sexta-feira, 10 de julho de 2020
obrigado a todos que submergiram
terça-feira, 31 de março de 2020
Às vezes vejo um vulto e me alegro
segunda-feira, 23 de dezembro de 2019
Pantufas se foi
Pantufas se foi. Eu seguiria sem meu osso para procurá-lo, mas ainda não cresceu uma manhã, e eu não entendo como produzir um começo. Ele já deve estar perto ou longe? caminhei dezoito quilômetros na garoa florescida sobre a cidade. É ridículo demais, eu cabia em suas costas. meu amigo ainda não espera por mim? ainda que eu possa amar sua barriga? meu amigo me assusta quando não me espera. Ele me diz para ficar calmo, eu já disse que continuo apenas por um pontilhado fraco, quase no fim. posso cortar novamente suas unhas com calma, escovar sua crina macia pela manhã. Todos já morreram, eu fui o último que restou? O último de um bando disforme? Fortifico nossa casa. se você voltar, posso tricotar uma cortina, posso retirar os tijolos e lixá-los um a um, sem problemas, e posso limpar a mesa empoeirada. A árvore cresce para cima elevando também os fios de luz tão macios, agradáveis. Levo você até ali embaixo para ver os fios, você ronrona junto a mim, eu abraço você por inteiro, aperto sua barriga e mordo a pele fininha das orelhas. você apenas ronrona e ri até das minhas varizes. Não há mais lâmpadas em flor a serem acesas em um fio. Você torce meu pescocinho para me ajudar a continuar. Guarda minhas pedras em sua mochila pesada. Retorna minhas ligações do ano anterior. Me lembra todo dia, ao acordar, de que sou uma pessoa. Eu custo a lembrar. Com sono, encosto a mão em sua pata. Um mosquito pousa em algum lugar do cômodo. Eu observo sim, é claro. Ouço vozes de crianças me macetando. Não desejei feliz páscoa a ninguém. Eu acho que meu amigo está muito forte – ele conseguiria rolar comigo lá fora, brincar no pasto, incendiar qualquer um que se opusesse. Preparo os ovos desidratados para nossa próxima refeição. às vezes me perguntam se já estou dormindo. Saímos para mais um jantar logo depois de comer. Você pode me ajudar, você foi ensinado a roer. Roemos uma estrutura de aço inteira em poucos dias ou horas. Você puxa a abertura e me coloca como se eu fosse estar confortável. Eu finjo que estou e prossigo (não posso desagradá-lo, ele pode me deixar sucessivas vezes, para sempre). estoura uma lâmina no meu ouvido direito. não quero ter que recortar suas pálpebras, pois estou absolutamente sozinho e precisaria de alguma ajuda humana para resgatar. A vegetação é espessa, cai um pedaço antes de dormir. Faz sentido transitar aqui? Um olho em meu jardim pequeno, This coming gladness em meu funeral. Josefina entrega um buquê de qualquer flor ordinária que ela catou em um terreno baldio. Desejo então um bom dia a todas as coisas que acontecem, ao gato que olha e dorme, à pomba que se desfaz sobre a cama, ao arado tombado na porta, a esse desfiladeiro ao meu lado, ao demônio que me comunica quieto e deixa meus chinelos enfileirados para minha comodidade pela manhã. Agradeço a cada um individualmente, você me ergue do chão, estou encapsulado. Colocamos nossas capas de chuva, a minha está furada como uma peneira, a sua não chega a servir, mas fingimos muito cuidadosamente e saímos pelo meio do mato. Decidimos existir praticamente do nada! Uma coisa acontece, um céu muda seus contornos, sua base de sustentação. Eu rio de qualquer coisa parada. meu amigo salsichas devolve seu pequeno olhar para mim e eu desabo, choro durante setenta minutos e paro logo depois para escorrer o molho das lentilhas que já começam a brotar. Sento-me seco sobre uma coisa qualquer, paro de respirar por um momento e depois volto. Você era a única pessoa que compreendia meu sonambulismo crônico. Como prosseguir sem romper? Retiro alguma coisa que eu disse para fazer você voltar. Ele me olha fixo e diz: "você é meu companheirinho, você não é corajoso, eu também te amo, etc". Eu não consigo chegar a nenhuma parte de mim e nem dos outros. Eu posso tranquilamente desovar cada um deles, mas não você. Mas, e se você estiver certo? E se você esteve certo esse tempo todo e eu sou uma pessoa? Eu rio demais sem conseguir entrar no papel. Eu me lembro a todo momento e me canso, vou ouvir para sempre seu relinchar alegre. E cada vez que levantar da cama pensando em morrer. E cada vez que souber de uma coisinha no quintal, ou cada vez que começar a suspeitar. Agora estou sinceramente partido no meio. De onde vem esse prazer enorme em não pertencer? Duas cavernas se abrem na minha frente e eu entro na segunda. E se hoje digo a você que quero sair? Vamos até o ponto mais próximo, com certeza, a qualquer lugar em que a coisa esteja acontecendo. Ah, vamos sim... eu escovo os dentes maciamente enquanto espero, meu amigo traz toda a roupinha para que possamos sair calmos, indigestos. Você pode encaixar todo tormento em mim e me embalar como se eu fosse o seu tormento. Por todo o trajeto eu não penso que não vou me divertir, pois ele nunca está comigo por brincadeira. Eu celebro cada segundo, apenas me certifico de que meu cálcio esteja sendo absorvido lentamente, sem interromper. Porém, se não tenho mais imaginação, preciso ser levado ao outro lado contigo. Duas horas antes de receber a notícia, escrevi "Eu não posso vê-lo crescer. Eu já estou restrito a um outro universo". Que universo é esse? isso agora é fundamental. Se eu machuco a minha membrana no caminho, você interrompe comigo para reanimar. Volte e me ajude a cuidar por mais um segundo, antes que eu me esqueça! se eu pular fora antes do momento marcado, algo inesperado pode acontecer. Eu já estou pronto para decidir. Não há nenhuma opção no forno, e estou sozinho. Eu posso remar, mas preciso de ajuda, eu preciso que você me ajude a me mover para as próximas horas, senão não consigo definhar. Você não entende que por alguns dias sou incapaz de existir? Achei que você pudesse entender. Você não pode – como ele fez – me dizer que a maionese é uma bela comida, que as coisas são assim e assado, etc. Eu desafio qualquer coisa que possa estar chegando, você me incentiva a continuar sem osso nenhum, vê se pode! Incrível como nenhum osso. O trem está pegando fogo? Por que eu vomitava tanto? Acho que isso também eu nunca te contei. Éramos resolutos e infelizes. Você também pode supervisionar a minha barriga enquanto caminhamos no quintal. Eu deduzo que há uma terceira pessoa aqui conosco rindo por trás da minha cabeça, preparando o campo para me decapitar. Eu sinto e ele ri, ri por completo. Agora é como se todas as horas também estivessem dormindo, ressonando.
sábado, 23 de março de 2019
obituário tardio
sábado, 29 de dezembro de 2018
Testamento
sexta-feira, 7 de setembro de 2018
Há um número de pequenas coisas
domingo, 15 de outubro de 2017
Pós-apocalipse
terça-feira, 27 de junho de 2017
Apocalipse de manhã
domingo, 19 de março de 2017
depois da realidade
terça-feira, 6 de dezembro de 2016
resíduo mnemônico
sexta-feira, 16 de setembro de 2016
ostracismo nº1
É muito solitário. A coleta dos pequenos animaizinhos que agonizam, as memórias abstratas que não coincidem com nada, a travessia percorrida sem cessar. Que bom que algumas ostras são trazidas para dentro do ombro, e as outras se desmancham na maré. O que traz para dentro da ostra a possibilidade de um pequeno desastre? A ostra no colo está devidamente enxugada, é claro? Guardamos pacientemente todas elas nas caixinhas, que serão veladas pelos fantasmas que moram no quintal. Olhe para os fantasmas, e cada rosto está em branco. Quando o eco vaza e desestabiliza a atmosfera nauseante, então esse acontecimento é absolutamente real. Mas quando uma ostra rosna dentro de alguma das pequenas caixinhas, é só resquício de um sonho ruim. Não há razão para lamentar ou sofrer. São só ostras trêmulas dentro de caixinhas, como nós mesmos no interior de uma morte. Por qual poro podemos sair? Digam-nos, apontem-nos a saída. E desde que haja uma saída, eu pago o que for preciso, por isso digam a ela. É preciso que se dê o recado. Se formos cuidadosos, então. Eventualmente, uma raiz branca brota com violência. Aqui a cobertura tem a textura de uma planta porosa. Sem sequer respirar, as células tremem e quase implodem. A respiração é agradável, incômoda e finita. Cada ostra tem um pequeno talo que não precisa ser retirado. Nenhuma memória coincide com nada. Basta que se puxe o talo da ostra pelo avesso, pois invertidas elas ocupam completamente o espaço sem que se precise adicionar coisas ou acontecimentos ou pessoas como acompanhamento, é uma tranquilidade.
domingo, 10 de julho de 2016
O bolo para a mariposa
Ele, quando olha em silêncio, não diz. A respiração é só um detalhe. O rosto se forma em massa mole pronta para ir ao forno. Olhar fixo e absorto, as favas de baunilha presas ao cabelo. Os dedos cobertos com coisas. As bromélias estufadas, os resíduos espumados, os dias exaustivos, os metais pesados, os espessantes e edulcorantes que são a malha que recobre o tecido longo e desbotado da ostra oval. Tudo é o mise en place do bolo que deverá ser entregue à mariposa em troca da verdade que já possuímos e não podemos desativar. Um cardume se desloca. Pensa: no mundo exato as pessoas poderiam fugir sem se desesperar. O ar escuro desorganiza os processos racionais. O cardume está precisamente depositado dentro da bandeja, junto aos ingredientes: uma planta-ovo retirada com cuidado de seu milímetro quadrado no campo de lavoura, os besouros azuis, a cobertura verde das folhas maduras, a infusão dos ossos que espera para amornar, o fundo de ostra que preparamos há oito meses e congelamos para que durasse até essa ocasião. Estamos diante de uma tarefa árdua, quase como um preparo minucioso. O sal precisa ser pacientemente adicionado. O peito inteiro, quando dói, o diafragma abre e um fragmento de mar frita as urtigas sem sal algum. Ainda que o sal escorra da montanha? Não há sal algum que escorra incólume. Um inseto preso com um prego, as plaquetas que implodem simplesmente, sem sequer perguntar. Juntamos as pedras no lugar dos olhos e não olhamos para uma ponte que ainda se estende, quando uma coisa excelente como esse plano minucioso é colocada na pedra e batida até espasmar. Rosas planas sopram das pontas, nada acontece sem que tenha sido dada uma ordem para acontecer. Por isso esse escambo doce com a mariposa deve ser documentado. A hora range como uma porta, mas uma ou duas horas mais tarde não deve fazer diferença. Olhamos as instruções claras no livro de receitas: é preciso de dois a quatro infernos para criar uma massa úmida de um bolo. A quantidade obtida é suficiente. O único que poderia carregar uma flor silenciou por cinco dias. Fizemos a jornada triunfal e depois mais cruzamos um pequeno oceano até chegar ali onde os romanescos eram depositados nos pratos que colocávamos na bandeja. E assim aconteceu. Até que voltamos dentro de um verão escaldante, cheios de milhões de coisas para contar. Contamos para a cotovia, para o bem-te-vi e para o pardal. Por medo do colapso, a atmosfera foi reduzida a um mínimo insignificante, até colapsar. Ao inseto que voava foi ordenado que se sentasse e comesse quieto. Cada nuvem era um dia em si mesmo que não acontecia. Agora batemos o creme de claras e, se tudo sair como planejado, então o dia não será mais o que é, e será possível descansar. Ainda bem que o dia aqui não está mais existindo, e nem depois. Olha-se o jornal e está escrito: “Crânios de criaturas desconhecidas são encontrados em maletas”. Mais nada. Isso no primeiro dia, e no segundo dia já não aconteceu algo que alterasse alguma coisa. Quando o primeiro se foi, as flores ainda estavam de molho por pouco tempo, a água ainda era pálida e insípida. Quando o segundo se foi, a casa escorrida em cimento bruto. Quando o terceiro se foi – então. Agora as pessoas podem salvar umas às outras. A verdade precisa ser desativada. O bolo deve assar uniformemente enquanto o fundo de ostra reduz na panela. Iniciamos um procedimento estritamente pragmático de um amontoado de leituras que se somam e produzem um incômodo diário e uma mobilização quase sistemática. E então, no passo seguinte, todo planejamento racional se choca com sua própria impossibilidade. E enquanto planejamos a matéria porosa dos próprios dias, a mariposa enfim chega e aguarda calmamente a entrega da encomenda que estufa no forno até secar. As palavras se organizam urgentes diante da coisa, que não acende nem apaga. Depois da ponte não há nada, as pontes adiante uma após outra marcam o intervalo da rodovia, o instante em que os carros ultrapassam uma barreira que está dada intuitivamente. A mariposa olha fixamente e não treme. Ela pede uma vasilha de flores para guardar os pés e ordena que se feche as janelas para estancar o vento. Isso até poderia chegar a ser uma pista, pois quando a mariposa olha cansada, ela revela as cifras daquele que nos desativou. E quando a mariposa carrega um ímã, ela própria se desmagnetiza. Muitos deles já estão compreendendo o esquema, eles não aprovam qualquer um. E ela também. As horas caem de uma vez só e se espatifam pelo chão. Olhamos envergonhados sem nem conseguir olhar. Os desenhos guardados na estante dentro de uma memória morna. O fundo de ostra está pronto para cobrir o bolo. O vento paralisa na face externa do vidro da janela, as bromélias não conseguem entrar. Dormimos assustados com a profundidade que o próprio sono alcança, até que o sono é perturbado pela ostra que rosna enquanto dorme, e acordamos. Cortamos os cachos de luz nos cabelos, retiramos a tampa da caixa craniana. O que houve? Tudo aconteceu como deveria acontecer, e a proteção permitiu que, depois de uma cobertura imensa de palavras sobrepostas, as coisas pudessem despencar dentro da caixa que construímos para adentrar e viver. O sono chega novamente, e dessa vez dormimos em virtude dos espasmos, e não a despeito deles. O dia atinge seu máximo – que na verdade é também seu mínimo. A mariposa espera sentada, cansada de esperar. Uma solidão pequena se esconde nos alvéolos de uma levedura na parede. O mofo estufa e os musgos espalham-se sobre a mesa e inclusive no vidro da janela. O dia está tão alto que chega a estar baixo. Entreguem a ela de uma vez! A mariposa espera na portaria: pálida, calma, altiva, grande como um pardal empalhado. O vento para pela segunda vez. O dia está guardado em local inespecífico. Ela se transforma, pouco a pouco, em uma árvore (aviso: se ela for, iremos com ela). Olhe para o meteoro que vem nos buscar (a mariposa já quer ir embora, mas não deixamos). Retiramos a cobertura de musgos com um boleador: forma-se uma bola de sorvete azulada que cobre as extremidades do bolo todo áspero, salgado, frio, insosso, oleoso e azul (a mariposa devolverá sem hesitar!). Nem a melhor cobertura de manteiga rançosa e rosas poderia remediar. É preciso um bolo melhor. Olha-se por todo canto. O que há aqui além de espinhas de peixes utilizados no cozimento da massa? Sim, e as batatas antigas que murcham e perdem umidade para o ar que também perde umidade para a atmosfera que pulveriza a umidade e permanece intacta, assim como deve ser e assim por diante. Melhor seria um bolo de flores para uma mariposa cansada, isso com certeza sim. Não há mais volta, mantemos a postura e não transparecemos o abismo. Estufamos o diafragma para fingir que ainda estamos respirando – todo choque aqui pode ser fatal. O bolo é entregue à mariposa morta de tanto esperar. Quieta, ela olha e sequer abre um olho ao dizer. E sequer espera por um aro que encaixe para poder dizer (nenhum aro encaixa, jamais). A mariposa abre a boca escura e sussurra em dialeto morto. Cai um olho da ostra e escorre. O dia treme em todas as extremidades. Por deus do céu, que conselho medíocre o da mariposa. Quando olhamos inconsolados e repetimos a pergunta, ela nos entrega a verdade duplicada. Após o bolo ser entregue, o caminho sinuoso que, passando pelas peras, o rochedo. Até o fim da caverna para sepultar a ossada do cardume utilizado. Qual o tamanho do vazio? Antes de ir embora a mariposa nos ajuda, segurando uma fita métrica rasgada, a medir o tamanho do vazio. Ela tem pressa, mas é solícita. Depois disso, macia e enigmática, ela guarda o bolo insosso. A conversa final com a mariposa também é insossa. Desdobra-se o corpo da mariposa em pequenas e suaves folhas opacas que vão cobrir os blocos de nosso corpo morto. Agradecemos a todos os fantasmas por esperar – escorre uma lágrima de um pequeno fantasma filhote. O vazio é totalidade sem tamanho, essa é a obviedade que toda palavra carrega consigo sem saber. O dia continua exaustivo sem cessar.
domingo, 8 de novembro de 2015
Sob um mar
Sopraste com o teu vento, e o mar
os cobriu; afundaram-se como
chumbo em volumosas águas.
Êxodo 15:10
Em primeiro lugar, trêmulos estão os lustres sob as águas geladas, estorricados e quebradiços apesar da umidade excessiva. Em segundo lugar, a grande ostra ralada próxima ao poste marinho. Em terceiro lugar, a noite insossa e disforme sobre o mar. Em quarto lugar, a falta de preenchimento dentro dos ossos. Iniciamos enfim.
domingo, 13 de outubro de 2013
Sobrevivência no escuro
Os dias nos derretem pouco a pouco. Iniciamos nosso ritual sabático que nos conduzirá a uma infelicidade mais suave e indolor que a habitual: espalhamos pedras pelo chão bruto, coletamos meteoritos numa peneira, vestimos os casacos nos sapos, arrancamos nosso pâncreas com um pegador de macarrão, fritamos os pâncreas das crianças e, durante todo o processo, nos esquecemos de que deveríamos ser felizes. Choramos pelos dias e horas que se desmancham e pelos sonhos atoleimados no quintal. É inevitável uma dose de comoção. Depois cozinhamos crânios humanos, flores incolores, pequenos repolhos, crianças antigas, sonhos enlatados, olhos e beiços azuis. Fazemos tudo isso pela nossa sobrevivência. Há pessoas que encontram a felicidade dentro da tristeza circundante. Nós simplesmente não fazemos ideia. Somos iguais a eles: não nos importamos em ser infelizes, por toda a vida. Repetimos para nós mesmos inúmeras vezes: a tristeza não importa, o que importa é o mundo: os carros atravessam sem pensar, as pessoas vivem e envelhecem, as árvores despencam com os temporais. Mais nada. Se há ou não relâmpagos, se as casas caem ou não dos barrancos, bem, então podemos começar a viver? Não. Não é possível realizar esta inferência. Tudo o que temos hoje para viver são as pedras, os meteoritos, os olhos azuis, deus e os demônios.
O que pesa para nós, em primeiro lugar, é a dificuldade das horas, das coisas, das pessoas, etc. Olho para as rachaduras da parede e sei que elas são difíceis. As pessoas são difíceis quando existem e caminham. Estabelecer ou aprofundar contato com elas também é difícil. A dificuldade ao longo de milênios, juntamente com os fracassos e as perdas, cristaliza-se em pedras. Os demônios nos oferecem resistência e consolo diante das pedras. As pedras são nossas escolhas mal feitas. Mesmo quando muito antigas, elas incidem sobre nós por toda a vida. As pedras depositadas no jardim, ao contrário do que pensam as pessoas, não são tudo o que há, mas apenas uma espécie. Pois há também os meteoros e os meteoritos, que são pedras cósmicas. E há também as pedras radioativas e cancerosas sobre nossos ombros. E também as pedras vulcânicas esfuziantes. E também as pedras submarinas, salgadas e desbotadas. E há também pedras vulcânicas submarinas, que não existem, embora sejam possíveis. Por exemplo: quando há pedras sobre nosso peito, mal conseguimos respirar. Nos lembramos daquele lugar, daquele lugar lá no alto, mais uma vez, mais uma vez. E não adianta pra nada. Quando estamos inquietos ou desesperados, presos sob uma rocha, os demônios nos ligam de madrugada, e suas vozes etéreas adentram com facilidade nossa cabeça oca. Eles nos dizem com suavidade: “fuja, fuja para sempre. Esqueça, esqueça para sempre. Corra apenas atrás do que você acredita”. Então respondemos em prantos que não acreditamos em nada, ao que eles replicam: “Corra apenas atrás do que você não acredita”. Decidimos não correr e aceitamos, relutantes e sonolentos. Então dormimos e, ao descermos ao inferno, respiramos melhor. Morremos por algumas horas, e a casa, que normalmente é um marasmo, torna-se quase tolerável. É quando recebemos a visita dos meteoritos, que são a esperança morta e cintilante no céu. Dentro do sonho as coisas explodem com maior intensidade. Tornamo-nos uma só pessoa e enfrentamos a realidade de modo certeiro e impreciso. Essa única pessoa desabafa sem pudores: por que não sei reagir aos cometas? Por que não sei caber nas situações dos outros? Por que ainda penso que preciso de um estopim? Por que os anos passam e, no entanto, não saem de mim? Pois bem. Há várias respostas possíveis. Trabalhamos com várias possibilidades, e nenhuma delas é possível. Depois de tantos questionamentos, sonho por um instante com as coisas como elas deveriam ser e, quando acordo, despenco novamente para a realidade velha e lascada de muitos eus. Quando nos damos conta de que já não estamos mais dentro do sonho, lamentamos e imploramos para que nos deixem estar calmos e sonolentos, pois já estamos pagando pelo que fizemos. Estamos permanentemente em estado de desconforto profundo.
Não há comunicação possível. Ele nos deixou abruptamente, sem respostas. Ele nos olha e diz: fodam-se! E no fim das contas está certo! Por deus que ele está muito certo. Pergunto-lhe: onde você se meteu? De novo: onde você se meteu? De novo. E ele continua certo, para sempre. Certo dia bebemos um chá tão rosa, tão magenta, tão vermelho. Depois houve o dia em que o frio era intenso e as risadas nos faziam esquecer que havia o mundo. Tremíamos de felicidade e, contudo, não éramos felizes. Ainda bem que hoje os dias por lá estão altos e com sonoridades sofisticadas. Ao menos é o que se espera. Retorno o telefonema que não recebi e digo-lhe: por que o vinho e o livro? Não obtenho resposta. O livro nos diz que não há e nunca houve esperança. Mas já sabemos disso há tempos. Pergunto-lhe em seguida: o que se pode dizer sobre estar frio e já ser outubro? Ele diz: foda-se. Sorrio e volto aos meus afazeres. Preciso terminar de decepar a cabeça das galinhas e das crianças. Faço tudo com tanta doçura que até parece que estou dormindo. É um dos raros consolos que tenho, pois os dias seguem mais esqueléticos que meus ossos engordurados. Os dias são esqueléticos e somos incapazes de viver em sociedade. Indignamo-nos com deus e o mundo, e estamos atravessados de uma ponta a outra pelo silêncio. Como podem os tumores, ao crescerem, serem um “outro” e, ao mesmo tempo, nós mesmos crescendo dentro de nós e cheio de nós? Revoltei-me com deus e o mundo quando vi que seus tumores espalhavam-se por dentro e por fora, causando-lhe dor insuportável e obrigando-lhe a enfrentar a frieza de uma família podre como nem mesmo um cadáver consegue ser podre. E é completamente impossível que deus possa existir. Mas isso todos nós em sã consciência já sabemos. Não faz sentido existir deus nem nós. Deus, você que é uma estátua morta e lascada, por favor, sente-se conosco. Conte-nos sobre todo o sofrimento humano desde o início da história da humanidade, todo o sofrimento que você assiste com olhar sádico e sorriso malicioso, sem fazer nada. Deus, o altíssimo deus, spangle maker, esqueceu-se de nós. Esquecemo-nos dele antes. Deus é um torturador, ele vive à base de sangue coagulado e grão de bico. Deus é uma farsa tanto quanto nós. Por favor, venha até nós, abençoe nossas barrigas oleosas, abençoe nossa ignorância infinita, por favor, venha até nós em forma de neblina. Tenha piedade do deserto glacial infinito dentro de nós. Por favor, venha e sente-se ao nosso lado. Conte-nos todas as mentiras de que precisamos para sobreviver e, quando finalmente pudermos viver, conte-nos as verdades. Venha até nós transfigurado numa salvação alegre, num tronco de árvore alegre, numa criança decepada alegre, num passado vertiginoso alegre, num reencontro com defuntos alegre. E perdoe nossa falta de bom senso, de sanidade e de coerência para nos expressar.