É muito solitário. A coleta dos pequenos animaizinhos que agonizam, as memórias abstratas que não coincidem com nada, a travessia percorrida sem cessar. Que bom que algumas ostras são trazidas para dentro do ombro, e as outras se desmancham na maré. O que traz para dentro da ostra a possibilidade de um pequeno desastre? A ostra no colo está devidamente enxugada, é claro? Guardamos pacientemente todas elas nas caixinhas, que serão veladas pelos fantasmas que moram no quintal. Olhe para os fantasmas, e cada rosto está em branco. Quando o eco vaza e desestabiliza a atmosfera nauseante, então esse acontecimento é absolutamente real. Mas quando uma ostra rosna dentro de alguma das pequenas caixinhas, é só resquício de um sonho ruim. Não há razão para lamentar ou sofrer. São só ostras trêmulas dentro de caixinhas, como nós mesmos no interior de uma morte. Por qual poro podemos sair? Digam-nos, apontem-nos a saída. E desde que haja uma saída, eu pago o que for preciso, por isso digam a ela. É preciso que se dê o recado. Se formos cuidadosos, então. Eventualmente, uma raiz branca brota com violência. Aqui a cobertura tem a textura de uma planta porosa. Sem sequer respirar, as células tremem e quase implodem. A respiração é agradável, incômoda e finita. Cada ostra tem um pequeno talo que não precisa ser retirado. Nenhuma memória coincide com nada. Basta que se puxe o talo da ostra pelo avesso, pois invertidas elas ocupam completamente o espaço sem que se precise adicionar coisas ou acontecimentos ou pessoas como acompanhamento, é uma tranquilidade.
sexta-feira, 16 de setembro de 2016
ostracismo nº1
É muito solitário. A coleta dos pequenos animaizinhos que agonizam, as memórias abstratas que não coincidem com nada, a travessia percorrida sem cessar. Que bom que algumas ostras são trazidas para dentro do ombro, e as outras se desmancham na maré. O que traz para dentro da ostra a possibilidade de um pequeno desastre? A ostra no colo está devidamente enxugada, é claro? Guardamos pacientemente todas elas nas caixinhas, que serão veladas pelos fantasmas que moram no quintal. Olhe para os fantasmas, e cada rosto está em branco. Quando o eco vaza e desestabiliza a atmosfera nauseante, então esse acontecimento é absolutamente real. Mas quando uma ostra rosna dentro de alguma das pequenas caixinhas, é só resquício de um sonho ruim. Não há razão para lamentar ou sofrer. São só ostras trêmulas dentro de caixinhas, como nós mesmos no interior de uma morte. Por qual poro podemos sair? Digam-nos, apontem-nos a saída. E desde que haja uma saída, eu pago o que for preciso, por isso digam a ela. É preciso que se dê o recado. Se formos cuidadosos, então. Eventualmente, uma raiz branca brota com violência. Aqui a cobertura tem a textura de uma planta porosa. Sem sequer respirar, as células tremem e quase implodem. A respiração é agradável, incômoda e finita. Cada ostra tem um pequeno talo que não precisa ser retirado. Nenhuma memória coincide com nada. Basta que se puxe o talo da ostra pelo avesso, pois invertidas elas ocupam completamente o espaço sem que se precise adicionar coisas ou acontecimentos ou pessoas como acompanhamento, é uma tranquilidade.
segunda-feira, 22 de agosto de 2016
nota no.2
All we're ever looking for is another open door
All we ever look for, another womb
All we ever look for, our own tomb
All we ever look for, ooh, la lune
All we ever look for, a little bit of you, too
All we ever look for,
But we never do score.
All we ever look for, a god
All we ever look for, oh, a drug
All we ever look for, a great big hug
All we ever look for, a little bit of you
All we ever look for, a little bit of you, too
All we ever look for,
But we never do score.
domingo, 10 de julho de 2016
O bolo para a mariposa
Ele, quando olha em silêncio, não diz. A respiração é só um detalhe. O rosto se forma em massa mole pronta para ir ao forno. Olhar fixo e absorto, as favas de baunilha presas ao cabelo. Os dedos cobertos com coisas. As bromélias estufadas, os resíduos espumados, os dias exaustivos, os metais pesados, os espessantes e edulcorantes que são a malha que recobre o tecido longo e desbotado da ostra oval. Tudo é o mise en place do bolo que deverá ser entregue à mariposa em troca da verdade que já possuímos e não podemos desativar. Um cardume se desloca. Pensa: no mundo exato as pessoas poderiam fugir sem se desesperar. O ar escuro desorganiza os processos racionais. O cardume está precisamente depositado dentro da bandeja, junto aos ingredientes: uma planta-ovo retirada com cuidado de seu milímetro quadrado no campo de lavoura, os besouros azuis, a cobertura verde das folhas maduras, a infusão dos ossos que espera para amornar, o fundo de ostra que preparamos há oito meses e congelamos para que durasse até essa ocasião. Estamos diante de uma tarefa árdua, quase como um preparo minucioso. O sal precisa ser pacientemente adicionado. O peito inteiro, quando dói, o diafragma abre e um fragmento de mar frita as urtigas sem sal algum. Ainda que o sal escorra da montanha? Não há sal algum que escorra incólume. Um inseto preso com um prego, as plaquetas que implodem simplesmente, sem sequer perguntar. Juntamos as pedras no lugar dos olhos e não olhamos para uma ponte que ainda se estende, quando uma coisa excelente como esse plano minucioso é colocada na pedra e batida até espasmar. Rosas planas sopram das pontas, nada acontece sem que tenha sido dada uma ordem para acontecer. Por isso esse escambo doce com a mariposa deve ser documentado. A hora range como uma porta, mas uma ou duas horas mais tarde não deve fazer diferença. Olhamos as instruções claras no livro de receitas: é preciso de dois a quatro infernos para criar uma massa úmida de um bolo. A quantidade obtida é suficiente. O único que poderia carregar uma flor silenciou por cinco dias. Fizemos a jornada triunfal e depois mais cruzamos um pequeno oceano até chegar ali onde os romanescos eram depositados nos pratos que colocávamos na bandeja. E assim aconteceu. Até que voltamos dentro de um verão escaldante, cheios de milhões de coisas para contar. Contamos para a cotovia, para o bem-te-vi e para o pardal. Por medo do colapso, a atmosfera foi reduzida a um mínimo insignificante, até colapsar. Ao inseto que voava foi ordenado que se sentasse e comesse quieto. Cada nuvem era um dia em si mesmo que não acontecia. Agora batemos o creme de claras e, se tudo sair como planejado, então o dia não será mais o que é, e será possível descansar. Ainda bem que o dia aqui não está mais existindo, e nem depois. Olha-se o jornal e está escrito: “Crânios de criaturas desconhecidas são encontrados em maletas”. Mais nada. Isso no primeiro dia, e no segundo dia já não aconteceu algo que alterasse alguma coisa. Quando o primeiro se foi, as flores ainda estavam de molho por pouco tempo, a água ainda era pálida e insípida. Quando o segundo se foi, a casa escorrida em cimento bruto. Quando o terceiro se foi – então. Agora as pessoas podem salvar umas às outras. A verdade precisa ser desativada. O bolo deve assar uniformemente enquanto o fundo de ostra reduz na panela. Iniciamos um procedimento estritamente pragmático de um amontoado de leituras que se somam e produzem um incômodo diário e uma mobilização quase sistemática. E então, no passo seguinte, todo planejamento racional se choca com sua própria impossibilidade. E enquanto planejamos a matéria porosa dos próprios dias, a mariposa enfim chega e aguarda calmamente a entrega da encomenda que estufa no forno até secar. As palavras se organizam urgentes diante da coisa, que não acende nem apaga. Depois da ponte não há nada, as pontes adiante uma após outra marcam o intervalo da rodovia, o instante em que os carros ultrapassam uma barreira que está dada intuitivamente. A mariposa olha fixamente e não treme. Ela pede uma vasilha de flores para guardar os pés e ordena que se feche as janelas para estancar o vento. Isso até poderia chegar a ser uma pista, pois quando a mariposa olha cansada, ela revela as cifras daquele que nos desativou. E quando a mariposa carrega um ímã, ela própria se desmagnetiza. Muitos deles já estão compreendendo o esquema, eles não aprovam qualquer um. E ela também. As horas caem de uma vez só e se espatifam pelo chão. Olhamos envergonhados sem nem conseguir olhar. Os desenhos guardados na estante dentro de uma memória morna. O fundo de ostra está pronto para cobrir o bolo. O vento paralisa na face externa do vidro da janela, as bromélias não conseguem entrar. Dormimos assustados com a profundidade que o próprio sono alcança, até que o sono é perturbado pela ostra que rosna enquanto dorme, e acordamos. Cortamos os cachos de luz nos cabelos, retiramos a tampa da caixa craniana. O que houve? Tudo aconteceu como deveria acontecer, e a proteção permitiu que, depois de uma cobertura imensa de palavras sobrepostas, as coisas pudessem despencar dentro da caixa que construímos para adentrar e viver. O sono chega novamente, e dessa vez dormimos em virtude dos espasmos, e não a despeito deles. O dia atinge seu máximo – que na verdade é também seu mínimo. A mariposa espera sentada, cansada de esperar. Uma solidão pequena se esconde nos alvéolos de uma levedura na parede. O mofo estufa e os musgos espalham-se sobre a mesa e inclusive no vidro da janela. O dia está tão alto que chega a estar baixo. Entreguem a ela de uma vez! A mariposa espera na portaria: pálida, calma, altiva, grande como um pardal empalhado. O vento para pela segunda vez. O dia está guardado em local inespecífico. Ela se transforma, pouco a pouco, em uma árvore (aviso: se ela for, iremos com ela). Olhe para o meteoro que vem nos buscar (a mariposa já quer ir embora, mas não deixamos). Retiramos a cobertura de musgos com um boleador: forma-se uma bola de sorvete azulada que cobre as extremidades do bolo todo áspero, salgado, frio, insosso, oleoso e azul (a mariposa devolverá sem hesitar!). Nem a melhor cobertura de manteiga rançosa e rosas poderia remediar. É preciso um bolo melhor. Olha-se por todo canto. O que há aqui além de espinhas de peixes utilizados no cozimento da massa? Sim, e as batatas antigas que murcham e perdem umidade para o ar que também perde umidade para a atmosfera que pulveriza a umidade e permanece intacta, assim como deve ser e assim por diante. Melhor seria um bolo de flores para uma mariposa cansada, isso com certeza sim. Não há mais volta, mantemos a postura e não transparecemos o abismo. Estufamos o diafragma para fingir que ainda estamos respirando – todo choque aqui pode ser fatal. O bolo é entregue à mariposa morta de tanto esperar. Quieta, ela olha e sequer abre um olho ao dizer. E sequer espera por um aro que encaixe para poder dizer (nenhum aro encaixa, jamais). A mariposa abre a boca escura e sussurra em dialeto morto. Cai um olho da ostra e escorre. O dia treme em todas as extremidades. Por deus do céu, que conselho medíocre o da mariposa. Quando olhamos inconsolados e repetimos a pergunta, ela nos entrega a verdade duplicada. Após o bolo ser entregue, o caminho sinuoso que, passando pelas peras, o rochedo. Até o fim da caverna para sepultar a ossada do cardume utilizado. Qual o tamanho do vazio? Antes de ir embora a mariposa nos ajuda, segurando uma fita métrica rasgada, a medir o tamanho do vazio. Ela tem pressa, mas é solícita. Depois disso, macia e enigmática, ela guarda o bolo insosso. A conversa final com a mariposa também é insossa. Desdobra-se o corpo da mariposa em pequenas e suaves folhas opacas que vão cobrir os blocos de nosso corpo morto. Agradecemos a todos os fantasmas por esperar – escorre uma lágrima de um pequeno fantasma filhote. O vazio é totalidade sem tamanho, essa é a obviedade que toda palavra carrega consigo sem saber. O dia continua exaustivo sem cessar.
segunda-feira, 13 de junho de 2016
memento mori
Cada mofo levanta pouco a pouco para compor a mesa
Tudo o que existe é monádico e robotizado
morremos pela repetição mítica
Os damascos devem ser rastreados sob um mar
O passado é só um papel fino e embolorado
que se come com manteiga
nada pode ser mais ou menos seu próprio oposto
Fragmentos cortam as auréolas tortas
enquanto tento cortar o açúcar do café
domingo, 8 de novembro de 2015
Sob um mar
Sopraste com o teu vento, e o mar
os cobriu; afundaram-se como
chumbo em volumosas águas.
Êxodo 15:10
Em primeiro lugar, trêmulos estão os lustres sob as águas geladas, estorricados e quebradiços apesar da umidade excessiva. Em segundo lugar, a grande ostra ralada próxima ao poste marinho. Em terceiro lugar, a noite insossa e disforme sobre o mar. Em quarto lugar, a falta de preenchimento dentro dos ossos. Iniciamos enfim.
quarta-feira, 7 de outubro de 2015
nota no.1
O pequeno cálice, o som em meu umbigo, o som, o cálice vibrante continua a soar por muitos dias. Quando afinal as vibrações esmaecem, há uma presença em mim, uma presença. Algo semelhante a um besouro, não, a uma aranha de movimentos lentos. Logo não é mais uma aranha e sim um pássaro de asas curtas, sem bico, os pés cortados, um pássaro cinzento, mais tarde um peixe quadrúpede, aflito e inquieto, nadando com esforço em meu útero verde. Abro a janela e os olhos do peixe se iluminam, choro e o peixe entristece, tenho sono?, adormece, corro e suas pernas se agitam, assusto-me e ele se encolhe, alegro-me e as suas escamas resplandecem. Sem que eu saiba, há em mim uma cisão, de mim mesma estou nascendo, invado-me. Já não é um peixe, mas um cão, um cão ornado de plumas, com grandes barbatanas, que me ocupa. Tem pés e mãos. Às vezes estende a perna, com o pé fura-me o ventre, o baço, eu me contorço de dor. Ergue o punho e me fere o coração, atravessa-o: surgem manchas roxas no meu corpo. Lambe-me a garganta e eu vomito. Ligo tudo isto, aturdida, à ave que desce sobre meu ventre e, muitas vezes, muitas, sondo as nuvens. Mas a ave não volta, nunca mais, nunca, não reaparece.
Osman Lins /
Avalovara
quarta-feira, 9 de setembro de 2015
pergunta
sábado, 29 de agosto de 2015
En cendres
Cada dia em que começamos a existir, a radiação eletromagnética é inutilmente duplicada e atravessa nossos corpos de uma ponta até outra. Se a roda gira em sentido contrário, então por aqui não podemos passar. O rio está empedrado, cristalizado e morto. O teto está todo coberto com coisas que amamos e deixamos desaparecer. Por aqui não podemos passar. Ali no fundo eles nos olham, sempre opacos e enigmáticos. Corremos por um pontilhado no chão e chegamos até uma urdidura onde as coisas então acontecem. Sentados sobre o caos e olhando, o mundo passa mais rápido. O tempo nunca passa. O mundo sim.
Tivemos um grande momento rodando por esses arbustos mais altos. Aliás, foi o melhor momento que já conhecemos, por isso agradecemos-lhes: obrigado por nos fazer afundar – nos lodos mais mórbidos! Por deus do céu... Obrigado. Seguramente o momento mais agradável que conhecemos foi todos eles rindo e dançando conosco em nosso inferno, e a festa foi simplesmente exemplar. O dia de hoje termina e a radiação toda diminui após penetrar cada poro, cada célula, cada vaso, cada gérmen de tumor. Amanhã o procedimento recomeça. Esperamos ansiosamente com olhos úmidos que mal se fecham de tanta interrogação.
sexta-feira, 14 de agosto de 2015
Inventário de viagem
quinta-feira, 12 de março de 2015
Saída de emergência
1. Antes
Ontem acordamos em um buraco que um sonâmbulo cavou em segredo. Ele disse: não estou interessado. Depois disso o planeta caiu/o sangue coagulou. Ele estava no vento/passava no rosto um tufão. O ar na praia também é salgado. Os corpos emboloram na calçada. Trazemos os cadáveres para o berço/cobrimos com um pano sujo o balcão onde os ossos perdem sozinhos a poeira. A secura do dia levanta como uma tosse. A música que vibrava no ônibus que tremia. Ele disse: o ar na praia é salgado e o tufão (conforme o vento venta). Respondemos: moramos na praia e nossa casa está rachando. Começamos, enfim, a apalpar a realidade sem pressa. Um amor pelas coisas e pessoas infelizes que cresce até não poder mais. Sentamos por um instante e observamos os detalhes de um corpo vivo que envelhece. Os cabelos frágeis se desligam do couro e planam durante segundos no ar pesado até caírem numa velocidade inferior à da gravidade. Os fios soltos compõem um mosaico desafinado no chão. Cobrimos o marasmo com nossos finos fios de cabelo inutilizados. Rompemos os anos num piscar de olhos. Nenhuma vontade é maior que a de morrer sem se reconciliar. Não entendemos nossa própria linguagem e nem a dos outros.
2. Depois
Cavamos um túnel no quintal e escapamos ainda com a poeira do fracasso colada à retina. Nos espatifamos em ostras sonolentas (o instinto de sobrevivência ordena que afundemos antes que o assoalho esteja coberto por fios em silêncio). Cavamos um buraco onde plantamos os destroços, que nem sequer precisam de adubo para brotar. Não tememos mais as memórias cáusticas, o tempo passando, as cavernas tumorais, etc. Por um átimo de segundo olhamos para trás e a massa morna se aproxima em passos suaves, quase sem peso. Ele nos olha deitado. Nós o esmagamos. Nada deu certo. Nós o esmagamos. Olhos amarelos nos olham. Nós o esmagamos. Nós temos de perder. Depois as coisas se amontoam insones e piscando sobre a sombra redonda. Não entendemos. Trocamos a comida de filhote pela de adulto com a esperança de que ele cresça mais rápido e não precise sofrer. Os olhos amarelos agradecem mudos e também umedecem. Vamos embora sem dizer uma palavra sequer. Cortamos os ombros, as cebolas, os eclipses, os rostos suaves e sérios. Não sabemos como viver desse ponto em diante. Os olhos amarelos ficam pequenos no horizonte, porém não somem. O cheiro macio, o triângulo inscrito no rosto, a barriga tenra e morna. Aglomerados numa memória rachada. Trazemos conosco o recheio dos olhos amarelos. Pulverizamos na casa/cresce um oco frio doloroso na espinha (que só um grito abafa). Os destroços brotam e pisoteamos freneticamente para atingir a raiz. O passado não mais se reconhece como catástrofe (um sol possível surge quase líquido de tanta timidez). Por ora respiramos resolutos e aliviados. Sentamos e aguardamos até a próxima parede rachar.
domingo, 23 de fevereiro de 2014
"A tarântula e o pernilongo"
Para ser mais específico, o bloco intermediário da música parte de uma nostalgia eufórica que acompanha a chegada de Lola à Baviera, passa por uma rememoração da relação entre Lola e o rei Luís, com a qual a narrativa vai ganhando um peso colérico, e arrebenta no final do bloco intermediário com um momento sarcástico, amargo, efusivo e quase que inteiramente fictício. Mas é importante marcar que a narrativa é toda temporalmente descontínua. Há saltos abruptos entre fases distintas, às vezes dentro de um mesmo verso. Tentarei, contudo, na medida do possível, encaixar os elementos em uma ordem cronológica. Para isso, pularei a parte inicial e começarei pelo bloco intermediário da música. Depois volto ao começo e engato junto o final.
Cabe portanto perguntar, com base na complexidade abismal que é a relação entre Lola e Luís, se a imagem predador/presa ou tarântula/pernilongo seria mesmo pertinente. Do ponto de vista da opinião popular, é evidente que sim. Do ponto de vista de Lola ou do rei, contudo, essa imagem desmorona com facilidade. Mas, vale a pena lembrar, não é apenas o ponto de vista de Lola que parece estar sendo levado em conta na narrativa, por mais que a voz seja dela. É a tensão entre a imagem socialmente construída de uma manipuladora fria e inflexível e uma autoimagem muitas vezes fosca, trêmula e incerta que me parece guiar a reconstrução do passado empreendida pela narradora.
sexta-feira, 17 de janeiro de 2014
Não perder de vista
que o sentido está nas coisas. O sentido está nas coisas. O sentido está nas coisas. O sentido está nas coisas. O sentido está nas coisas. O sentido está nas coisas. O sentido está nas coisas. O sentido está nas coisas. O sentido está nas coisas.
sábado, 23 de novembro de 2013
gato ou cachorro
Sem respostas.
O dia é cinza e perfumado
Dor nos ossos.
segunda-feira, 28 de outubro de 2013
domingo, 13 de outubro de 2013
Sobrevivência no escuro
Os dias nos derretem pouco a pouco. Iniciamos nosso ritual sabático que nos conduzirá a uma infelicidade mais suave e indolor que a habitual: espalhamos pedras pelo chão bruto, coletamos meteoritos numa peneira, vestimos os casacos nos sapos, arrancamos nosso pâncreas com um pegador de macarrão, fritamos os pâncreas das crianças e, durante todo o processo, nos esquecemos de que deveríamos ser felizes. Choramos pelos dias e horas que se desmancham e pelos sonhos atoleimados no quintal. É inevitável uma dose de comoção. Depois cozinhamos crânios humanos, flores incolores, pequenos repolhos, crianças antigas, sonhos enlatados, olhos e beiços azuis. Fazemos tudo isso pela nossa sobrevivência. Há pessoas que encontram a felicidade dentro da tristeza circundante. Nós simplesmente não fazemos ideia. Somos iguais a eles: não nos importamos em ser infelizes, por toda a vida. Repetimos para nós mesmos inúmeras vezes: a tristeza não importa, o que importa é o mundo: os carros atravessam sem pensar, as pessoas vivem e envelhecem, as árvores despencam com os temporais. Mais nada. Se há ou não relâmpagos, se as casas caem ou não dos barrancos, bem, então podemos começar a viver? Não. Não é possível realizar esta inferência. Tudo o que temos hoje para viver são as pedras, os meteoritos, os olhos azuis, deus e os demônios.
O que pesa para nós, em primeiro lugar, é a dificuldade das horas, das coisas, das pessoas, etc. Olho para as rachaduras da parede e sei que elas são difíceis. As pessoas são difíceis quando existem e caminham. Estabelecer ou aprofundar contato com elas também é difícil. A dificuldade ao longo de milênios, juntamente com os fracassos e as perdas, cristaliza-se em pedras. Os demônios nos oferecem resistência e consolo diante das pedras. As pedras são nossas escolhas mal feitas. Mesmo quando muito antigas, elas incidem sobre nós por toda a vida. As pedras depositadas no jardim, ao contrário do que pensam as pessoas, não são tudo o que há, mas apenas uma espécie. Pois há também os meteoros e os meteoritos, que são pedras cósmicas. E há também as pedras radioativas e cancerosas sobre nossos ombros. E também as pedras vulcânicas esfuziantes. E também as pedras submarinas, salgadas e desbotadas. E há também pedras vulcânicas submarinas, que não existem, embora sejam possíveis. Por exemplo: quando há pedras sobre nosso peito, mal conseguimos respirar. Nos lembramos daquele lugar, daquele lugar lá no alto, mais uma vez, mais uma vez. E não adianta pra nada. Quando estamos inquietos ou desesperados, presos sob uma rocha, os demônios nos ligam de madrugada, e suas vozes etéreas adentram com facilidade nossa cabeça oca. Eles nos dizem com suavidade: “fuja, fuja para sempre. Esqueça, esqueça para sempre. Corra apenas atrás do que você acredita”. Então respondemos em prantos que não acreditamos em nada, ao que eles replicam: “Corra apenas atrás do que você não acredita”. Decidimos não correr e aceitamos, relutantes e sonolentos. Então dormimos e, ao descermos ao inferno, respiramos melhor. Morremos por algumas horas, e a casa, que normalmente é um marasmo, torna-se quase tolerável. É quando recebemos a visita dos meteoritos, que são a esperança morta e cintilante no céu. Dentro do sonho as coisas explodem com maior intensidade. Tornamo-nos uma só pessoa e enfrentamos a realidade de modo certeiro e impreciso. Essa única pessoa desabafa sem pudores: por que não sei reagir aos cometas? Por que não sei caber nas situações dos outros? Por que ainda penso que preciso de um estopim? Por que os anos passam e, no entanto, não saem de mim? Pois bem. Há várias respostas possíveis. Trabalhamos com várias possibilidades, e nenhuma delas é possível. Depois de tantos questionamentos, sonho por um instante com as coisas como elas deveriam ser e, quando acordo, despenco novamente para a realidade velha e lascada de muitos eus. Quando nos damos conta de que já não estamos mais dentro do sonho, lamentamos e imploramos para que nos deixem estar calmos e sonolentos, pois já estamos pagando pelo que fizemos. Estamos permanentemente em estado de desconforto profundo.
Não há comunicação possível. Ele nos deixou abruptamente, sem respostas. Ele nos olha e diz: fodam-se! E no fim das contas está certo! Por deus que ele está muito certo. Pergunto-lhe: onde você se meteu? De novo: onde você se meteu? De novo. E ele continua certo, para sempre. Certo dia bebemos um chá tão rosa, tão magenta, tão vermelho. Depois houve o dia em que o frio era intenso e as risadas nos faziam esquecer que havia o mundo. Tremíamos de felicidade e, contudo, não éramos felizes. Ainda bem que hoje os dias por lá estão altos e com sonoridades sofisticadas. Ao menos é o que se espera. Retorno o telefonema que não recebi e digo-lhe: por que o vinho e o livro? Não obtenho resposta. O livro nos diz que não há e nunca houve esperança. Mas já sabemos disso há tempos. Pergunto-lhe em seguida: o que se pode dizer sobre estar frio e já ser outubro? Ele diz: foda-se. Sorrio e volto aos meus afazeres. Preciso terminar de decepar a cabeça das galinhas e das crianças. Faço tudo com tanta doçura que até parece que estou dormindo. É um dos raros consolos que tenho, pois os dias seguem mais esqueléticos que meus ossos engordurados. Os dias são esqueléticos e somos incapazes de viver em sociedade. Indignamo-nos com deus e o mundo, e estamos atravessados de uma ponta a outra pelo silêncio. Como podem os tumores, ao crescerem, serem um “outro” e, ao mesmo tempo, nós mesmos crescendo dentro de nós e cheio de nós? Revoltei-me com deus e o mundo quando vi que seus tumores espalhavam-se por dentro e por fora, causando-lhe dor insuportável e obrigando-lhe a enfrentar a frieza de uma família podre como nem mesmo um cadáver consegue ser podre. E é completamente impossível que deus possa existir. Mas isso todos nós em sã consciência já sabemos. Não faz sentido existir deus nem nós. Deus, você que é uma estátua morta e lascada, por favor, sente-se conosco. Conte-nos sobre todo o sofrimento humano desde o início da história da humanidade, todo o sofrimento que você assiste com olhar sádico e sorriso malicioso, sem fazer nada. Deus, o altíssimo deus, spangle maker, esqueceu-se de nós. Esquecemo-nos dele antes. Deus é um torturador, ele vive à base de sangue coagulado e grão de bico. Deus é uma farsa tanto quanto nós. Por favor, venha até nós, abençoe nossas barrigas oleosas, abençoe nossa ignorância infinita, por favor, venha até nós em forma de neblina. Tenha piedade do deserto glacial infinito dentro de nós. Por favor, venha e sente-se ao nosso lado. Conte-nos todas as mentiras de que precisamos para sobreviver e, quando finalmente pudermos viver, conte-nos as verdades. Venha até nós transfigurado numa salvação alegre, num tronco de árvore alegre, numa criança decepada alegre, num passado vertiginoso alegre, num reencontro com defuntos alegre. E perdoe nossa falta de bom senso, de sanidade e de coerência para nos expressar.
quarta-feira, 31 de julho de 2013
Finally we are no one
Olharam-se por um átimo de segundo antes de consumarem juntos o ritual. Naquela época, ainda não sabiam que o tempo passava, e que o passado mal digerido criava bolhas por dentro do corpo que explodem e ardem com certa regularidade. Que bom, porque o futuro estava por fazer. A verdade é que eles eram cúmplices desde muito cedo. Depois de anos, no dia e hora marcados, eles se encontraram para realizar aquilo que vinham planejando com bastante minúcia: pular do telhado com alegria. Era um dia tão forte e alegre que se duvidava inclusive que era dia e tinha sol e era alegre. Pombas gordas de sangue escorriam pelas ruas, árvores murchavam quietas em depressão e pessoas andavam pelas calçadas sem saber absolutamente nada de nada do mundo e da vida. Ela era magra e tinha olhos puxados. Ele era branco e levemente roliço. Aquele era um dia de muita alegria, com certeza. Seria essa, de modo cômico ou grotesco, a redenção? Eram sete horas da manhã, hora de tomar uma atitude drástica e irracional. Deram-se as mãos e pularam. Ele quebrou um fêmur. Ela, duas costelas e um braço. Saíram caminhando pela rua como se nada tivesse acontecido, quase roxos pela falta de ar decorrente mais de um ataque de riso do que propriamente da queda. Eles nunca mais conseguiriam controlar o riso. Era engraçado demais que após uma vida de sofrimento as pessoas apodrecessem e deixassem de existir. Era de um mau gosto tão cáustico e insuportável, que era preciso muita mitologia para encobrir uma verdade tão drástica como essa. Mas morrer não seria o final mais alegre e grandioso? Sim. Mas ainda assim era feio, sujo, incômodo, ilógico. Ainda bem que poderiam viver sem ver a verdade. Não era suficiente adquirir ilusões, era preciso vivê-las, transformar a realidade cinzenta numa grande mentira cheia de amor e doçura, uma peça de teatro de baixa qualidade. Nessa peça, as pessoas entravam e saíam da nossa vida e sabe deus pra onde iam, e sabe deus pra onde nós íamos. Não havia sentido na superfície das coisas, e muito menos no interior delas. Poder-se-ia tomar sorvete com aquelas pessoas? Nossa, mas claro que com certeza que sim. Poder-se-ia adentrar suas vidas medíocres, para que pudéssemos esquecer por um instante de nossa própria mediocridade? Claro, pois certamente. Mas apesar disso, eles optaram por outras aventuras. Como ainda estavam vivos, decidiram passar o dia temperando as aftas da boca com sal e limão, fritando bifes e vendo filmes lentos e interessantes. Assim que anoiteceu, decidiram atear fogo em seus cabelos. Fizeram isso ao ar livre, num local com pouca iluminação, e que baita espetáculo pirotécnico que sucedeu-se. Depois, com o cérebro em cinzas, saíram pela rua cantando alto as músicas que os fizeram ser quem eram. Depois conversaram sobre extraterrestres e clamaram por uma abdução alienígena, que infelizmente não viria a acontecer. Também lamentaram a idiotice das horas e dos dias e levaram um susto: os dias eram tão, mas tão idiotas, não havia o que tirar nem por. As pessoas, tão hipócritas, procuravam a salvação nas coisas mais sobrenaturais, sem saber que, se a salvação era possível, só podia estar no sexo e no silêncio. A carne é que precisava urgentemente ser salva, pois é só o que somos, carne, sangue, angústia, fome e silêncio. Por isso as pessoas estariam para todo sempre vazias e carentes, com a ilusão de que seriam eternamente nutridas por um ser espiritual. E mais e mais elas socariam seus impulsos para dentro de si mesmas, até adoecerem e emudecerem diante da descoberta de um câncer terminal. Oras bolas. A coisa mais misteriosa que havia, que era a realidade, não tinha mistério algum. Não dava pra mudar nada. Só a morte mudaria. Até lá, a vida seria uma planície esburacada, cheia das crises mais fundas e infundadas. Assim, eles se viram diante de apenas duas possibilidades, tendo já descartado a hipocrisia da busca espiritual: poderiam afundar-se no nada, como bem faziam os monges, ou poderiam afundar-se em alguma imbecilidade mais concreta, como fabricar cabides ou dissecar sapos. Mas havia também o amor. O amor era líquido, e também podia ser sólido. Mas eles eram neutros. Eram neutros quando eram crianças e ficavam escondidos dos outros no recreio. Eram neutros na adolescência quando, ainda escondidos dos outros no recreio, trocavam impressões virtualmente sobre o mundo caótico dos humanos e sonhavam com um futuro cinzento e insosso. Naquela época, o mundo ainda tinha algum brilho, e as pessoas ainda existiam. E agora adultos eles estavam obcecados pela neutralidade. Já quase não conseguiam mais ver as poucas cores que os circundavam no passado, só podiam sonhar com elas e, eventualmente, escrever textos desinteressantes e dispensáveis se queixando das lâmpadas que continuavam queimadas dia após dia e relembrando o tempo em que possuíam um ao outro, e, sem saber, também o mundo.
segunda-feira, 15 de julho de 2013
Quatro pequenos fluxos amorfos
terça-feira, 2 de julho de 2013
Constelações no escuro
O que somos nós além de um sonho ao avesso? Até mesmo uma investigação pouco cuidadosa poderá dizer. Desde que estejamos dispostos a enfrentá-la. Tal investigação poderá mostrar com coerência, no fim das contas, que não somos mais nada. Mas se, por respeito ao passado, não aceitamos essa resposta, precisamos encontrar um modo de raciocinar que nos leve a concluir que ainda somos alguma coisa além de um sonho ao avesso. Para isso, precisamos paralisar o espaço-tempo. Sim, pois como poderíamos continuar intactos se o tempo está nos comendo vivos? Pois bem. Depois, precisamos aglomerar em uma vasilha todas as fatias de progresso que acumulamos mediante o sofrimento. Por exemplo, uma crise soluçante de choro madrugada adentro precisa significar alguma coisa, ainda que no fundo não signifique nada. Depois, pousamos os braços sobre a mesa e refletimos com os olhos cansados, e nada exprime melhor o tamanho do sentimento do que nosso olhar de cansaço. E as horas que continuamos cultivando como que por mágica. Olhamos para o que restou de nós em um espelho quebrado: vemos um sonho póstumo. O absurdo que paira sobre nós não é tão diferente de todos os absurdos que nos atingiram ao longo da vida. Como as mais variadas relações que enferrujaram sem motivo aparente. Não somos tão diferentes assim das outras pessoas. As pessoas começam a produzir algum efeito sobre nós quando já estão mortas, como o brilho das estrelas mortas que chega até nós com inúmeros anos-luz de atraso. Nossa maldição é que, enquanto estamos iluminados pelas estrelas, não as enxergamos. No céu mais escuro, elas se tornam mais visíveis, porque já não existem mais a não ser em formato de memória. Por isso é que continuamos brilhando, mesmo depois de mortos. Opacos, esverdeados e trêmulos, somos quase invisíveis. Mas suficientemente visíveis para sermos insuportáveis, para nós mesmos e para os outros. Mas isso tudo é tabu. A mágoa e o passado nos unem com amor. O fio que nos pendura juntos é um fio muito precioso de rancor. Depois de anos de luta atingimos uma espécie de equilíbrio. Mas é justamente ao se equilibrarem que as coisas caem. O silêncio tornou-se uma obsessão, o tempo corre desesperado como insetos pela parede. E o sonho ao avesso, o sonho ao avesso e o sonho ao avesso. A verdade é que dormimos demais ao longo desses anos, somos dorminhocos compulsivos. E ao acordar reclamamos por não termos vivido sequer uma gota durante o sono, o que é tão óbvio que chega a ser medíocre. O ar tornou-se intolerável: arfamos desesperados. O momento da salvação passou. Os dias continuam atropelando uns aos outros enquanto esperamos pacientemente, mas com alguma angústia, por um estopim, e ao mesmo tempo tememos o estopim tanto quanto tememos a morte, a morte que secretamente desejamos. Desejamos que ninguém nos veja, quando na verdade não somos mais vistos, o certo seria desejar a visibilidade. O estopim confirmaria que estamos certos, e não queremos estar certos, queremos que a verdade nos desafie. Estar certo requer responsabilidade, e somos crianças grandes, não sabemos o que fazer de nós. Somos crianças afundando em um pântano, com insetos presos em nossos cabelos. Estamos entranhados um dentro do outro, somos tão drásticos quanto a solução de que necessitamos. Tão cobertos de irrazão que já não conseguimos enxergar razão em ninguém nem nada no mundo.
sexta-feira, 24 de maio de 2013
Coisas e lembretes
Horas mofadas, passado mofado, morte em vida, silêncio de gelo, profundidade sufocante, sem respostas nem perguntas, nenhuma explicação para nenhum enigma, falta de coragem para aceitar a falta de sentido, viver por obrigação, esperar ansiosamente por melhoras súbitas, vagar sem consciência pelos cômodos, sonhar com as feridas abertas, tapar feridas com inércia e sonolência, fingir-se de planta, balançar o tronco como uma palmeira, emitir grunhidos como uma palmeira, sorrir falsamente diante dos outros, ler notícias de desastres, lamentar a própria incapacidade de acreditar em fantasmas, criar os próprios fantasmas dentro do quarto, telefonar para fantasmas, etc. Surpreender-se a cada momento com o próprio passado, aceitar o fracasso como uma bênção, pensar em cigarros e não fumá-los, pensar em pessoas e não procurá-las, pensar nas cartas por escrever e não escrevê-las, pensar na vida e não vivê-la, pensar na morte e não morrer. Refazer todo o percurso mentalmente, analisar cuidadosamente as rachaduras, trocar lâmpadas fortes pelas queimadas, desejar com força o milagre que não vem, encontrar sentido no passado, engolir memórias cáusticas, engasgar-se com o passado mal digerido, aguardar a visita de extraterrestres, comparar o próprio fracasso com o dos outros, apaixonar-se pela mesquinhez dos outros, acostumar-se com a própria mesquinhez, amar os pobres de espírito, sentir-se nauseado na presença de pessoas otimistas, esperar pelo futuro sem fazer nada, esconder-se de si próprio, sonhar com rostos inexpressivos, temer a velhice mais do que a morte, viver o caos e a mudez, respirar no escuro, superficialidade em cada atitude, silêncio aconchegante, horas e dias pela frente, mofo e promessa, palavras vazias, nada para viver ou fazer, afugentar a angústia com xícaras de chá e café.