“Look on my works, ye mighty, and despair”. Agora um sol áspero já entorta as urtigas. brota as sementes enterradas sob o sol/abre uma semente de algodão. Todas as florzinhas estão voltando. Espera-se até que se abra na frente um buraco (um caminho). O movimento da ostra é apenas pendular. Os brotos estão muito sensíveis. As mudas azuis já dominam o gramado que estufou bruscamente em direção ao céu. Mas ali no descampado, os musgos e bétulas não conseguem sequer alcançar a altura de um pequeno animal sentado. Também as fissuras no solo vulcânico trazem para o interior do sono um ou outro arbusto inutilizado, o subsolo ferve e consome raízes velhas e folhas que nasceram prematuras e tombaram com o vento. Mas aqui, ao contrário, a selva estoura com facilidade. A realidade é dura, quieta, compacta. Quantos ossos são servidos em uma pequena porção? As plantas sobram de orvalho, os caules entortam durante a noite, aparece uma flor muda, conduz pela escada com o cordão/foge dos rastros, consegue o pato para as águas, sabe estar em frente. As tiras de parede sobrevoam e colam na haste de um guarda-sol, respira com calma junto aos neurônios, seduz pelo negativo os espécimes que cintilam no escuro. Sensíveis a uma passagem maior sobre suas cabeças, pincelam os olhos com óleo quente e prosseguem até enfrentar um túnel repleto de carcaças, preciosos estímulos até o mais oco da cidade, e ainda assim deveria haver alguma calma. A ansiedade tem a consistência de um tijolo indigesto embolsado por meu estômago mole. A mortalidade brilha em cada célula de todos, presenteia as sementes enterradas com nutrientes apropriados, um espaço atinge outro e quebra dentro de si mesmo, um gigantesco animal marinho torce as membranas no interior do mar desnivelado pelo escombro. O futuro é espesso, mas atrás de uma porta. Segue por um caminho plano e sem volta. Cresce de um inferno miraculoso onde as ossadas de peixe caminham entre os transeuntes. Há ossos em minha voz? Talvez eu tenha chorado com um procedimento ambíguo? Quantos blocos de sono preenchem o espaço? Quantos quilos de extrato de malte servem para o bolo impreciso? Eu queria estar com vocês criando arestas, despencando de cisnes. Até uma hora mais cedo, sempre cuidando para não arrancar demais os dedos dos pés, cuidando para não desnivelar o terreno. Eu queria dizer, estamos todos perdidamente prontos. Estamos relativamente desesperados quando a âncora cai. Como seria possível viver no fim das contas? Pois se ela também traduz o amor dos outros para nós. Os ossos deslizam maciamente ao longo do eixo, o ar pesado sufoca as urtigas de sono. Estou com medo de alguma dependência, e apesar disso há uma porta. Seriam os outonos dos meus cabelos? Eu sou falho porque não amo suficientemente o desastre? Vou fazer todas as ligações nesse exato momento. Conquistaremos duas rotinas tristes espetadas no mural. Eu poderia me chocar contra uma estrada, uma flor, um osso, um olho. Eu adoro quando você envelhece. Apenas me desculpe por estar tão longe, então vamos girar os ponteiros. O coração ainda boia na tigela de cereal, o gato passeia pelo pátio mas não ousa subir até aqui. E não importa o quanto eu o chame, ele não pode subir até aqui. Não diga que você está atrás de uma porta. É preciso esperar por uma nova revelação ou criá-la? Pois se a boca está cheia de besouros que não voam? Simples ventos modulam o aço das estruturas do quintal, fervem caldos que evaporam, sentem expirar. ruins de sono. A abstração é uma fornalha. A resposta é depositada pelo guindaste no terreno inóspito: então aquilo aconteceu como galhos de árvore! Quais ervas travadas, apenas dissolvidas no líquido que obedece a uma continuação. Vamos girar os próximos ponteiros, as sobras estão irreconhecíveis na bandeja, certas de alguns séculos sem cores, inteiras entortando como os caules depois da janela.
terça-feira, 16 de maio de 2017
domingo, 19 de março de 2017
depois da realidade
E as vespas perdidas entre os grãos, e cada coisa acontecia atrás da porta. Todo dia era um ritual para encaixar-se como pessoa, fazer parte da natureza circundante, pertencer ao osso vivo e vibrante de cada hora. Muitas coisas poderiam ser precisamente a ostra que nosso mundo não tinha. Há inúmeras coisas como possibilidades dentro da caixa que paulatinamente trava ao ser aberta. A linguagem precisa ser retirada de dentro do osso. É preciso, ainda que o vento tenha desmanchado o telhado, chutado as calhas e estremecido a estrutura do galpão. por deus que podemos. de algum modo estar dentro da ostra, e também podemos participar. Desde que estivemos impunes por uma terra seca, na qual cada coisa acontecia atrás da porta até morrer. As plantas, por exemplo, cresciam atrás da porta até estiolar. Apenas o corpo presente era um material contra a violência. Estalando cada coisa pela ponta até o ralo. Assim o vapor seco crescia; o rosto amolecia frágil, sem sono. Sem esteiras na porta, sem a decrepitude que engatinhava. A planta de isopor crescia sobre uma folha de papel até despencar. O osso aparecia suave e sem medo. sem receios. O dia amamentava as urtigas. Ao final da tarde e com avanços múltiplos e imperceptíveis que formavam um bloco único que era a própria decadência silenciosa. Os pequenos progressos apareciam como marcas na pele que não podiam ser retiradas com a pinça. A cólica subia até o último osso da garganta, escorria das flores e encharcava a terra arenosa. Pela primeira vez estruturado como edifício, visto dos múltiplos ângulos por um olho distante. Enquanto isso “eu me divirto muito comigo mesmo e até saio no pátio”. Ali, murado e repentino, uma espécie de segredo aderia ao concreto e aos carros congelados. Nada podia estragar o momento em que as bochechas aqueciam com o vento frio senão talvez a pergunta interrompida que voltava raspando. Depois mais tarde visitava no interior do sono com patas e unhas incompreensíveis. E dormir não quebra tudo? Ou apenas rearranja o mosaico quebrado da realidade? O sono comprime a realidade rachada e o sonho pulsa as fibras desreguladas da memória. A linguagem precisa ser arrancada com os nervos, veias, ranhuras e calos inespecíficos. Abre-se a janela no escuro mais fundo da madrugada e recolhe-se o sinal fresco e salgado. Estamos absolutamente encantados com a coisa que o vento produz. Mesmo um tremor de frio é só mais uma quinquilharia no cômodo de um sonho. Somente quando aberto de madrugada, ele rompe o frio fino que esvazia. Talvez estejamos dentro de uma hora muito lamacenta. talvez o fundo do ralo seja só um espelho que resiste. talvez o que esteja depositado em um prato raso rachado seja a opção mais simplória de um projeto que não deu certo. Assim, cada parte resiste sem conseguir abrir ou brotar. Talvez nem mesmo o pequeno urso seja a ostra? A roda gira novamente em sentido contrário, mas dessa vez impulsionada apenas pelos olhos parados na pedra. Cada grão de arroz da tigela é retirado em câmera lenta. uma vespa entre os grãos sente um esmorecimento. “não vai dormir não, morceguinho?”. Talvez a tampa do fundo lamacento queira saltar de vez. A dor nos ossos agora é macia e não corrói. O corpo morto também é material contra violência? Individuado, marcado em cada poro, sem esquecimentos. protegidos do desamparo. Seria assim depois de milênios sem cor, seria assim também sem identificar a cor dos milênios gotejando em silêncio por um cano da tubulação. Camas que nos desapontam e adoecem com o peso. Os anos passam atravessando e rasgando uns aos outros. Os ossos pulverizados são depositados na bandeja de plástico descartável. Olhos claros ou escuros observarão a urna até que eles mesmos sejam pulverizados sem constrangimentos. Tão somente os olhos amarelos – sempre vivos de sono e ternura – resistem depois da realidade. entram em uma espécie de casa, levantam o sol pela manhã, deitam e dormem sobre as plantas no vaso.
sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017
Um pesadelo e depois
Quantas coisas mortas caíram aqui alguma vez? Quais coisas serão ditas aos poucos? Quantas horas já são passado? Então. No dia seguinte recebemos uma desagradável visita dentro do sonho inofensivo. E ali capturam/acordamos em sobressalto. Passamos o dia inteiro com palpitações. Dói cada osso dentro da barriga. Resfria, espera e apaga. Príncipes todos sentados, esperando por uma resposta. Os gelos são coisas abertamente amassadas. Todas as ostras estão rosnando. Ao se contorcerem líquidas e grudentas, apontam para o tempo esvaziado que não recebeu um recheio apropriado para crescer. Muito além disso, a cartela de remédios vazia também denuncia a semana que esvaziou em um átimo de segundo. Quantas ostras estavam dentro de um pasto? Ao nos receberem na porta, eles olharam macios, calmos e receptivos. Eles não precisavam de nós. Na casa enorme, vigas de madeira sustentavam a festa inútil. Todos os parentes rodando como vespas sanguinárias, atraídos pelo cheiro do fracasso ou pela falta de sentido dos ossos? Rodando como animais, sorrindo e não farejando o abismo, eles mal percebiam que ali na fenda do mezanino era o abismo propriamente dito que acontecia. Cada um olhava e dizia nada por qualquer canto que passasse. Lá em cima estavam os três bastante ocupados com suas próprias travessuras. eles não precisavam de nós. Uma dor nos ossos já antiga mas estranhamente colérica e elétrica voltou. Um pardal pousou no travesseiro molhado e caiu em cima. Quantos havia ali dentro? Era uma festa de aniversário simplesmente? Andávamos sem rumo e ninguém percebia. Ninguém percebia uma hora marcada aberta ou fechada sem extrações. Sem areia no pátio. Sem nódulos crescendo nos vasos. Cada coisa inspira um poste que poderia descer sonoro, ainda que não valha a pena para nada. Como as duas avelãs enterradas na tigela de cereal. Era a festa de aniversário que perdemos e que de outro modo fomos obrigados a participar. Voltou em sobressalto, estourou em cada cômodo da casa, pelas vigas de madeira, conversas agitadas, todos sentados ouvindo e olhando na televisão. Eles não pressentiam o desastre? Por que estavam todos ali? Pois se estávamos apegados a uma falsidade constrangedora... Não se deve admirar alguém que só confirma falsamente. Pois sim. Assim que se é. Todas as ostras de uma vez só. Mas quando for chegada a hora – então. Afinal, se de outro planeta entrassem em contato conosco, responderíamos no mesmo instante? Ou demoraria anos e séculos até que apenas uma nuvem de poeira seca trouxesse o som surgido das bocas mortas? Afinal, as coisas só foram boas porque existiram(?). Quantas horas (no total) já são passado? Apenas desfaça os nódulos, arranque as pontas do cordão, traga de novo um feixe de luz e cubra de terra as urtigas. Existe algo que poderia ser revertido? Para que pudéssemos ver a festa de aniversário na televisão, sem comparecer? Ou o que? Uma concha pode ser recheada com todo o assombro e colocada no forno até esturricar. Não há mais nada que se possa fazer, pois, com essa quantidade de assombro, a única opção é rechear a concha e assar até esturricar. Traga também as palmeiras e fatie uma a uma. Espalhe por cima o cascalho sombrio, seco e sincero. Ninguém está aqui. O que acontecia lá em cima para qual não fomos convidados? Uma festa dentro de outra festa? O que acontecia até existir? As malditas ostras sumiram com o cuidado. Quantas lembranças existem que poderiam ser convertidas em qualquer coisa? Ou apenas em um cuidado suave? Todo morcego baixa. Vamos deixar as coisas mais afastadas do centro. É tão frio que talvez esteja vindo o cometa? Horas frias recobrem cada um dos cadáveres e esperam. Em todo tempo decorrido até agora, cada coisa caía no momento em que era empurrada até em cima para ficar. Agora não existe. Amedrontados por termos recebido deles a mesma indiferença que demos a nós mesmos. Nossas vozes sequer conseguiam competir umas com as outras. Em outro sonho, porém, toma-se o táxi em vez do carro, e qual o propósito? Não se sabe. E não é passado. Agora o passado é só a ponta apagada de um sonho.
E depois. Recuperando-se aos poucos, guardando cada coisa em um bolso diferente. Quantas coisas mortas caíram alguma vez aqui? Então a lembrança foi diluída e desativada e o pequeno urso apareceu saltando. Ele trouxe consigo um bolo macio que dividimos ao longo de dias/esperou com um pequeno rosto redondo durante noites sem cessar. Um mar rosa espumou e apareceu. Você me olha e sabe? O que houve foi apenas um assombro? Se foi mesmo, rimos desesperados até cair no sono e roncar. Os processos estão desorganizados. Me ajude a tirar a coisa com a pinça. Ajude a desorganizar cada fatia arranjada. Para que possamos sentar no caos sem cerimônia. Cada pedaço quebrado de vida é preciso amar. Mas por favor, utilize a pinça para tirar cada coisa do lugar. Depois o mar chegou até aqui. Me ajude a desorganizar os blocos cinzentos que empilhei ao longo de anos/desorganize e me ajude a chegar a lugar nenhum. Me ajude a desviar de meu caminho, me ajude a me perder com cuidado e paciência. Agora rodando com outras frações de tempo. Suspirando devagar. Cuidando para que as horas voem vagarosamente para que possamos enquadrá-las uma a uma até sentir. “Virgínia parava um instante para que não acontecesse ter confiança demais e avançar”. Alguém mais está aqui. É preciso não cobrir de palavras as coisas para não contaminá-las. O que levaremos de presente além de um vidro de crisântemos em conserva? Não importa. Deixamos o tempo aberto em todas as pontas para não esvaziar. Algumas horas (ainda) não são passado. É preciso lembrar de não colocá-las junto na conserva para não impedi-las de brotar, e de romper o fio fino que recobre a malha presa aos ossos para que também o diafragma possa inflar novamente e alimentar as horas por mais alguns anos, e assim por diante.
sábado, 7 de janeiro de 2017
outros resíduos
Ele não poderia estar mais errado. O que está agora. Outro estava atrás, sequer falava, as pedras suspeitavam. Assim está, e dentro de um mês ou alguns meses ou anos as coisas congelam, os arbustos congelam, os olhos congelam, uma ostra sofre comprimida no osso largo, um espírito volta e congela. Antes as coisas preenchiam quase que totalmente o circuito macio, e cada segundo que fosse tomado para uma respiração poderia ser enchido de vida até o fim, até quase romper. Ao expelir coisas que não poderiam existir de outra forma, só assim um rosto poderia morrer. E continua sendo. Com as orelhas atentas eles escutam os sinos incompreensíveis, antigas poças de sangue já seco, ríspidos os pássaros apreciam um congelamento, o meteoro desce e pousa na almofada. O que vem depois? Apenas horas que enxugam as horas de antes, e a insignificância de um inseto. Conforme a pedra, “em meu reino as coisas mofam”, escorre o líquido e apaga. E não há nada que não possa ser revertido, flores choram lágrimas azuis de sono. Olham as conchas na parede, trancados em casa e com a neve grudando no asfalto, sendo que nunca houve esses olhos sobre nós. O olho não transmite uma coisa, é preciso enriquecer as coisas desse ponto em diante. As paredes estão tão magras, o recheio dos dias é seco e quebradiço, e se nada for feito, esse é o único veículo para uma sobrevida um pouco menos achatada. Entramos e o ar pesa tanto que enfraquece a estrutura das urtigas. Estamos encaixados no interior do veículo, observando o abismo que se forma ao longo da cadeia. Ao lado passa um vento quase colado à paisagem, cada fatia de concreto forma na verdade uma única figura legível na qual estamos encaixados apenas nesse momento, apenas durante esse momento, e logo não mais. Aqui também durante o sono os gatos amenizam sobremaneira a travessia, mas quando ele nos olha deitado, o olho que umedece é o nosso. estamos profundamente abatidos com o sono que a terra escura e fria forma e com a umidade que escapa rapidamente da atmosfera levando consigo todo conteúdo que estava prestes a se formar dentro do dia. E então é noite e no sono os gatos não apenas ronronam, mas também respondem e caminham lado a lado antes de desaparecer. Aprendemos com eles a continuar em linha reta até desaparecer. Essa é a chave para o enigma que na verdade não existe. Como as coisas transcorrem, elas olham para o abismo e logo depois passa para outro instante. Os instantes se sobrepõem. Já é possível respirar e decifrar um pedaço amargo do enigma: ele não é a ostra. sim, felizmente ele não é a ostra, e a ostra ainda existe. Pois sim, agradavelmente somos estufados e esturricados de sangue e ossos e não rimos até desaparecer. Mas essa é a recuperação apropriada. Ele não é a ostra. Não teria sido possível chegar até aqui sem uma palavra, não seria possível acessar uma floresta ou um vale espumado, de jeito nenhum. Aprendemos a amar e a olhar as pessoas como quem olha e ama. Os pulmões sofrem um pouco e quase derretem com as horas. E também, em um momento que não conseguimos viver não há qualquer desespero, apenas encontramos outra coisa para fazer no lugar. Não há nada que não seja dado com o órgão que semeia e recolhe. Não damos as ordens, não completamos as horas. Até que se veja um oceano mais longo até o fim. Se não houvesse mais nada, não estaríamos aqui. Pela força intrínseca cada palavra sai aleatoriamente. Não se trata meramente de encontrar um lugar para deitar e morrer. Vamos todos de agora em diante romper pacientemente o filtro das horas sem qualquer desespero. O dia floresce. O dia não existe. A ponte atravessada sobre dois pontos fixos, rompemos e não sabemos ainda como existir, tudo o que existe é indeterminado? Florescem coisas em nossos ombros. Um arrepio ecoa até uma distância cósmica. E nem existe vento algum, só uma corrente de ar que atravessa com hora marcada, um fio que não existe e nem está aqui. Não existe nenhuma hora dentro do dia porque ninguém está aqui. Apodrecemos nas correntes mais largas, sempre na direção correta. Teremos de velá-los para que eles nos velem depois. Blocos de carne em processo de envelhecimento, coisa com olhos virados, apropriadamente com sombras nos cabelos, outros espécimes correndo sem muito sinal, outros que não entendem e sequer sabem se faz sentido existir, mas é um alívio quando os minutos não meramente passam, mas conseguem também encher um copo ou uma janela ou até mesmo um prato fundo rachado. Não existe isso, vamos retroceder e chegar mais tarde. Vamos esperar que um rosto olhe e imprima um sinal enigmático, é diferente que alguém não esteja aqui sentado olhando, confirmando, esquecendo, desaparecendo também. Há palavras para completar e viver, palavras áridas que não enchem barriga de ninguém. O corpo todo em sua materialidade não chega até a ponta de uma palavra, não atravessa uma ponte qualquer. Não se retira do osso qualquer coisa fácil apenas para dissolver dentro do purê e esquentar. Não. Entretanto, assim que uma palavra é colocada sobre a mesa, substitui-se os talheres por palitos de fósforo e o guardanapo por uma folha morta já prestes a evaporar. O lustre sobre a mesa se transforma em um pêndulo irreconhecível, e não há respiração que não esteja grudada em um monumento maior. Mas é cedo demais e isso não pode ser consertado. A flor cai e esmaga. Eles estão marchando. Eles sabem reviver e assinar o osso em forma de qualquer coisa. Não há tantas peles macias assim, nem coisas que sobrevivam por muito tempo a um bloco pesado de flores. Não há nada encostado na parede. Estamos guardados apropriadamente dentro do passado. Quantas mudas de urtiga existem aqui? Não se sabe. O que resiste nas coisas e depois diminui sem cessar. Depois os cistos crescem e rompem a camada da superfície da pele, excedem seu próprio limite. Os minutos cortados de pólvora, corpos mutilados são abandonados no local. A pele descola em desespero, escapa dali de dentro a mensagem não surgida. Nada consegue fazer sentido de uma vez só. Mas ao grudar uma peça na outra, o quebra-cabeça apresenta um sentido descascado que é melhor que coisa alguma. O osso quebra, a pedra falha. Ele morreu por nós e está lá grudado. Um vento sinistro de algum lugar, a nuvem também é um peso, a flor cai e esmaga. Quem está morto e grudado simplesmente não pode sair. Ainda que uma ostra saia e olhe, ela não vê mais que o contorno da porta empoeirada. Não há tempo suficiente nem mesmo para parafusar uma pedra na parede. Ele morreu por nós e está grudado. Aqui apenas sobrevive aquele que corre e apaga. Cada cogumelo que brota é recoberto pela umidade que escorre da parede. O dia hoje ressurge muito esfarelado, e eu não sei quantas horas restam até o próximo túnel. Cada faca esconde uma fatia de pele cortada. O vazio precisa ser preenchido com algum tipo de fumaça. Encomendamos um trabalho delicado para cobrir com ossos e conchas o vazio exposto. As sombras caem em um movimento sem partida e sem rachadura, as cinzas são depositadas sob uma árvore de tronco espesso. E assim é. Ele não poderia estar mais certo. E ele esteve certo durante esse tempo todo. A venda foi retirada de nossos olhos. Ele esteve certo esse tempo todo e não pôde dizer. Abrimos todas as pontas do dia escuro sem perguntar nada a ninguém.
terça-feira, 6 de dezembro de 2016
resíduo mnemônico
Eu tenho pena que exista uma pequena ostra sentada. E que as coisas estejam dissolvidas em um vácuo qualquer. E que os azuis estejam abertos, e que não exista mais nada. é azul. uma pequena solidão alveolada, estufada, macia e velha. São pequenas ostrinhas que atravessam o julgamento prematuro. Ali dói cada pedaço mínimo, cada fatia enrolada ou partida, cada coisa amanteigada como uma flor, etc. E como as coisas se movem. Elas poderiam ir e poderiam ser, sem esperar, elas poderiam depositar o próprio crânio na bandeja. E uma constelação até poderia ser a ostra maior. E as últimas horas amenizariam todas as outras, a corda se formaria e fecharia no fim. E ao menos se não houvesse mais nada, e ninguém mais tremulasse nas condições atmosféricas extremas, então.
quarta-feira, 2 de novembro de 2016
nota no.3
vida aérea
o quanto você quer, me diga, com frio na
barriga, proclamar norte onde seu nariz aponte,
se livrar do que não interessa, com força, abrir
a cabeça, meter pés pelas mãos, com pressa, não
importa, sentar no escombro ombro a ombro com a
obra, me diga me diga, com frio na barriga,
quanto tempo perdido, quantos reais no bolso,
quantos livros não lidos, quantos minutos de
espera, quantos dentes cariados, me diga o
quanto você quer isso tudo
e para onde quer que envie,
se você quer que embrulhe
Angélica Freitas
sexta-feira, 16 de setembro de 2016
ostracismo nº1
É muito solitário. A coleta dos pequenos animaizinhos que agonizam, as memórias abstratas que não coincidem com nada, a travessia percorrida sem cessar. Que bom que algumas ostras são trazidas para dentro do ombro, e as outras se desmancham na maré. O que traz para dentro da ostra a possibilidade de um pequeno desastre? A ostra no colo está devidamente enxugada, é claro? Guardamos pacientemente todas elas nas caixinhas, que serão veladas pelos fantasmas que moram no quintal. Olhe para os fantasmas, e cada rosto está em branco. Quando o eco vaza e desestabiliza a atmosfera nauseante, então esse acontecimento é absolutamente real. Mas quando uma ostra rosna dentro de alguma das pequenas caixinhas, é só resquício de um sonho ruim. Não há razão para lamentar ou sofrer. São só ostras trêmulas dentro de caixinhas, como nós mesmos no interior de uma morte. Por qual poro podemos sair? Digam-nos, apontem-nos a saída. E desde que haja uma saída, eu pago o que for preciso, por isso digam a ela. É preciso que se dê o recado. Se formos cuidadosos, então. Eventualmente, uma raiz branca brota com violência. Aqui a cobertura tem a textura de uma planta porosa. Sem sequer respirar, as células tremem e quase implodem. A respiração é agradável, incômoda e finita. Cada ostra tem um pequeno talo que não precisa ser retirado. Nenhuma memória coincide com nada. Basta que se puxe o talo da ostra pelo avesso, pois invertidas elas ocupam completamente o espaço sem que se precise adicionar coisas ou acontecimentos ou pessoas como acompanhamento, é uma tranquilidade.
segunda-feira, 22 de agosto de 2016
nota no.2
All we're ever looking for is another open door
All we ever look for, another womb
All we ever look for, our own tomb
All we ever look for, ooh, la lune
All we ever look for, a little bit of you, too
All we ever look for,
But we never do score.
All we ever look for, a god
All we ever look for, oh, a drug
All we ever look for, a great big hug
All we ever look for, a little bit of you
All we ever look for, a little bit of you, too
All we ever look for,
But we never do score.
domingo, 10 de julho de 2016
O bolo para a mariposa
Ele, quando olha em silêncio, não diz. A respiração é só um detalhe. O rosto se forma em massa mole pronta para ir ao forno. Olhar fixo e absorto, as favas de baunilha presas ao cabelo. Os dedos cobertos com coisas. As bromélias estufadas, os resíduos espumados, os dias exaustivos, os metais pesados, os espessantes e edulcorantes que são a malha que recobre o tecido longo e desbotado da ostra oval. Tudo é o mise en place do bolo que deverá ser entregue à mariposa em troca da verdade que já possuímos e não podemos desativar. Um cardume se desloca. Pensa: no mundo exato as pessoas poderiam fugir sem se desesperar. O ar escuro desorganiza os processos racionais. O cardume está precisamente depositado dentro da bandeja, junto aos ingredientes: uma planta-ovo retirada com cuidado de seu milímetro quadrado no campo de lavoura, os besouros azuis, a cobertura verde das folhas maduras, a infusão dos ossos que espera para amornar, o fundo de ostra que preparamos há oito meses e congelamos para que durasse até essa ocasião. Estamos diante de uma tarefa árdua, quase como um preparo minucioso. O sal precisa ser pacientemente adicionado. O peito inteiro, quando dói, o diafragma abre e um fragmento de mar frita as urtigas sem sal algum. Ainda que o sal escorra da montanha? Não há sal algum que escorra incólume. Um inseto preso com um prego, as plaquetas que implodem simplesmente, sem sequer perguntar. Juntamos as pedras no lugar dos olhos e não olhamos para uma ponte que ainda se estende, quando uma coisa excelente como esse plano minucioso é colocada na pedra e batida até espasmar. Rosas planas sopram das pontas, nada acontece sem que tenha sido dada uma ordem para acontecer. Por isso esse escambo doce com a mariposa deve ser documentado. A hora range como uma porta, mas uma ou duas horas mais tarde não deve fazer diferença. Olhamos as instruções claras no livro de receitas: é preciso de dois a quatro infernos para criar uma massa úmida de um bolo. A quantidade obtida é suficiente. O único que poderia carregar uma flor silenciou por cinco dias. Fizemos a jornada triunfal e depois mais cruzamos um pequeno oceano até chegar ali onde os romanescos eram depositados nos pratos que colocávamos na bandeja. E assim aconteceu. Até que voltamos dentro de um verão escaldante, cheios de milhões de coisas para contar. Contamos para a cotovia, para o bem-te-vi e para o pardal. Por medo do colapso, a atmosfera foi reduzida a um mínimo insignificante, até colapsar. Ao inseto que voava foi ordenado que se sentasse e comesse quieto. Cada nuvem era um dia em si mesmo que não acontecia. Agora batemos o creme de claras e, se tudo sair como planejado, então o dia não será mais o que é, e será possível descansar. Ainda bem que o dia aqui não está mais existindo, e nem depois. Olha-se o jornal e está escrito: “Crânios de criaturas desconhecidas são encontrados em maletas”. Mais nada. Isso no primeiro dia, e no segundo dia já não aconteceu algo que alterasse alguma coisa. Quando o primeiro se foi, as flores ainda estavam de molho por pouco tempo, a água ainda era pálida e insípida. Quando o segundo se foi, a casa escorrida em cimento bruto. Quando o terceiro se foi – então. Agora as pessoas podem salvar umas às outras. A verdade precisa ser desativada. O bolo deve assar uniformemente enquanto o fundo de ostra reduz na panela. Iniciamos um procedimento estritamente pragmático de um amontoado de leituras que se somam e produzem um incômodo diário e uma mobilização quase sistemática. E então, no passo seguinte, todo planejamento racional se choca com sua própria impossibilidade. E enquanto planejamos a matéria porosa dos próprios dias, a mariposa enfim chega e aguarda calmamente a entrega da encomenda que estufa no forno até secar. As palavras se organizam urgentes diante da coisa, que não acende nem apaga. Depois da ponte não há nada, as pontes adiante uma após outra marcam o intervalo da rodovia, o instante em que os carros ultrapassam uma barreira que está dada intuitivamente. A mariposa olha fixamente e não treme. Ela pede uma vasilha de flores para guardar os pés e ordena que se feche as janelas para estancar o vento. Isso até poderia chegar a ser uma pista, pois quando a mariposa olha cansada, ela revela as cifras daquele que nos desativou. E quando a mariposa carrega um ímã, ela própria se desmagnetiza. Muitos deles já estão compreendendo o esquema, eles não aprovam qualquer um. E ela também. As horas caem de uma vez só e se espatifam pelo chão. Olhamos envergonhados sem nem conseguir olhar. Os desenhos guardados na estante dentro de uma memória morna. O fundo de ostra está pronto para cobrir o bolo. O vento paralisa na face externa do vidro da janela, as bromélias não conseguem entrar. Dormimos assustados com a profundidade que o próprio sono alcança, até que o sono é perturbado pela ostra que rosna enquanto dorme, e acordamos. Cortamos os cachos de luz nos cabelos, retiramos a tampa da caixa craniana. O que houve? Tudo aconteceu como deveria acontecer, e a proteção permitiu que, depois de uma cobertura imensa de palavras sobrepostas, as coisas pudessem despencar dentro da caixa que construímos para adentrar e viver. O sono chega novamente, e dessa vez dormimos em virtude dos espasmos, e não a despeito deles. O dia atinge seu máximo – que na verdade é também seu mínimo. A mariposa espera sentada, cansada de esperar. Uma solidão pequena se esconde nos alvéolos de uma levedura na parede. O mofo estufa e os musgos espalham-se sobre a mesa e inclusive no vidro da janela. O dia está tão alto que chega a estar baixo. Entreguem a ela de uma vez! A mariposa espera na portaria: pálida, calma, altiva, grande como um pardal empalhado. O vento para pela segunda vez. O dia está guardado em local inespecífico. Ela se transforma, pouco a pouco, em uma árvore (aviso: se ela for, iremos com ela). Olhe para o meteoro que vem nos buscar (a mariposa já quer ir embora, mas não deixamos). Retiramos a cobertura de musgos com um boleador: forma-se uma bola de sorvete azulada que cobre as extremidades do bolo todo áspero, salgado, frio, insosso, oleoso e azul (a mariposa devolverá sem hesitar!). Nem a melhor cobertura de manteiga rançosa e rosas poderia remediar. É preciso um bolo melhor. Olha-se por todo canto. O que há aqui além de espinhas de peixes utilizados no cozimento da massa? Sim, e as batatas antigas que murcham e perdem umidade para o ar que também perde umidade para a atmosfera que pulveriza a umidade e permanece intacta, assim como deve ser e assim por diante. Melhor seria um bolo de flores para uma mariposa cansada, isso com certeza sim. Não há mais volta, mantemos a postura e não transparecemos o abismo. Estufamos o diafragma para fingir que ainda estamos respirando – todo choque aqui pode ser fatal. O bolo é entregue à mariposa morta de tanto esperar. Quieta, ela olha e sequer abre um olho ao dizer. E sequer espera por um aro que encaixe para poder dizer (nenhum aro encaixa, jamais). A mariposa abre a boca escura e sussurra em dialeto morto. Cai um olho da ostra e escorre. O dia treme em todas as extremidades. Por deus do céu, que conselho medíocre o da mariposa. Quando olhamos inconsolados e repetimos a pergunta, ela nos entrega a verdade duplicada. Após o bolo ser entregue, o caminho sinuoso que, passando pelas peras, o rochedo. Até o fim da caverna para sepultar a ossada do cardume utilizado. Qual o tamanho do vazio? Antes de ir embora a mariposa nos ajuda, segurando uma fita métrica rasgada, a medir o tamanho do vazio. Ela tem pressa, mas é solícita. Depois disso, macia e enigmática, ela guarda o bolo insosso. A conversa final com a mariposa também é insossa. Desdobra-se o corpo da mariposa em pequenas e suaves folhas opacas que vão cobrir os blocos de nosso corpo morto. Agradecemos a todos os fantasmas por esperar – escorre uma lágrima de um pequeno fantasma filhote. O vazio é totalidade sem tamanho, essa é a obviedade que toda palavra carrega consigo sem saber. O dia continua exaustivo sem cessar.
segunda-feira, 13 de junho de 2016
memento mori
Cada mofo levanta pouco a pouco para compor a mesa
Tudo o que existe é monádico e robotizado
morremos pela repetição mítica
Os damascos devem ser rastreados sob um mar
O passado é só um papel fino e embolorado
que se come com manteiga
nada pode ser mais ou menos seu próprio oposto
Fragmentos cortam as auréolas tortas
enquanto tento cortar o açúcar do café
domingo, 8 de novembro de 2015
Sob um mar
Sopraste com o teu vento, e o mar
os cobriu; afundaram-se como
chumbo em volumosas águas.
Êxodo 15:10
Em primeiro lugar, trêmulos estão os lustres sob as águas geladas, estorricados e quebradiços apesar da umidade excessiva. Em segundo lugar, a grande ostra ralada próxima ao poste marinho. Em terceiro lugar, a noite insossa e disforme sobre o mar. Em quarto lugar, a falta de preenchimento dentro dos ossos. Iniciamos enfim.
Dentro de um mar gradativamente mais ácido pisamos na saliência de um pequeno rombo dentro da profundidade terrificante. Perdidos no interior das algas. Sem referências, sem perspectivas e sem sonolências. Rompendo películas imperceptíveis/sugando a seiva de árvores subaquáticas. Imploramos para que outras ostras nos olhem e realizem o procedimento adequado, que é o mínimo de expressão dentro do mar. Dentro de uma escuridão atemporal e vazia – a porosidade do mar é causada pelo próprio sal que coagula na superfície (perdoem-nos o excesso de cientificidade). O sal dissolve nossos calcanhares, o rosto pregado num ponto excessivo, os rins que boiam como esponjas quase gelatinosas. Naquela escuridão infinita de um mar acoplado na base da noite, continuamos a penosa coleção de ossos enquanto os alvéolos espasmam com a falta de oxigenação apropriada. As estátuas fincadas no solo marinho olham com ternura para o miolo da escuridão. Por vezes uma coreografia de microrganismos/raramente um feixe de luminosidade faz imaginar que, de algum lugar do solo, um tufo de areia pode bruscamente saltar e descobrir coisas vivas e escuras. Enrolam-se precisas nos calcanhares as algas, pois desconhecem suas próprias razões. Elas pressentem o rombo suave junto ao príncipe de uma velha imensidão (quase) concisa. E não há nada a ser feito a respeito. Primeiramente olhamos como quem não reconhece nada além de uma neblina formada pelo deslocamento dos cardumes. As gotículas que formam uma nuvem dentro das águas e a dificuldade de enxergar sem uma ostra sequer para encaixar nos olhos. Perguntamos a alguém que tenha de sobra uma ostra em cada olho se seria possível emprestar-nos uma para grudarmos no nosso. Dentro do escuro. As coisas passam a compor um silêncio em que os pequenos cristais tremelicosos do lustre emudecem e turvam nossa travessia para baixo. Na cavidade imprecisa nada consegue ser confortável. Não há absolutamente ninguém aqui agora, nem nós mesmos. Há coisas que são pequenas ratoeiras, perdidas no espaço. Se não fosse o mar, dunas de poeira cobririam as palavras não vistas e os olhos. Alguém um dia vai ouvir o grito das ostras? Sempre tão empoeiradas e vestidas com a mesma ossatura, ninguém suspeita de nada. Pensam alguns que se trata de umidade e poeira calcificada, e nada mais. Mas assim como uma nuvem microscópica não é só uma nuvem, um fundo de ostra também não é só um fundo. Em todo caso, melhor romper enquanto sentamos na varanda e sentimos o peso dos raios descendo até a copa das árvores. No fundo mais inóspito do mar é que a regressão encontra uma flor e aparecemos com as costas arqueadas e as pupilas dilatadas recordando o rosto vermelho e olhos úmidos sem comoção. Diante do monstro sagrado que consumiu o tempo: rosto vermelho e sangue que escorre de lábios murchos, sem nenhuma razão. Até quando as coisas estarão fora de nós para observarmos? Um sentimento feito de isopor, incompreensível e levemente dolorido, manchado de líquidos antigos. Esperamos a guerra no asfalto sem rir e sem chorar. Sem um padrão de medida definido, como medir as coisas? Como comparar a efetividade com a ideia? Como avaliar a palidez das horas, como julgar a falta de fundamento dentro do mar? Pois se dentro da fossa submarina a distância de uma ponta a outra não pode ser calculada, já que sequer existe uma ponta ou outra. O índice da profundidade é só ela mesma. Ali dentro, o mar perde uma localização concreta: quantos palmos existem para esquerda? para cima? para baixo? para trás? não se sabe. O ponto não é localizável, e quem ali se encontra sabe que nem o fundo nem a superfície são localizáveis. Pode-se tatear sem pressa através de um corredor imaginário, e ainda assim não se chega ao fundo, nem à superfície, nem a um canto encaixado a uma caverna ou a uma fossa abissal. Para um animal marinho gigantesco, pode-se dizer que é uma liberdade poder movimentar-se sem reservas e sem mover um fio áspero sequer ligado a uma ostra. Para nós, a ausência de padrão de medida paralisa o movimento. Se ao menos chegássemos ao fundo, poderíamos ter a certeza do caminho a ser tomado então: o de volta. Não há sustentação, porém. E nem uma sustentação invertida: um teto que nos impeça de subir ou uma parede na qual possamos bater o nariz. A liberdade coincide com uma falsa liberdade delirante. Ela é apenas a distorção esfumaçada de uma vida em que cada osso estaria encaixado no lugar em que deveria estar. Mas sob um mar o rosto chega a aparecer e então o colapso conduz ao esquecimento, e é preciso esquecer. Viver é sempre artificial/estar grudado ao canto morno da parede. Sentir o ar correr sem mistérios e não entender como pode um ar correr sem mistérios, e não entender como não é possível entender que um ar corra sem mistérios, e então pegar esse bloco inteiro e aplicar a ele seu próprio raciocínio: não se pode entender que. Após a operação completa, o resultado é: "não se pode entender que". E se rompemos a operação e descartamos todo pensamento, o resultado é: "não se pode entender que". De qualquer ponto que se parta, o resultado é sempre o mesmo. Rimos tanto que nossos dentes caem e os perdemos sob um mar. Assim, com tinta de lula escrevemos os caracteres incompreensíveis que compõem o padrão de medida. Mas pedimos em silêncio para que nos ajudem. Ajudem-nos a untar os lustres com óleo oxidado, ajudem-nos a filtrar a água macia onde as ostras morreram de inanição! Temos de fazer algo para acalmar os nervos e nutrir as pequenas crateras que tremulam: embalar ostras em alto mar, descascar nozes até o fim dos tempos, etc. Para os espelhos da noite, o corpo envelhece mais rápido e por vezes até some. Uma nova escolha pode determinar que nos próximos tempos uma flor brote suave de cada poro. Uma alegria funda pode também brotar de cada poro. A oleosidade do lustre quase se deixa escapar. Desconstruímos o rosto mole: as bochechas fartas deixamos amortecendo no balde com gelo. Os olhos são cuidadosamente espetados em arames e funcionam como brincos tímidos. O olhar difuso dos olhos teve de ser descartado para não deixar o prato intragável. A testa trêmula não tem função. As pálpebras se desfazem suavemente e perfumam as horas que continuam a passar para os outros. Com o conhecimento técnico adequado as orelhas estão marinando no caldo de alecrim e papoulas. O peito é fraco e seco, precisa de catorze dias para absorver o tempero. Nada pode sair dos eixos precisos. Olhem e se desesperem: como poderíamos interferir? Viajando centenas de milhares de quilômetros apenas para entregar-lhes uma caixa de ostras carameladas? não é possível. É aqui que não devemos ficar. Mas eles ririam, eles ririam tanto! Seríamos suaves... e inclusive a chuva, que gostaria de cair agora, deixaria para cair mais tarde. Soltaríamos rojões pelo céu de ventos calmos. Enquanto eles seguram nossa mão, lembramos daquela tarde lacônica: distraídos partíamos o crânio em partes menores para facilitar o derretimento no purê. O cérebro era vivo e brilhante, ainda que morto. Distribuíamos as fatias pelos pratos conforme a necessidade e o merecimento. Os lábios rachados foram para o monstro que soube parti-los (sabíamos que ele ficaria muito feliz em emoldurá-los e pendurá-los na melhor parede que pudesse encontrar). Fomos até a horta e trouxemos um punhado de flores azuis que maceramos junto com o sangue antigo/escorreu um óleo rançoso que tivemos de despejar nas hortênsias que não existem. Hoje é outro dia e também não existe. Aliás, o dia de hoje já está bem mais envelhecido que um fóssil, e isso eles não puderam chegar a saber. Segue o jantar em fervura: duas folhas verdes pesadas cobrem o fundo do prato. E o acompanhamento suave: uma lata de crisântemos em conserva? deus do céu... (os túneis dentro do silêncio se desmancham pouco a pouco. Um por um, os resquícios de conforto se dissolvem, uma lua que reflete no mar se expande noite adentro). Quantos dias esperamos por eles? dias? horas? anos? O silêncio é índice da infinitude. Mas um dia teremos de morrer. Não entendemos quem são eles. E nem a razão pela qual eles vêm nos buscar antes que a madrugada esteja adequadamente consolidada. Suas mãos tão geladas paradoxalmente só conseguem amornar as nossas. Colocamos o ponto final no fim de uma janela. De cujos vincos caem grãos de poeira pulverizados que colam no rosto úmido e são pequenos absurdos – como tantos outros. Não há eixos, nunca houve. Cada ostra dentro de cada olho eu amo tanto. Alegremente eles vão tomar tudo o que é nosso no interior da casa, tudo o que velho e inútil, porém nosso. Eles vão borbulhar no mais escuro da noite, vão tomar para eles os olhos avermelhados que outrora piscavam como um grilo vivo.
Em primeiro lugar, trêmulos estão os lustres sob as águas geladas, estorricados e quebradiços apesar da umidade excessiva. Em segundo lugar, a grande ostra ralada próxima ao poste marinho. Em terceiro lugar, a noite insossa e disforme sobre o mar. Em quarto lugar, a falta de preenchimento dentro de um osso.
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quarta-feira, 7 de outubro de 2015
nota no.1
O pequeno cálice, o som em meu umbigo, o som, o cálice vibrante continua a soar por muitos dias. Quando afinal as vibrações esmaecem, há uma presença em mim, uma presença. Algo semelhante a um besouro, não, a uma aranha de movimentos lentos. Logo não é mais uma aranha e sim um pássaro de asas curtas, sem bico, os pés cortados, um pássaro cinzento, mais tarde um peixe quadrúpede, aflito e inquieto, nadando com esforço em meu útero verde. Abro a janela e os olhos do peixe se iluminam, choro e o peixe entristece, tenho sono?, adormece, corro e suas pernas se agitam, assusto-me e ele se encolhe, alegro-me e as suas escamas resplandecem. Sem que eu saiba, há em mim uma cisão, de mim mesma estou nascendo, invado-me. Já não é um peixe, mas um cão, um cão ornado de plumas, com grandes barbatanas, que me ocupa. Tem pés e mãos. Às vezes estende a perna, com o pé fura-me o ventre, o baço, eu me contorço de dor. Ergue o punho e me fere o coração, atravessa-o: surgem manchas roxas no meu corpo. Lambe-me a garganta e eu vomito. Ligo tudo isto, aturdida, à ave que desce sobre meu ventre e, muitas vezes, muitas, sondo as nuvens. Mas a ave não volta, nunca mais, nunca, não reaparece.
Osman Lins /
Avalovara
quarta-feira, 9 de setembro de 2015
pergunta
Quem são as nuvens microscópicas que cabem dentro de um sonho?
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Que de longe parecem moscas,
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sábado, 29 de agosto de 2015
En cendres
Cada dia em que começamos a existir, a radiação eletromagnética é inutilmente duplicada e atravessa nossos corpos de uma ponta até outra. Se a roda gira em sentido contrário, então por aqui não podemos passar. O rio está empedrado, cristalizado e morto. O teto está todo coberto com coisas que amamos e deixamos desaparecer. Por aqui não podemos passar. Ali no fundo eles nos olham, sempre opacos e enigmáticos. Corremos por um pontilhado no chão e chegamos até uma urdidura onde as coisas então acontecem. Sentados sobre o caos e olhando, o mundo passa mais rápido. O tempo nunca passa. O mundo sim.
Trazemos para o colo morno os quilos de plantas que antes mergulhamos em um banho suave para um cozimento lento e hipnótico. Quando o tempo quebra, é o som dos galhos secos em delicado incêndio. Pelo pontilhado chegamos a uma área onde as coisas despencam em um vácuo que passa despercebido. Quebramos esses galhos – e ali mais no fundo, enquanto a redenção não chega. Alguns galhos tombam queimados, outros apontam em riste para todos os pontos que as dimensões de uma floresta são capazes de sustentar. Temos de quebrá-los para continuar a travessia que não queremos percorrer. Por aqui não podemos passar. O único modo de partir os galhos é com as mãos secas, e refazer todo o percurso. Vamos adiante, quebrando aqueles galhos? No quintal? Na floresta? Vamos adiante, não olhe para mim: o vento. Uma ostra em cada olho. Vamos, me ajude! Rompa os galhos, aqueles galhos ali em cima, aqueles galhos mais no alto. Não! Não dentro dos ossos! Por deus que não... Ali no alto, sim, isso. Os galhos sim, os troncos não! (afinal, quem pode ser amado no interior de um tronco?). Os galhos mais frágeis (os galhos são a própria floresta existindo em flor suave).
Da radiação escapa uma faísca que incendeia nossos cabelos com muito cuidado, e confundimos o calor excessivo com uma enorme doçura que ganhamos mesmo sem merecer. Com o cérebro em cinzas, adormecemos durante seis dias e temos catorze sonhos muito saudáveis com: ostras em lata, gatos vazando sangue, barrigas abertas em formato de “U” que ninguém se dispõe a costurar, crianças carregando gansos pelo pescoço, possibilidades fechadas, pessoas rindo sem posição numa mesa, etc. Depois de seis dias acordamos e, diante do espelho, enxergamos a resposta estampada na testa: nós passamos sempre, até o ponto em que nos tornamos um outro. A informação assusta – rimos de nervosismo e alívio. Daqui é impossível proceder, mas também uma solução pode brotar incólume (especialmente para nós, que sempre nos recusamos a ter uma vida além da nossa). Agora o conforto cresce dentro do silêncio como um bolo no forno. A festa logo atinge seu ápice. Já quebramos todos os galhos possíveis e, antes que os outros cresçam, dobramos as camadas de água morna por um perfume que preencha de uma só vez as horas insossas, mas sempre em silêncio: Jasminum (em silêncio), Melissa (em silêncio), Matricaria (em silêncio), Camellia (em silêncio), Rosmarinus (em silêncio), Malus (em silêncio), Illicium (em silêncio), Humulus (em silêncio), Hypericum (em silêncio), Lavandula (em silêncio), Cymbopogon (em silêncio). Cinnamomum (em silêncio), Elettaria (em silêncio), Zingiber (em silêncio), Vanilla (em silêncio), Hibiscus (em silêncio), Syzygium (em silêncio), Laurus (em silêncio). Fim.
Tivemos um grande momento rodando por esses arbustos mais altos. Aliás, foi o melhor momento que já conhecemos, por isso agradecemos-lhes: obrigado por nos fazer afundar – nos lodos mais mórbidos! Por deus do céu... Obrigado. Seguramente o momento mais agradável que conhecemos foi todos eles rindo e dançando conosco em nosso inferno, e a festa foi simplesmente exemplar. O dia de hoje termina e a radiação toda diminui após penetrar cada poro, cada célula, cada vaso, cada gérmen de tumor. Amanhã o procedimento recomeça. Esperamos ansiosamente com olhos úmidos que mal se fecham de tanta interrogação.
Tivemos um grande momento rodando por esses arbustos mais altos. Aliás, foi o melhor momento que já conhecemos, por isso agradecemos-lhes: obrigado por nos fazer afundar – nos lodos mais mórbidos! Por deus do céu... Obrigado. Seguramente o momento mais agradável que conhecemos foi todos eles rindo e dançando conosco em nosso inferno, e a festa foi simplesmente exemplar. O dia de hoje termina e a radiação toda diminui após penetrar cada poro, cada célula, cada vaso, cada gérmen de tumor. Amanhã o procedimento recomeça. Esperamos ansiosamente com olhos úmidos que mal se fecham de tanta interrogação.
sexta-feira, 14 de agosto de 2015
Inventário de viagem
Assim que pusemos os pés nas terras gélidas,
tivemos uma grande ou pequena surpresa ao perceber que, enquanto estivemos fora,
as plantas quadruplicaram de tamanho, os gatos engordaram sobremaneira, as
rachaduras da parede chegaram silenciosas até o chão e irromperam em tufos
sísmicos, etc. Os olhos sonambúlicos, porém, continuam intactos, ainda que cada
vez mais pálidos. Entramos em contato com eles numa experiência especular. Nada
foi dito.
Os cadáveres ainda dormem no berço/os talos dos
brócolis se desmancham macios. Retiramos cada ostra da água com cuidado, mas
simplesmente não pudemos metabolizá-las. Todos os dias ali dentro foram o mesmo
dia, e todos os anos foram o mesmo ano. Não soubemos apurar com eficiência se a
irrazão na qual adentramos com moderada intensidade é aquele lago habitual de
nonsense do qual nunca conseguimos de fato escapar, ou se se trata da
forma atual e mais bem acabada da própria razão. Não importa. A realidade é toda
fragmentada, vazada, maior que ela mesma, e nenhuma teoria coerente é capaz de
apreendê-la de forma adequada. A falta de sentido, contudo, não é algo
derradeiro, mas sim a via pela qual tombamos na realidade. Por vezes a falta de
sentido é uma lousa lisa e escorregadia na qual as coisas não conseguem grudar.
Por vezes, porém, as coisas grudam. Olhamos abismados para o mosaico quase
compreensível que se forma e, ainda assim, o mosaico não é o sentido. Mas é que
essa etapa não anula a etapa anterior. As coisas não preenchem a falta de
sentido assim como móveis preenchem um cômodo. Uma coisa não está nem antes, nem
depois, nem sobre e nem embaixo da outra, e sim ao lado. Uma não é sem a
outra. Oscilamos desesperadamente entre elas sem saber que a verdade não está
fixada em um dos lados, mas na travessia entre eles. A travessia é a própria
realidade, e não há oxigenação apropriada. Atravessamos roucos e tontos para o
outro lado enquanto as horas derretem. Recolocamos as ostras na água antes de
voltar (elas choram enquanto dormem e nos colocam pouco a pouco no mais
intolerável estado de nervos). As coisas são sempre pontudas e um pouco
exaustivas. Em desespero, descobrimos o balcão dos ossos e recobrimos
imediatamente antes mesmo de inalarmos o bolor.
Por fim, coletamos alguns objetos para trazer
conosco para o lado de cá: alguns quilos de concreto esfarelado, sementes da
falha geológica incrustada nas paredes e dois crânios murchos que guardamos
embaixo da cama para que velem nosso sono. Trazemos também muitas perguntas
mornas e úmidas dentro de um cobertor, e depois de dias e dias ainda não
encontramos respostas. Deixamos os talos e as ostras, não há lugar para
acomodá-los. Deixamos pessoas, pedras e olhos fantasmáticos. Trazemos junto dois
pares de olhos que nos olham e amam em silêncio e carregamos sempre no bolso
como amuleto. Todo o resto é disforme e não encontra palavra para caber aqui.
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Ossos,
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Sobre as pedras
quinta-feira, 12 de março de 2015
Saída de emergência
1. Antes
Ontem acordamos em um buraco que um sonâmbulo cavou em segredo. Ele disse: não estou interessado. Depois disso o planeta caiu/o sangue coagulou. Ele estava no vento/passava no rosto um tufão. O ar na praia também é salgado. Os corpos emboloram na calçada. Trazemos os cadáveres para o berço/cobrimos com um pano sujo o balcão onde os ossos perdem sozinhos a poeira. A secura do dia levanta como uma tosse. A música que vibrava no ônibus que tremia. Ele disse: o ar na praia é salgado e o tufão (conforme o vento venta). Respondemos: moramos na praia e nossa casa está rachando. Começamos, enfim, a apalpar a realidade sem pressa. Um amor pelas coisas e pessoas infelizes que cresce até não poder mais. Sentamos por um instante e observamos os detalhes de um corpo vivo que envelhece. Os cabelos frágeis se desligam do couro e planam durante segundos no ar pesado até caírem numa velocidade inferior à da gravidade. Os fios soltos compõem um mosaico desafinado no chão. Cobrimos o marasmo com nossos finos fios de cabelo inutilizados. Rompemos os anos num piscar de olhos. Nenhuma vontade é maior que a de morrer sem se reconciliar. Não entendemos nossa própria linguagem e nem a dos outros.
2. Depois
Cavamos um túnel no quintal e escapamos ainda com a poeira do fracasso colada à retina. Nos espatifamos em ostras sonolentas (o instinto de sobrevivência ordena que afundemos antes que o assoalho esteja coberto por fios em silêncio). Cavamos um buraco onde plantamos os destroços, que nem sequer precisam de adubo para brotar. Não tememos mais as memórias cáusticas, o tempo passando, as cavernas tumorais, etc. Por um átimo de segundo olhamos para trás e a massa morna se aproxima em passos suaves, quase sem peso. Ele nos olha deitado. Nós o esmagamos. Nada deu certo. Nós o esmagamos. Olhos amarelos nos olham. Nós o esmagamos. Nós temos de perder. Depois as coisas se amontoam insones e piscando sobre a sombra redonda. Não entendemos. Trocamos a comida de filhote pela de adulto com a esperança de que ele cresça mais rápido e não precise sofrer. Os olhos amarelos agradecem mudos e também umedecem. Vamos embora sem dizer uma palavra sequer. Cortamos os ombros, as cebolas, os eclipses, os rostos suaves e sérios. Não sabemos como viver desse ponto em diante. Os olhos amarelos ficam pequenos no horizonte, porém não somem. O cheiro macio, o triângulo inscrito no rosto, a barriga tenra e morna. Aglomerados numa memória rachada. Trazemos conosco o recheio dos olhos amarelos. Pulverizamos na casa/cresce um oco frio doloroso na espinha (que só um grito abafa). Os destroços brotam e pisoteamos freneticamente para atingir a raiz. O passado não mais se reconhece como catástrofe (um sol possível surge quase líquido de tanta timidez). Por ora respiramos resolutos e aliviados. Sentamos e aguardamos até a próxima parede rachar.
domingo, 23 de fevereiro de 2014
"A tarântula e o pernilongo"
Esse texto é uma proposta de interpretação de Have one on me, de Joanna Newsom. A questão central a ser desdobrada é o processo de rememoração do passado vivenciado pela narradora através de fluxos de consciência e da sobreposição de estados lúcidos e alucinatórios.
Primeiro apresento aspectos biográficos de Lola Montez (o eu lírico da letra) pré-1846, isto é, antes da chegada de Lola à Baviera. Depois, passo a uma interpretação ponto a ponto da letra, à luz dos dados históricos e biográficos coletados.
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Maria Dolores Eliza Rosanna Gilbert nasceu em Limerich, na Irlanda, em 1821. Concluiu sua educação formal em Paris e estudou dança na Espanha. Passou por países como Escócia, Inglaterra, Índia, Espanha, França e Polônia antes de chegar na Alemanha, em 1846. O Teatro Real de Madri e a Ópera de Paris foram dois dos lugares onde ela foi prestigiada por suas apresentações. Tinha cachos castanhos e olhos azuis, descritos por um jornalista polonês como “possuindo todos os tons de azul das dezesseis variedades do miosótis”. Mentia compulsivamente. Dizia a todos que nascera em Sevilha em 1823, e que se chamava Maria Dolores Porres Montez. Ficou conhecida por todos como Lola Montez. Segundo inúmeros relatos da época, ela não dançava (tecnicamente) bem. Entretanto, sua postura voluptuosa e rosto e corpo deslumbrantes causavam furor em todos os lugares por onde ela passava, e o grande público não se importava com as limitações de sua coreografia. Em muitas das cidades europeias por onde passou, Lola fora reconhecida como uma das mais belas mulheres de sua época. Era um ímã para os homens, mas gostava de mantê-los à distância: a decisão tinha de ser dela.
Misturava-se com a aristocracia internacional e com a realeza. Foi assediada por homens poderosos, dentre os quais o vice-rei da Polônia, que ofereceu-lhe uma propriedade rural, um título e inúmeras joias. Ela recusou. Ele zangou-se, ameaçou deportá-la e infiltrou subordinados em sua apresentação para que a vaiassem. Forçada a interromper o espetáculo, Lola desceu e contou à audiência polonesa as ameaças do vice-rei. Resultado: foi aplaudida e escoltada por uma multidão de poloneses. Este incidente coincidiu com um dos muitos levantes de Varsóvia contra o domínio czarista.
Depois partiu para Paris, onde namorou Alexandre Dujarier, um dos líderes do Partido republicano francês. Era extremamente inteligente e falava 9 línguas com algum grau de fluência, segundo relatos da época. Frequentou círculos boêmios intelectuais em Paris, nos quais frequentemente era a única mulher admitida. Foi amante de Franz Liszt, conheceu George Sand, Alexandre Dumas, Balzac e Victor Hugo. Com as discussões dos círculos que frequentava, Lola tomou conhecimento das massas oprimidas e do poder manipulador dos jesuítas. Era fascinada por política e tornou-se uma republicana assumida.
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Se há ou não razões autobiográficas para J.N. ter decidido compor sobre Lola Montez, e mais especificamente sobre a relação entre Lola e o rei Luís I, é algo sobre o qual podemos apenas especular, e que evito nesse texto. O motivo: não há informação suficiente para embasar conexões entre a vida pessoal de Lola e de Joanna, praticamente nada além do fato de o condado onde Joanna cresceu, localizado no estado da Califórnia, ter seu pico mais alto e dois lagos na Tahoe National Forest nomeados em homenagem à Lola, que viveu na região entre 1853 e 1855.
Conforme palavras da própria J.N. à época do lançamento do disco (que leva o mesmo nome da música), a narrativa presente em Have one on me procede de um estado mental da narradora, que oscila entre lucidez e uma espécie de alucinação febril. Esses dois estados não são, contudo, rigidamente contrapostos. Em ambos é possível notar um tom intensamente nostálgico e emocional, em que sentimentos múltiplos (e muitas vezes contraditórios) se misturam para compor não apenas a autocompreensão que Lola tem de sua vida, mas também, em certos momentos, a compreensão que os outros (os cidadãos bávaros, os jesuítas, ou mesmo o próprio rei Luís I) têm a respeito dela. Essa oscilação leva muito frequentemente à interpretação de que a história é narrada ora por Lola, ora pelo rei, ora pelos “outros”. Essa visão me parece equivocada. E pela seguinte razão: há uma clara tensão entre a autoimagem de Lola e sua fama, e essa tensão parece ser descrita do ponto de vista da própria Lola, justamente em um momento em que ela é capaz de fazer uma retrospectiva de sua vida que articula seus principais aspectos, mesmo aqueles sombrios e aflitivos que ela, quando jovem, não podia admitir ou mesmo visualizar adequadamente.
A hipótese mais concreta que encontrei foi a de que a narrativa parte de um estado alucinatório vivenciado por Lola nos dias finais de sua vida, no Asteria Sanatorium de Nova York, em dezembro de 1860. Nessa época, ela já tinha o lado esquerdo totalmente paralisado, possivelmente em decorrência de sífilis cerebral. Entretanto, se essa hipótese é a mais plausível, ela não é, contudo, inteiramente consistente, e tentarei mostrar o porquê mais adiante no texto. É possível pensar também que esse estado de insanidade seja decorrente de uma embriaguez, pois há referências ao abuso de álcool ao longo da música (sobretudo na parte final). Na dúvida, prefiro tomar como determinantes as palavras da própria J.N.: “alternating between kind of a fever and a breaking of the fever”.
Em todo caso, não há problemas em afirmar que a narrativa é dividida em três partes distintas: um momento inicial e um momento final de uma aparente lucidez (os cerca de cem segundos iniciais e os sessenta finais), e entre eles um longo período predominantemente alucinatório e repleto de oscilações de humor, em que Lola relembra momentos significativos de sua vida. É preciso marcar duas coisas: primeiro, não se trata de um momento estritamente alucinatório entre dois momentos de pura lucidez, pois a tese a ser defendida é a de que esses dois extremos se mesclam justamente para possibilitar a rememoração da verdade do passado (embora talvez se possa dizer que os momentos inicial e final sejam mais lúcidos, até mesmo do ponto de vista da melodia e da entonação). Em segundo lugar, paradoxalmente ou não, a abertura e o fecho da música, isto é, os momentos aparentemente mais sóbrios, são os de mais difícil compreensão, o que também colabora para a tese de que é só pelo recurso a distorções e imagens absurdas ou hiperbólicas que Lola consegue relembrar aspectos (em maior parte dolorosos) do passado. Alguns deles, como veremos, serão ficcionalizados por ela, mas trata-se de uma ficção utilizada para fazer a verdade transparecer com mais nitidez.
Para ser mais específico, o bloco intermediário da música parte de uma nostalgia eufórica que acompanha a chegada de Lola à Baviera, passa por uma rememoração da relação entre Lola e o rei Luís, com a qual a narrativa vai ganhando um peso colérico, e arrebenta no final do bloco intermediário com um momento sarcástico, amargo, efusivo e quase que inteiramente fictício. Mas é importante marcar que a narrativa é toda temporalmente descontínua. Há saltos abruptos entre fases distintas, às vezes dentro de um mesmo verso. Tentarei, contudo, na medida do possível, encaixar os elementos em uma ordem cronológica. Para isso, pularei a parte inicial e começarei pelo bloco intermediário da música. Depois volto ao começo e engato junto o final.
Para ser mais específico, o bloco intermediário da música parte de uma nostalgia eufórica que acompanha a chegada de Lola à Baviera, passa por uma rememoração da relação entre Lola e o rei Luís, com a qual a narrativa vai ganhando um peso colérico, e arrebenta no final do bloco intermediário com um momento sarcástico, amargo, efusivo e quase que inteiramente fictício. Mas é importante marcar que a narrativa é toda temporalmente descontínua. Há saltos abruptos entre fases distintas, às vezes dentro de um mesmo verso. Tentarei, contudo, na medida do possível, encaixar os elementos em uma ordem cronológica. Para isso, pularei a parte inicial e começarei pelo bloco intermediário da música. Depois volto ao começo e engato junto o final.
Não é fortuito que Lola comece seu processo de rememoração do passado com uma menção à sua famosa “dança da aranha” (“here’s Lola – ta da! – to do her famous spider dance for you!...”). Trata-se dos anos dourados de sua vida, em que ela obtivera considerável prestígio com suas apresentações de início de carreira em cidades como Madri, Varsóvia, Berlim e Dresden. Em sua mais famosa coreografia, várias aranhas de borracha preta presas ao vestido de Lola caíam no chão enquanto ela se contorcia e fingia expressões de horror (há relatos de que em certos momentos ela erguia sua saia tão alto que a audiência podia perceber que ela não usava nada por baixo). Por fim, ela esmagava as aranhas com os pés, acompanhando o ritmo da música.
Mas aqui, essa lembrança já é trazida para o contexto em que Lola conhece o rei Luís I da Baviera, em 1846. Lola tinha 25 anos quando chegou em Munique. O rei Luís I, como tantos outros antes dele, ficou fascinado ao conhecê-la. Na letra, Lola se refere a ele como “daddy longlegs” (termo usado na Grã-Bretanha para um certo tipo de mosquito ou pernilongo), e se refere a si mesma como uma tarântula. Essa imagem pode ser explicada a partir de diferentes ângulos. Primeiramente, “daddy longlegs” também se assemelha a outros vocativos de natureza paternal evocados na música (“pretty papa”, “pa”). Luís I era 35 anos mais velho que Lola, e vocativos dessa natureza, ao menos na língua inglesa, podem carregar alguma conotação sexual. Há interpretações também no sentido de que haveria aqui uma referência ao sentimento da falta de uma figura paterna, já que o pai de Lola morrera de cólera quando ela ainda era pequena. Em segundo lugar, Lola vai se referir a Luís I também como um “six-legged millionaire”, o que favorece a compreensão de “daddy longlegs” como pernilongo (é que, confusamente, esse termo também pode remeter a uma ordem ou família de aranhas. Seria Luís, afinal, uma aranha também ou um pernilongo?). Uma coisa é certa: um pernilongo seria uma presa fácil para uma tarântula, e essa foi a visão da relação entre Lola e Luís difundida tanto na época quanto posteriormente pela maioria dos biógrafos, em outras palavras, a de que Lola era uma manipuladora insensível em busca de poder e dinheiro e que usou o rei Luís exclusivamente como meio para esses fins. J.N. desconstrói essa visão. Uma biógrafa certa vez afirmou: “existem muitos relatos do fascínio do rei Luís pela dançarina, mas poucos fazem uma tentativa sincera de explicar os sentimentos de Lola pelo rei”. Se anteriormente deixei aberta a questão da razão do interesse de J.N. pela figura de Lola Montez, talvez essa seja uma possível resposta: tratar-se-ia de uma tentativa na contracorrente da reconstrução biográfica “canônica”. Mas essa é apenas uma especulação.
Na verdade, o relacionamento de Lola e Luís teve fortes motivações políticas. Luís I era um governante patriota e um amante das artes. Decidiu que transformaria Munique na cidade mais bela da Europa: guarneceu as avenidas com árvores, erigiu parques e museus, construiu a primeira ferrovia do país, inaugurou o primeiro barco a vapor e edificou um canal que ligava o Danúbio ao Meno. Quando Lola chegou em Munique, Luís I já reinava há 20 anos e era um autocrata extremamente popular. Politicamente, era partidário dos conceitos de liberdade e progresso. Com a ajuda de Luís, Lola estreou no Teatro da Corte. Ela e o rei tornaram-se melhores amigos.
Uma parte dos cidadãos de Munique, contudo, não compartilharam do mesmo entusiasmo. Pouco tempo depois da chegada de Lola, já fervilhavam histórias sobre seu passado. Impulsiva, escandalosa, liberal, anticlerical, mentirosa, impulsivamente franca. Essa era a imagem que boa parte dos cidadãos bávaros tinha dela. A imprensa jesuíta referia-se à ela como “a prostituta apocalíptica”.
No último período de seu reinado, Luís I viu seu poder definhar pouco a pouco com o fortalecimento da influência dos jesuítas, que tinham uma postura claramente reacionária. Se por um lado Luís I tinha o reconhecimento dos cidadãos bávaros por ter transformado a cidade provinciana em um grande centro de aprendizado (Munique havia se tornado uma cidade universitária), o desejo do monarca de proceder em suas reformas políticas havia quase que se exaurido completamente. Ele abandonara progressivamente suas ideias liberais para tratar da vida cultural de seus súditos, e após o movimento revolucionário de 1830, o poder dos jesuítas havia aumentado ainda mais. De repente, Lola aparecia para lembrar-lhe de suas convicções políticas de juventude, de sua intenção de ampliar a liberdade política de seu povo, e, sobretudo, do entrave que um governo controlado pelo clero representaria à conquista dessa liberdade. A influência que Lola passou a exercer sobre o reinado de Luís I causou revolta entre os católicos e conservadores, dentre os quais constava também uma importante parcela dos estudantes.
Mas o rei simplesmente fechava os ouvidos às críticas dirigidas à sua amada, para quem escrevia poemas todos os dias. Um mês após tê-la conhecido, Luís colocou Lola em seu testamento e comprou para ela uma casa na Barerstrasse, reformada por seu arquiteto pessoal conforme as especificações da dançarina. “Tudo que Lola quer Lola consegue” é o que se ouvia nas ruas de Munique quando itens muito apreciados deixavam a pinacoteca para adornar a casa de Lola. Esses eventos, juntamente com sua influência progressiva sobre o rei, tornavam-na cada vez mais mal afamada. Ela não recuava. Acusava a todos que discordavam dela de serem jesuítas. Andava pelas ruas de Munique com seu buldogue inglês, que eventualmente mordia os padres que passavam. Como os principais cargos acadêmicos da universidade eram nomeados pelo clero, os professores se posicionavam contra Lola. Já os estudantes estavam divididos. Um grupo chegou a formar uma fraternidade, que se reunia regularmente na casa de Lola para discussões.
Há um verso que faz clara referência aos conflitos entre Lola e os jesuítas: “at night I walk in the park with a whip between the lines of the whispering Jesuits who are poisoning you against me”. De fato, os esforços não apenas por parte dos jesuítas, mas também de outras camadas da população e da mídia para separar Lola e Luís se intensificavam através de cartas anônimas, panfletos caluniosos e caricaturas. Lola era acusada de ser amante dos estudantes da fraternidade, de despir-se diante da janela aberta, de obrigar suas costureiras a ajustarem suas roupas ao seu corpo nu, etc. Entretanto, mesmo com toda pressão popular e até mesmo com uma carta do papa Pio IX repreendendo Luís por “afastar-se do caminho da virtude”, o rei também não recuou. Ao contrário, propôs inclusive conceder à Lola a cidadania bávara, o que gerou uma revolta sem precedentes.
Mas que ainda não foi o fim. Após nomear novos ministros, Luís foi aclamado com entusiasmo por uma parte considerável do povo e também por governos estrangeiros. O grito “Lola e liberdade” passou a ser ouvido nas ruas. Aproveitando o momento de popularidade, o rei recompensou Lola com a nacionalidade bávara, nomeou-a condessa de Landsfeld e entregou-lhe a Ordem de Santa Teresa com o aval da rainha. Lola recebeu também uma propriedade rural e uma renda anual de vinte mil florins. Isso não apenas aumentou o furor da aristocracia e do partido conservador, como também acirrou a rivalidade entre os estudantes conservadores e os da fraternidade de Lola.
O ápice dessa rivalidade se deu quando um professor católico muito popular censurou o rei por motivos morais, e Luís obrigou-o a demitir-se. Uma demonstração dos estudantes em defesa do professor em frente à casa de Lola transformou-se em tumulto. Enquanto a multidão jogava pedras e quebrava janelas, Lola brindava às pessoas de sua sacada com champanhe e atirava doces. Os estudantes ficaram enfurecidos. Após uma dessas grandes manifestações contra Lola, o rei fechou a universidade e expulsou todos os estudantes estrangeiros. Essa ordem teve terríveis consequências, pois havia ao menos mil estudantes estrangeiros em Munique. No dia seguinte, uma multidão reuniu-se nas praças exigindo que Lola fosse expulsa da cidade. Os ministros informaram ao rei que não poderiam garantir que a polícia seria capaz de manter a ordem por muito tempo. Em 11 de fevereiro, Luís I assinou uma ordem banindo Lola Montez da Baviera.
Lola partiu de trem, e há trechos da letra de J.N. que captam esse momento traumático: (“...and then, later, on a train. It was dark out, I was half-dead”). Depois de todas as declarações de eterna lealdade por parte do rei, uma decisão como essa fez com que Lola despencasse de uma posição em que ela pensava estar segura. Na verdade, ela não compreendia nem a atitude do rei, e talvez menos ainda a do povo, que fora libertado do cativeiro jesuíta graças aos seus esforços. Na música, a partida de Lola Montez parece estar sendo contada do ponto de vista daqueles que estavam fora da relação, e consequentemente de um ângulo bastante superficial (“and the old king fell from grace while Lola fled to save face and her career”), como se Lola tivesse espontaneamente decidido deixar Luís após tê-lo feito perder todo o prestígio que ainda lhe restava.
Lola partiu para a Suíça, depois para a Inglaterra, depois para os EUA, depois para a Austrália (há uma referência na música às apresentações de Lola na cidade de Castlemaine, em um teatro recém-inaugurado no qual ela teria sido a primeira a se apresentar. Nessa estrofe, Lola parece narrar do ponto de vista do rei, que estaria desapontado ao ver até que ponto a dançarina teria sido capaz de ir por fama e dinheiro (“Miss Gilbert called to Castlemaine by the silver dollar and the gold glitter! / well, I've seen lots but never, in a million years would think to see you, here”)). Por último, Lola voltou aos EUA, onde viveu até seus últimos dias.
Há relatos (sem confirmação), porém, de que Lola teria voltado algumas vezes à Baviera para rever o rei. Segundo uma biógrafa, “numa carta para seu amigo von der Tann, Luís declara que Lola implorara para que ele fosse unir-se a ela na Suíça, mas ele preferiu permanecer em Munique”. Há um trecho em que fica visível um sentimento sólido da parte de Lola em relação ao rei (“Though the long road begins and ends with you...”). O que não basta, contudo, para apagar todo transtorno passado (“...I cannot seem to make amends with you, Louis...”), até mesmo porque uma multidão de bávaros raivosos estaria sempre à espreita para capturá-la (“...when we go out they’re bound to see you with me”).
O que nos leva a um aspecto muito importante da narrativa: Lola não é estritamente vilã nem vítima. Por um lado, sua má fama rescendia em todos os cantos (“heaven has no word for the way you and your friends have treated poor Louis / may God save your poor soul, Lola”), e ela era vista como a tarântula predadora que queria capturar o pernilongo em sua teia (“you caught a fly, floating by / wait for him to drown in the dust; drown in the dust of other flies”). Esse comportamento não pode ser enquadrado em termos morais, pois é tão somente o modo de funcionamento natural dessa criatura (“whereby the machine is run and the deed is done”). Por outro lado, ela também é “poor Lola”, e se sente uma criança indefesa nos braços do rei, não hesitando em clamar por sua proteção paternal em momentos de fragilidade (“there’s a big black spider hanging over my door / can’t go anywhere, anymore / tell me, are you with me?”). J.N. realmente não parece estar interessada em uma caracterização de cunho moral. Ela entende que Lola era apenas Lola: destemida e frágil, cruel e dócil, traidora e traída, manipuladora e manipulável. Uma das análises que li apresenta uma descrição que vale a pena ser citada na íntegra: “At the end of the day, Lola was in fact a rather erratic person who lived on the edge all the time, without any kind of boundaries or attachments to society, or even reality, and if you add the excess and the alcohol factor (very obvious in this song) and the need to love and be loved back, it does make sense and it is beautiful. She never did and still does not know who they were, the same way she never truly got to understand who she was and what she was looking for in her wreckless search”. Essa visão não me parece, contudo, inteiramente acertada. Ela perde de vista o engajamento político de Lola, e o fato de sua influência sobre o reinado de Luís I ter atingido uma tal dimensão que, para muitos, a verdadeira líder do liberalismo na Baviera seria Lola, e não Luís. Assim, não me parece nada factível que a dançarina estivesse completamente descolada da sociedade. Mas prefiro não desdobrar essa questão.
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Passemos para o momento final do bloco intermediário, a meu ver a parte mais extraordinária da música. Lola começa a descrever a cerimônia do casamento entre ela e Luís I. Um detalhe, porém: eles nunca se casaram. Certamente, como expressão de um desejo não realizado, essa estrofe é quase que inteiramente ficcionalizada.
No lugar de uma cerimônia solene e feliz, o casamento é um caos completo. O momento de jogar o buquê, por exemplo, parece terminar em tragédia (“I threw my bouquet and I knocked ‘em dead”). Surgem então mais referências a um estado de embriaguez (“bottle of white, bottle of red”), que ajudam a explicar os saltos cada vez mais frequentes na narrativa. Lola aparece ainda mais emocionalmente expressiva (“helpless as a child when you held me in your arms and I knew that no other could ever love me as you loved...”), e em seguida implora para que o rei permita que ela permaneça na Baviera, ou peça para que ela fique (“but help me! I’m leaving!). Lola parece então descrever o momento de sua partida, agregando elementos aleatórios por meio de fluxos de consciência, e as memórias correm tão rápido que é quase impossível examiná-las em alguns momentos. E aqui começa a construção da imagem de um descompasso entre uma realidade projetada e a realidade crua, de algo que deveria ser belo, mas não é – como a sensação áspera da barba por fazer, no momento em que o rei agarra Lola e aperta-a contra si. Em seguida, um amontoado de lembranças de diferentes épocas da vida de Lola, combinadas para formar uma única situação. Lola diz “that night I came upstairs, half-dead and, in your kindness, you put me straightaway in the cupboard...”, o que parece remeter a algo que aconteceu antes de sua ida para a Baviera: quando Lola estivera na Rússia, há relatos de que o czar Nicolau a trancou em um guarda-roupa no momento em que eles tiveram uma de suas discussões políticas secretas interrompida pela aparição repentina de um funcionário (o que mostra que o interesse de J.N. por Lola Montez ultrapassa a relação entre a dançarina e o rei Luís). Em seguida, mais referências a álcool (“...with a bottle of champagne”) e à viagem de trem (“and then, later, on a train”). No trem, ela vê uma estrela caindo no céu, mas não se trata de uma estrela cadente, para a qual ela poderia fazer um pedido, mas sim de um pedaço de carvão cuspido por Deus, que é um rato encurralado (talvez uma alusão ao modo como a própria Lola se sentia no momento?) (“as if god himself spat like a cornered rat”).
O clímax se dá quando Lola se dirige a Luís e, em tons de súplica, pede a ele para que beba junto com ela (“I really want you to do this for me, will you have one on me?” / “don’t you worry for me! Have one on me!”). Em seguida, ela repete o gesto sarcástico que fizera de sua sacada, diante dos estudantes bávaros em fúria, mas dessa vez voltando-se para o rei: ela não somente quer brindar com ele, mas também à ele. Essa é a expressão máxima da fragilidade de Lola, que ironicamente celebra a rapidez com que o rei foi capaz de descartá-la no momento em que teve de optar entre ela e a manutenção de seu reinado (“meanwhile, I will raise my own glass to how you made me fast and expendable / and I will drink to your excellent health and your cruelty / will you have one on me?”). Com base na melodia é possível notar que esse é o momento mais vibrante da música toda. Me parece que a continuação poderia ser decifrada como uma canção sendo tocada pela banda durante a insana cerimônia do casamento de Lola e Luís (e ela dissera anteriormente: “you asked my hand / hired a band...”). A euforia se intensifica progressivamente até arrebentar o instante e fazer a narrativa retroceder para o início. Lola acorda do sonho, da embriaguez ou da alucinação febril e recobra (alguma) consciência.
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Terminemos com a abertura e o fecho da música, que são quase idênticos. A primeira cena é o momento da manifestação raivosa em que Lola brinda aos estudantes de sua sacada. Mas há elementos difíceis de serem bem encaixados com base puramente nos acontecimentos históricos. Lola ouve um copo cair (seria a taça de champanhe?) e pensa: “well, that’s why they keep them around”. O que eles “mantém por perto” seriam as tropas e os guardas que protegiam Lola dos ataques dos manifestantes. Estes vão se tornando cada vez mais violentos, e Luís refere-se a eles como “blackguards” (em francês, canaille), isto é, o “povão”, a “ralé”. Em algum momento, alguém é ferido e morre (“the blackguard sat hard, down with no head on him now”), e Lola se sente mal por não conseguir sentir-se mal o suficiente para deixar o rei orgulhoso (pois ela sabe que ele se sentirá mal por aquele que morreu, enquanto que ela encontra-se inteiramente indiferente, brindando e atirando bombons na multidão).
Logo adiante, Lola está escrevendo uma carta para Luís, supostamente pouco tempo depois de sair da Baviera (o que romperia com a interpretação segundo a qual a narrativa seria proveniente dos dias finais da vida de Lola, e daria margem para pensarmos que a música inteira se passa no momento em que Lola está bêbada e indo embora de trem, o que é plenamente plausível): “by the time you read this I will be so far away...”. Em seguida, ela parece lamentar novamente sua própria partida, ao mesmo tempo reconhecendo que, nas circunstâncias dadas, nenhuma outra via era possível ("daddy longlegs, how in the world am I to be expected to stay?").
O fecho repete a primeira estrofe e termina com Lola perguntando reiteradamente a Luís se ele está orgulhoso dela, se ela conseguiu sentir-se mal o suficiente, se ela agiu certo. Como afirmei no início, a abertura e o fecho são os momentos mais difíceis para extrair uma interpretação convincente, e essa que apresento aqui de fato não me parecer ser. Mas há algo que podemos captar e que se sobressai a esse emaranhado de detalhes que não podemos adequadamente entender. Trata-se da ânsia de Lola pela aprovação do rei, que faz com que ele reapareça como a figura paterna capaz de amá-la como nenhum outro conseguiria. Embora haja momentos em que Lola pareça conscientemente se vitimizar para fazer o rei sentir-se mal por ela.
Cabe portanto perguntar, com base na complexidade abismal que é a relação entre Lola e Luís, se a imagem predador/presa ou tarântula/pernilongo seria mesmo pertinente. Do ponto de vista da opinião popular, é evidente que sim. Do ponto de vista de Lola ou do rei, contudo, essa imagem desmorona com facilidade. Mas, vale a pena lembrar, não é apenas o ponto de vista de Lola que parece estar sendo levado em conta na narrativa, por mais que a voz seja dela. É a tensão entre a imagem socialmente construída de uma manipuladora fria e inflexível e uma autoimagem muitas vezes fosca, trêmula e incerta que me parece guiar a reconstrução do passado empreendida pela narradora.
Cabe portanto perguntar, com base na complexidade abismal que é a relação entre Lola e Luís, se a imagem predador/presa ou tarântula/pernilongo seria mesmo pertinente. Do ponto de vista da opinião popular, é evidente que sim. Do ponto de vista de Lola ou do rei, contudo, essa imagem desmorona com facilidade. Mas, vale a pena lembrar, não é apenas o ponto de vista de Lola que parece estar sendo levado em conta na narrativa, por mais que a voz seja dela. É a tensão entre a imagem socialmente construída de uma manipuladora fria e inflexível e uma autoimagem muitas vezes fosca, trêmula e incerta que me parece guiar a reconstrução do passado empreendida pela narradora.
Referências: Os dados biográficos e históricos foram, em sua maioria, coletados a partir do livro Cupid and the king, de HRH Michael of Kent. As interpretações que me foram úteis retirei de songmeanings.com, genius.com e allthebirds.tumblr.com. A entrevista mencionada está aqui. A música juntamente com a letra está aqui. Uma versão ao vivo memorável está aqui. Não posso deixar de mencionar também o filme extraordinário de Max Ophüls intitulado Lola Montés, de 1955.
sexta-feira, 17 de janeiro de 2014
Não perder de vista
que o sentido está nas coisas. O sentido está nas coisas. O sentido está nas coisas. O sentido está nas coisas. O sentido está nas coisas. O sentido está nas coisas. O sentido está nas coisas. O sentido está nas coisas. O sentido está nas coisas.
sábado, 23 de novembro de 2013
gato ou cachorro
Sem respostas.
O dia é cinza e perfumado
Dor nos ossos.
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Que de longe parecem moscas,
Sem respostas
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