosso no interior da casa, tudo o que velho e inútil, porém nosso. Eles vão borbulhar no mais escuro da noite, vão tomar para eles os olhos avermelhados que outrora piscavam como um grilo vivo.

Em primeiro lugar, trêmulos estão os lustres sob as águas geladas, estorricados e quebradiços apesar da umidade excessiva. Em segundo lugar, a grande ostra ralada próxima ao poste marinho. Em terceiro lugar, a noite insossa e disforme sobre o mar. Em quarto lugar, a falta de preenchimento dentro de um osso.

domingo, 13 de outubro de 2013

Sobrevivência no escuro

 

Os dias nos derretem pouco a pouco. Iniciamos nosso ritual sabático que nos conduzirá a uma infelicidade mais suave e indolor que a habitual: espalhamos pedras pelo chão bruto, coletamos meteoritos numa peneira, vestimos os casacos nos sapos, arrancamos nosso pâncreas com um pegador de macarrão, fritamos os pâncreas das crianças e, durante todo o processo, nos esquecemos de que deveríamos ser felizes. Choramos pelos dias e horas que se desmancham e pelos sonhos atoleimados no quintal. É inevitável uma dose de comoção. Depois cozinhamos crânios humanos, flores incolores, pequenos repolhos, crianças antigas, sonhos enlatados, olhos e beiços azuis. Fazemos tudo isso pela nossa sobrevivência. Há pessoas que encontram a felicidade dentro da tristeza circundante. Nós simplesmente não fazemos ideia. Somos iguais a eles: não nos importamos em ser infelizes, por toda a vida. Repetimos para nós mesmos inúmeras vezes: a tristeza não importa, o que importa é o mundo: os carros atravessam sem pensar, as pessoas vivem e envelhecem, as árvores despencam com os temporais. Mais nada. Se há ou não relâmpagos, se as casas caem ou não dos barrancos, bem, então podemos começar a viver? Não. Não é possível realizar esta inferência. Tudo o que temos hoje para viver são as pedras, os meteoritos, os olhos azuis, deus e os demônios.

O que pesa para nós, em primeiro lugar, é a dificuldade das horas, das coisas, das pessoas, etc. Olho para as rachaduras da parede e sei que elas são difíceis. As pessoas são difíceis quando existem e caminham. Estabelecer ou aprofundar contato com elas também é difícil. A dificuldade ao longo de milênios, juntamente com os fracassos e as perdas, cristaliza-se em pedras. Os demônios nos oferecem resistência e consolo diante das pedras. As pedras são nossas escolhas mal feitas. Mesmo quando muito antigas, elas incidem sobre nós por toda a vida. As pedras depositadas no jardim, ao contrário do que pensam as pessoas, não são tudo o que há, mas apenas uma espécie. Pois há também os meteoros e os meteoritos, que são pedras cósmicas. E há também as pedras radioativas e cancerosas sobre nossos ombros. E também as pedras vulcânicas esfuziantes. E também as pedras submarinas, salgadas e desbotadas. E há também pedras vulcânicas submarinas, que não existem, embora sejam possíveis. Por exemplo: quando há pedras sobre nosso peito, mal conseguimos respirar. Nos lembramos daquele lugar, daquele lugar lá no alto, mais uma vez, mais uma vez. E não adianta pra nada. Quando estamos inquietos ou desesperados, presos sob uma rocha, os demônios nos ligam de madrugada, e suas vozes etéreas adentram com facilidade nossa cabeça oca. Eles nos dizem com suavidade: “fuja, fuja para sempre. Esqueça, esqueça para sempre. Corra apenas atrás do que você acredita”. Então respondemos em prantos que não acreditamos em nada, ao que eles replicam: “Corra apenas atrás do que você não acredita”. Decidimos não correr e aceitamos, relutantes e sonolentos. Então dormimos e, ao descermos ao inferno, respiramos melhor. Morremos por algumas horas, e a casa, que normalmente é um marasmo, torna-se quase tolerável. É quando recebemos a visita dos meteoritos, que são a esperança morta e cintilante no céu. Dentro do sonho as coisas explodem com maior intensidade. Tornamo-nos uma só pessoa e enfrentamos a realidade de modo certeiro e impreciso. Essa única pessoa desabafa sem pudores: por que não sei reagir aos cometas? Por que não sei caber nas situações dos outros? Por que ainda penso que preciso de um estopim? Por que os anos passam e, no entanto, não saem de mim? Pois bem. Há várias respostas possíveis. Trabalhamos com várias possibilidades, e nenhuma delas é possível. Depois de tantos questionamentos, sonho por um instante com as coisas como elas deveriam ser e, quando acordo, despenco novamente para a realidade velha e lascada de muitos eus. Quando nos damos conta de que já não estamos mais dentro do sonho, lamentamos e imploramos para que nos deixem estar calmos e sonolentos, pois já estamos pagando pelo que fizemos. Estamos permanentemente em estado de desconforto profundo.

Não há comunicação possível. Ele nos deixou abruptamente, sem respostas. Ele nos olha e diz: fodam-se! E no fim das contas está certo! Por deus que ele está muito certo. Pergunto-lhe: onde você se meteu? De novo: onde você se meteu? De novo. E ele continua certo, para sempre. Certo dia bebemos um chá tão rosa, tão magenta, tão vermelho. Depois houve o dia em que o frio era intenso e as risadas nos faziam esquecer que havia o mundo. Tremíamos de felicidade e, contudo, não éramos felizes. Ainda bem que hoje os dias por lá estão altos e com sonoridades sofisticadas. Ao menos é o que se espera. Retorno o telefonema que não recebi e digo-lhe: por que o vinho e o livro? Não obtenho resposta. O livro nos diz que não há e nunca houve esperança. Mas já sabemos disso há tempos. Pergunto-lhe em seguida: o que se pode dizer sobre estar frio e já ser outubro? Ele diz: foda-se. Sorrio e volto aos meus afazeres. Preciso terminar de decepar a cabeça das galinhas e das crianças. Faço tudo com tanta doçura que até parece que estou dormindo. É um dos raros consolos que tenho, pois os dias seguem mais esqueléticos que meus ossos engordurados. Os dias são esqueléticos e somos incapazes de viver em sociedade. Indignamo-nos com deus e o mundo, e estamos atravessados de uma ponta a outra pelo silêncio. Como podem os tumores, ao crescerem, serem um “outro” e, ao mesmo tempo, nós mesmos crescendo dentro de nós e cheio de nós? Revoltei-me com deus e o mundo quando vi que seus tumores espalhavam-se por dentro e por fora, causando-lhe dor insuportável e obrigando-lhe a enfrentar a frieza de uma família podre como nem mesmo um cadáver consegue ser podre. E é completamente impossível que deus possa existir. Mas isso todos nós em sã consciência já sabemos. Não faz sentido existir deus nem nós. Deus, você que é uma estátua morta e lascada, por favor, sente-se conosco. Conte-nos sobre todo o sofrimento humano desde o início da história da humanidade, todo o sofrimento que você assiste com olhar sádico e sorriso malicioso, sem fazer nada. Deus, o altíssimo deus, spangle maker, esqueceu-se de nós. Esquecemo-nos dele antes. Deus é um torturador, ele vive à base de sangue coagulado e grão de bico. Deus é uma farsa tanto quanto nós. Por favor, venha até nós, abençoe nossas barrigas oleosas, abençoe nossa ignorância infinita, por favor, venha até nós em forma de neblina. Tenha piedade do deserto glacial infinito dentro de nós. Por favor, venha e sente-se ao nosso lado. Conte-nos todas as mentiras de que precisamos para sobreviver e, quando finalmente pudermos viver, conte-nos as verdades. Venha até nós transfigurado numa salvação alegre, num tronco de árvore alegre, numa criança decepada alegre, num passado vertiginoso alegre, num reencontro com defuntos alegre. E perdoe nossa falta de bom senso, de sanidade e de coerência para nos expressar.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Quatro pequenos fluxos amorfos


I
 
Os dias amassados cintilavam, as noites passavam rápidas sem ter acontecido nada, e não havia esperança possível. Crianças despencavam dos abismos junto com os carros, os lustres trêmulos, os crânios e os defuntos amarelecidos. O tempo passa e despencamos de nós mesmos de tão velhos. Nas cavernas o conforto é infinito: somos abraçados por pequenas cobras brilhantes que rastejam por todo canto e dormem na pedra conosco. A linguagem cria uma nova escuridão para nos contorcermos. Eu amo você, vou ficar ao seu lado, vou te abraçar com seus próprios braços, e você terá amor infinito. O que é que não vai bem, além de tudo? O que há com você que não pode ser estilhaçado sem muitos prejuízos? Deixemos de lado as perguntas. Venha cá e deite-se comigo, vamos olhar as estrelas inexistentes no teto escuro. As palavras não têm absolutamente nenhuma serventia. Mas venha cá e me abrace, se abrace a si mesmo. Sinta o ar se tornando menos tóxico, as crianças rolando pelas pedras morro abaixo. Você terá amor infinito. Não há respostas nem perguntas.
 
II
 
As cobras brilhantes nos amam diretamente dentro de nossos olhos. Não suportamos tanto amor, somos insuportáveis de tão amargos. Larvas e vermes dentro de nós aguardam ansiosamente pelo grande banquete final, e nós também. Pelo dia em que nos tornaremos verdes, nossos olhos explodirão das órbitas, e os lábios em decomposição revelarão pela primeira vez um sorriso consistente. O tédio futuro, como o presente, será infinito. Por ora nos contentamos em desaparecer dentro das cobertas. No espelho vemos um contorno sem recheio, e o tempo desintegra as coisas que poderiam estar sendo. Venha e sente-se ao meu lado um pouco. Vamos pensar sobre o mundo em que gostaríamos de estar existindo. Onde os crustáceos fossem livres para caminhar pelas ruas. Onde pudéssemos, na plenitude de nosso desapego, comer almeirão todo dia. E onde os dias não fossem tão tétricos, não tanto quanto nossos sorrisos tão tétricos. E as memórias fossem leves como um pequeno embrião abortado. Com certeza que a vida seria tão alegre que as palavras escorreriam de todos os nossos orifícios, encantaríamos as pessoas com os melhores discursos sobre os mais refinados assuntos, como ostras e bolor. Chegaríamos tão no topo da felicidade que isso seria a morte, e não adiantaria de nada. Mas não pensemos em mais nada por enquanto, venha e sente-se ao meu lado.
 
III
 
Fora do absurdo só resta a morte certa. Por isso vamos imaginar algo capaz de nos manter afastados da realidade. Olhe para o céu escuro e pense em explosões solares, em acidentes aéreos e em naves extraterrestres. Quando escrevemos, tapamos os buracos com uma massa provisória que logo no dia seguinte já descolou. Não tem importância, escreve-se novamente. Olhe para mim e não me veja. Se me viu, olhe novamente para mim e não me veja, repita o mesmo procedimento infinitamente. Tudo se torna mais e mais complexo a cada dia que passa. Chegará o dia em que a complexidade será tanta que não conseguiremos nem mesmo entender que não entendemos. A complexidade será incomensurável consigo mesma. Esse será um dos eventos mais extraordinários do universo, mal conseguiremos relatá-lo. Por isso vamos esquecer um pouco da complexidade das coisas e vamos tão somente fritar um ovo ou sair para comprar meias. São pequenas atitudes como essas que nos salvam. Que nos salvam do passado mal vivido, que nos salvam dos traumas grotescos, daquele dia em que, no escuro, tivemos mais uma desilusão. Não pense, não pense para sempre! Esqueça, esqueça para sempre! Encoste-se em mim e mantenha a calma. Ainda se é jovem, poderia ser pior. Ainda se está vivo, poderia ser pior. Ainda há chá e café no armário, poderia ser pior. O pior não é o passado, nem de longe. O pior é o que está por vir. Vamos rolar juntos pelo chão e esquecer de tudo, menos dos sonhos sem sentido, como aquele em que um cachorro azul latia incessantemente, e que nos aterrorizou até os ossos porque se tratava do próprio demônio em formato de cachorro.
 
IV
 
“Se oito mil dias pesam como uma bigorna, então espere só mais dez anos para ver como será”. Há um deus com um humor negro refinadíssimo que me diz essas coisas o dia todo. Estou cansado e nem ouço mais. Na verdade, só dou ouvidos aos demônios, que são sempre muito prestativos e me auxiliam nas tarefas de rotina. Acordo todos os dias muito cedo para cumprir uma espécie de ritual: trocar lâmpadas fortes pelas queimadas, varrer cacos de cerâmica para debaixo dos tapetes, ferver água para o café até evaporar, ferver água novamente, cortar os pulsos com espátulas, etc. Depois o dia está aberto para o que der e vier. Podemos nos sentar e pensar sobre os fracassos? Mas é claro. E sobre o passado que deveríamos refazer? Pois melhor ainda. Temos de cuidar para não nos lembrarmos que, enquanto estamos lamentando o passado, acumulamos ainda mais tempo para se lamentar sobre. Colamos bilhetes pelas paredes para não nos lembrarmos disso. É preciso viver com muito cuidado, sem chegar propriamente a viver. Que há no mundo de mais maravilhoso que as oportunidades que não se concretizam? Precisamos nos livrar de pensamentos como esse. Vamos pensar seriamente sobre viver de alegria. Vamos perceber que o problema maior não é a falta de sentido da vida, pois há pessoas que vivem muito bem no interior da falta de sentido. Prazer e dor se confundem em tudo o que existe na face da terra. Há dias em que a alegria é cheia de agonia e a tristeza cheia de doçura. O amor é tão doloroso quanto a falta dele. Seria isso a falta de sentido? Não há como saber. É preciso amar as pessoas, especialmente aquelas que sabem que não há conforto possível na vida, que “ninguém descansa em cadeira de dentista”. Temos compaixão por elas e por nós mesmos. E também temos ódio e rancor por nós e por todos. Nada adianta para nada: pensamos sobre várias coisas e nada adiantou para nada. Fizemos tudo errado. Levamos tudo a sério demais. Não conseguimos nos salvar. Nossa missão para sempre impossível: salvar quem não quer ser salvo. Venha cá e me abrace novamente. O céu está altíssimo e não há sombra de dúvida. O sol está altíssimo e nós irreconhecíveis. Deixemos de lado as palavras toscas. Venha cá e me abrace. Vamos partir em segredo dessa para uma melhor.