sexta-feira, 24 de maio de 2013

Coisas e lembretes

 

Horas mofadas, passado mofado, morte em vida, silêncio de gelo, profundidade sufocante, sem respostas nem perguntas, nenhuma explicação para nenhum enigma, falta de coragem para aceitar a falta de sentido, viver por obrigação, esperar ansiosamente por melhoras súbitas, vagar sem consciência pelos cômodos,  sonhar com as feridas abertas, tapar feridas com inércia e sonolência, fingir-se de planta, balançar o tronco como uma palmeira, emitir grunhidos como uma palmeira, sorrir falsamente diante dos outros, ler notícias de desastres, lamentar a própria incapacidade de acreditar em fantasmas, criar os próprios fantasmas dentro do quarto, telefonar para fantasmas, etc. Surpreender-se a cada momento com o próprio passado, aceitar o fracasso como uma bênção, pensar em cigarros e não fumá-los, pensar em pessoas e não procurá-las, pensar nas cartas por escrever e não escrevê-las, pensar na vida e não vivê-la, pensar na morte e não morrer. Refazer todo o percurso mentalmente, analisar cuidadosamente as rachaduras, trocar lâmpadas fortes pelas queimadas, desejar com força o milagre que não vem, encontrar sentido no passado, engolir memórias cáusticas, engasgar-se com o passado mal digerido, aguardar a visita de extraterrestres, comparar o próprio fracasso com o dos outros, apaixonar-se pela mesquinhez dos outros, acostumar-se com a própria mesquinhez, amar os pobres de espírito, sentir-se nauseado na presença de pessoas otimistas, esperar pelo futuro sem fazer nada, esconder-se de si próprio, sonhar com rostos inexpressivos, temer a velhice mais do que a morte, viver o caos e a mudez, respirar no escuro, superficialidade em cada atitude, silêncio aconchegante, horas e dias pela frente, mofo e promessa, palavras vazias, nada para viver ou fazer, afugentar a angústia com xícaras de chá e café.

sexta-feira, 29 de março de 2013

dificuldade

 

Como acordar a si mesmo para o mundo e para as coisas, pessoas, pedras?

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Sobre o cansaço

 

Os demônios são como amigos ou parentes, só que eles vivem conosco em nossa casa. Estão ao nosso lado. Abrem ou fecham uma porta para nós, eles não permitem que esqueçamos de nossa podridão e da podridão do mundo. Por vezes, eles auxiliam em alguns trabalhos domésticos. Corrigem uma rachadura do teto, trocam um vidro quebrado, varrem um aglomerado de poeira para dentro da lixeira. Às vezes, quando não têm mais nada pra fazer, eles riem tanto de nós que chegam a ficar sonolentos e depois dormem durante dias, exaustos. Cada um possui uma cama, mas é sempre uma cama invisível, que paira sobre nós quando dormimos. Depois eles acordam e sussuram em nossos ouvidos sobre como corpos jogados em rios apodrecem rapidamente, e como crescem as ervas ao lado dos rios, e como depois as pessoas bebem a água e contraem infecções das mais diversas. Eles insistem em nos lembrar que não há razão alguma para absolutamente nada do que fazemos. Desde quando acordamos e pisamos com os pés mornos nos chinelos até quando anoitece, cada pequeno ou grande evento é vazio. Se ao invés de caminharmos até o banco ou a padaria, optamos por esfarelar um bloco de isopor ou esfregar os azulejos da cozinha, isso não faz a mínima diferença, para nada. Eles não nos deixam esquecer, a todo instante, que a vida podia ser diferente. Embora essa informação escorra por nossos dedos – não sabemos como utilizá-la. Ou não queremos utilizá-la. Tomamos café com eles enquanto rugas muito impercepíveis brotam na nossa cara. O mais interessante ocorre quando dormimos: eles entram em nossa cabeça e nos fazem ter um sonho dentro de outro sonho dentro de outro sonho. Hoje, por exemplo, eu sonhei que estava viajando de ônibus, mas acordei dentro do sonho e percebi que na verdade estava voltando de carro, e então acordei novamente dentro do sono e eu estava na casa de uma velha que não conheço, mas que é da minha família. Então minha mãe disse: amanhã continuaremos nossa longa viagem. E foi então que eu acordei de todos esses sonhos, e eles foram tão vagos e terríveis que só mesmo um demônio poderia tê-los produzido.

Os demônios são humanos mais antigos que os próprios humanos. Por isso a respiração deles é mais lenta e pausada, quase não conseguimos sentí-la, a menos que estejamos muito angustiados. Quando nos angustiamos e emitimos um grunhido ou um gemido, é sinal de que eles estão por perto, olhando por nós, chorando por nós. Quando silenciamos – o que fazemos o tempo todo – eles se afastam entediados. Os únicos responsáveis por cultivá-los somos nós mesmos. Eles não se alimentam de nossos sentimentos, mas da razão. Eles são famintos por racionalidade, nos forçam a enxergar conexões pouco visíveis entre fatos, pessoas, lugares, animais, móveis, insetos, drogas, lagartas, etc. Quando eles estão por perto, simplesmente esquecemos que já vimos um filme e o vemos novamente. Esquecemos que já conhecemos uma pessoa e acabamos conhecendo-a de novo. Esquecemos que já sofremos por um evento passado e passamos de raspão por ele, sangramos até os ossos simplesmente por termos esquecido. Quando eles estão entediados, eles produzem artesanato com os fios de cabelo que perdemos por aí. O que importa nessa história toda é que, como sempre ao nosso lado, eles impedem que saltemos da janela ou algo do tipo. De certo modo, devemos nossa vida a eles. É por isso que nada muda. É por isso que não conseguimos dormir de olhos abertos. É por isso que temos pesadelos com aves e espíritos. É por isso que não conseguimos mais dormir. É por isso que a vida parece apenas um prolongamento da morte que ainda não veio. É por isso que não conseguimos escrever sobre o desinteresse em escrever. É por isso que somos invisíveis e é por isso que a invisibilidade não é confortável como um prato de comida quente. E é por isso que precisamos planejar em segredo um plano para nos livramos deles. É por isso que nos transformamos em arbustos e estamos com os dias contados.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Cabides

 

Meu deus, qual o fundamento de todas essas pessoas que andam na rua?

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

O silêncio não é o fim

 

Pode-se aprender a cavar túneis no silêncio.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

 

It's not meant to be a strife, It's not meant to be a struggle uphill. It's not meant to be a strife, It's not meant to be a struggle uphill. You're trying too hard: surrender, give yourself in. You're trying too hard. You're trying too hard. It's not meant to be a strife. It's not meant to be a struggle uphill. Sweetly. It's not meant to be a strife. To enjoy. It's not meant to be a struggle uphill. It's warmer now, lean into it, unfold in a generous way, surrender. It's not meant to be a strife. It's not meant to be a struggle uphill. Undo, undo. It's not meant to be a strife. It's not meant to be a struggle uphill. I'm praying to be in a generous mode. The kindness kind, the kindness kind. To share me. Quietly ecstatic. It's not meant to be a strife. It's not meant to be a struggle uphill. Undo, undo. If you’re bleeding, undo. If you’re sweating, undo. If you’re crying darling, undo, undo.

domingo, 4 de novembro de 2012

terça-feira, 9 de outubro de 2012

meu deus, ainda bem que a gente não existe

 

Meu deus, ainda bem que a gente não existe.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Aqueles que viveram os dias

 

Sem saber como começar a dizer tudo, ele simplesmente exclamou apático: “mas que belo dia agora que está acabando”. É claro que ele foi rude, pois eles haviam passado o dia juntos. A verdade é que eles se amavam tanto que a única saída para tanto amor era a morte. A morte seria capaz de fixar o amor como uma verdade eterna e imutável, mas não a vida. Conforme seguiam o fluxo da vida, cada um em seu barco lascado, eles sabiam que poderiam ser separados por ventos que sopravam fortes e confusos, de todos os lados e sem direção definida. Por isso, tudo o que tinham, além do passado e das memórias, era o momento presente, que tremia de ansiedade e desespero. Enquanto fossem jovens, eles seriam ansiosos e desesperados, e só seriam apaziguados quando ficassem acostumados a viver e a envelhecer. Era muito difícil engolir que não havia resposta para nada que acontecia, que as respostas deveriam ser inventadas, e eram sempre póstumas e muito ruins. Deveriam contentar-se, portanto, com a falta de sentido em tudo o que faziam ao longo dos dias, desde botar uma xícara de molho na pia, até começar uma discussão por causa de um cabide ou de uma lâmpada. A vida era tudo aquilo que havia entre aquelas paredes, podia-se livremente cozinhar uma sopa sabor glutamato monossódico ou abrir e fechar uma gaveta. Atividades como essas faziam com que um dia passasse e viesse outro, idêntico ao anterior. Depois os dias ficavam desenfreados, atropelavam-se uns aos outros numa corrida rumo a lugar algum. Quando uma carta chegava, eles não sabiam de onde ela tinha vindo. Se eles eventualmente parassem para contabilizar os anos que os constituíram, o que descobririam? Que os anos eram feitos de unhas roídas e todo tipo de fluido corporal? Pois de que adianta contabilizar o que passou, embora seja só o que nos reste? De que adianta pensar sobre o que adianta e o que não adianta? É preciso coletar os dez mil eventos diários totalmente insignificantes e salvar-se neles. A salvação só pode estar na calda do pudim que não deu certo ou na parede escura de mofo. Além deles não há mais nada, só nossa cara de espanto diante do futuro que vem rápido para engolir a nós e nossas memórias que são só nossas.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Como escrever sobre o desinteresse em escrever?

 

Como escrever sobre o desinteresse em escrever?

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

“E por aí vai”

 

Queria ser outra pessoa também, e por aí vai.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Olhe esta samambaia

 

Ela, por exemplo, jamais confessara a um padre que tinha medo de morrer; em vez disso dissera-lhe cheia de intenções e com grande refinamento de alusão: “acho tão mais bonito uma pedra que um passarinho” - com isso talvez quisesse dizer, quem sabe, que uma pedra lhe parecia mais próxima da vida que o passarinho que no seu vôo lhe lembrava a morte, o que, naturalmente, significaria que ela tinha medo de morrer. O padre não entendeu, e ela saíra inconfessada, espantada por não ter tido uma resposta. Havia anos aquela moça não tinha a satisfação de um sucesso.
- Olhe esta samambaia! disse ela para o homem porque uma pessoa não pode dizer “eu te amo”.

 
Este é o drama de Ermelinda, de A maçã no escuro. Tanto quanto nós, ela sabe que a realidade não se encaixa inteira, sem restos, nas palavras. Em geral, as palavras depõem contra nós. Como usá-las, afinal? Quando as pronunciamos, o fazemos com uma carga de memórias, sentimentos e tormentos passados que elas são incapazes de transmitir. Quando falamos, nós às vezes queremos nos falar por inteiros, mas como não conseguimos, falamos as palavras. Quando, por outro lado, queremos nos esconder, usamos a generalidade fria das palavras, que ecoam como um som qualquer, sem valor. Se as usamos, somos mal compreendidos. Se não as usamos, somos incompreendidos. Quando dizemos “eu te amo”, geralmente queremos dizer tantas coisas que o que dizemos passa por banalidade. Quando pedimos para que alguém na mesa nos passe o arroz, as pessoas não sabem que na verdade queremos outro mundo, outro corpo, outra vida, outro modo de existência ou inexistência. Talvez porque, quando dizemos algo, depositamos esse algo diretamente num campo de interpretação alheio, e as pessoas interpretam como lhes é conveniente. Seria preciso dispensar as palavras e viver com base em gestos e grunhidos, o que jamais funcionaria, pois as pessoas nos pedem todos os dias um prato de palavras para comer. Podemos dizer a elas nossa situação emocional recorrendo a metáforas ou nomes científicos de besouros, ou podemos passar horas comunicando a elas sobre a impossibilidade da comunicação. Mas há sempre um problema: se dizemos que estamos alegres, quando na verdade estamos alegres, excitados e rancorosos, bem, como encontrar uma palavra que traduza isso tudo sem passarmos por doidos?
 
É por isso que dou o meu apoio para pessoas que, como Ermelinda, querem dizer “eu te amo”, e no lugar dizem “preciso ir, o sapólio acabou”. Também não culpo aquelas que demoram tanto para dizer, que as palavras apodrecem e se desmancham dentro delas. E aquelas que guardam palavras que cozinham no estômago e causam feridas incômodas. E aquelas que sabem que as palavras nunca dirão tudo. E aquelas que são tão conformadas que nem querem que as palavras digam tudo. E aquelas que são inconformadas e tentam inventar palavras para emoções que não existem. E aquelas que colecionam palavras antigas em diários, memórias ou vidros de conserva.
 
Pois, afinal de contas, nós queremos mesmo que as pessoas nos compreendam? E se tememos que a compreensão venha acompanhada de desânimos e decepções? E se não queremos que nos compreendam porque não queremos nos compreender? E se, por termos acolhido a incompreensão com tanta hospitalidade, rejeitamos e rejeitaremos para todo sempre qualquer tentativa de explicação? E se não queremos nos compreender por medo da tonelada de responsabilidade que cairá sobre nós no momento em que soubermos por que diabos continuamos vivendo? E se fomos nós mesmos que pisoteamos as palavras para que pudéssemos continuar tomando café diariamente com os fantasmas do passado? E se as palavras insuficientes são a salvação que insistimos em evitar?

domingo, 22 de julho de 2012

Acerto de contas

 
- Por que o tempo tinha de passar desse jeito? Queria que você fosse criança para sempre. Aquela criança tão linda, tão meiga, que bebia carpex, shampoo.

- Sim.

- Foi muita irresponsabilidade de sua parte deixar o tempo passar dessa forma.

domingo, 15 de julho de 2012

Salvação pela cultura

 
 
Estou cada dia mais convencido de que nossa única salvação provém da cultura. Ao menos para mim, todas as outras possibilidades não se sustentam ou pouco se sustentam. Não podemos nos apoiar sobre a nossa “natureza humana” que, se de fato existe, é sem sombra de dúvida degenerada e mesquinha. Poderíamos certamente nos apoiar na religião, pois esta é um meio através do qual o homem se expressa culturalmente. Só que há um problema: nós já fomos avisados sobre o desencantamento do mundo, e sabemos que nada mais há de mágico ou sagrado nos céus, na natureza e muito menos nas construções humanas que promovem alguma espécie de espiritualidade. Nós poderíamos então dispensar as construções humanas corruptas e falíveis e nos apoiar em algum deus ou alguma forma de espiritualidade. Só que também fomos avisados sobre a passagem para o materialismo, e sabemos que os espíritos são abstrações, meros produtos do processo de reprodução material da sociedade, e que a divisão entre corpo e alma é ela mesma uma mitologia, um reflexo da divisão de trabalho.

Mas se o apoio de uma força divina infinita está fora de questão, a força humana das pessoas de nosso convívio social é também falível e finita, bem como nós mesmos somos falíveis e finitos. Por isso, não podemos tomar as pessoas como base e também não podemos tomar a nós mesmos como base (embora tenhamos de fazer as duas coisas em algum grau, pois somos seres sociáveis e o nosso auto-reconhecimento depende profundamente do reconhecimento do outro). Com isso, nosso fundamento não pode residir nem em nós mesmos, nem nos outros, nem na natureza e nem em Deus.

Só nos resta a cultura (ou as drogas). Quando falo em cultura, não designo algo muito específico. Falo em cultura como algo que nos alivia para continuarmos vivendo e envelhecendo. Simplesmente o fato de um filme, livro, música ou peça de teatro contribuir para preencher nossos dias miseráveis e ocasionalmente nos tornar seres humanos melhores. Além é claro da força política, subversiva e às vezes até revolucionária que os bons produtos culturais possuem.


Mas e se alguém disser: “a cultura também é ilusória”? Pois eu concordo plenamente. Pois e o que não é ilusório? De qualquer forma sabemos que temos que criar nossos próprios produtos para preencher nossos vazios. Eu não tenho problemas em admitir que a crença na natureza, em Deus, nas pessoas, em nós mesmos, na cultura, no trabalho, na energia dos chacras, no amor, na ciência, na filosofia, na homeopatia, etc. são todas ilusórias enquanto produções de um ser humano falível e finito. Todas elas são tentativas de salvação pessoal. Seja por alienação da realidade, seja por imersão real em seus contextos.
 
Eu sei que o termo “salvação” é bastante teológico e destoa da orientação ateia do meu texto, mas eu insisto em utilizá-lo, pois acredito que o homem é um bicho tosco, insignificante e neurótico, e precisa de uma salvação, só que de uma salvação mundana, pela cultura.
 
 
Esse texto que eu acabei de escrever, por exemplo, é ele mesmo uma tentativa de salvação pela cultura. Ele também é ilusório, pois tenta colocar um fundamento lá onde ele mesmo sabe que não há qualquer fundamento válido. O meu texto sabe que o único fundamento válido é a morte. Mas ele recalca isso para poder continuar a viver, ele faz de conta que há algo com o qual ele pode combater a morte, e que é a cultura. Ainda que ele saiba que não há nada no mundo que possa contra a morte, e que o máximo que a cultura pode realmente combater é o tédio e a ignorância. Que às vezes são piores que a morte.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Um sonho absurdo: galinha de camiseta

 

Fui a um sítio e encontrei uma moça chamada Cristina. Ela lavava o bico de uma galinha que vestia uma camiseta azul. A imagem da galinha de camiseta me alegrou e me espantou. Havia também três cachorros muito bonitos. Eu perguntei a ela o nome deles e ela me respondeu: “Drei Studien zu Hegel”.

sábado, 23 de junho de 2012

Mini crônica sem título

 

Antes me doía a cárie, agora me dói a obturação. 

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

“esboço”

 

 

O grande segredo é que não há segredo algum: a venda foi retirada de nossos olhos. Seguimos nosso caminho sem perguntar nada a ninguém. Nas segundas-feiras pela manhã, tomamos nosso café com biscoitos estragados e seguimos pela rua esperando que um ônibus bastante vasto e pesado nos atropele: é nossa luta diária, luta para sobreviver. Queremos que todos se voltem contra nós, respiramos assim uma certa rebeldia. Uma vez eu percebi que dentro da garganta havia um pequeno anel prateado, e esse seria o fim da própria vida engarrafada em barris de aço: um anel na garganta que propagava ondas sonoras pelo céu de ventos calmos.

Um belo dia, na praia, o sol era aquele que refletia nos tocos. As pessoas se sentiam alegres por reunir todas as suas forças e depositá-las sobre os parentes. A avó estava morta e enterrada no morro. O avô agonizava no hospital, achavam que ele só tinha uma hérnia. Os tios viviam sua vida horizontal mesmo que nunca tivessem muito dinheiro no bolso. Os primos eram a alegria faiscante da árvore genealógica: sentiam-se como se estivessem predestinados. Até mesmo netos, bisnetos e também os anexos e agregados viviam como se nunca tivesse havido tristeza naquela família, pois se estavam todos na praia e havia uma onda enorme vindo em direção a eles, era como se o dia terminasse engolindo-os e cuspindo-os, como a própria força vital insiste em fazer conosco.

Dessa forma, em um grande porto muito próximo dali, havia um casal caminhando. Dentro de um poste de luz, uma ossada de cachorro sobrevivia à maresia. Nunca naquele lugar o mar avançara tanto. As pessoas pensavam que suas casas seriam carregadas pela enxurrada e, com elas, todo amor, amizade, companheirismo e gratidão. Não sabiam que isso tudo já estava há tempos afogado sob o denso oceano que viam no horizonte, mas era melhor assim. Pensar que se é feliz era a mesma coisa que ser feliz.

Um belo dia, um cachorro um pouco bravo adentrou um poste levando consigo a areia mole e escura da praia, e assim todos os animais queriam fazer o mesmo: perceberam que a solução para a vida morna e insossa daquele lugar era adentrar os postes e passar a viver como um poste. Inclusive os estudos mais recentes de uma universidade local apontavam para o fato de que é política e ecologicamente correto se transformar em poste, e que é possível fazer isso tanto aos sábados quanto nos dias úteis. Por isso até mesmo as pessoas achavam que viver como um poste seria bastante mais prazeroso: assistiriam com sua sensibilidade aguçada de poste o mar avançar e logo em seguida seriam carregadas junto com entulhos, as árvores, os caminhões de lixo, os pequenos bebês e suas fraldas moles, e todos juntos, em abundante imundície, despencariam no pé do morro e seriam desintegrados pela força da água salgada.

(…)

Enquanto o mar mesmo só queria avançar. Os postes caíam duros em dia de natal. No ano novo, por outro lado, havia grandes quilos de verdura depositados sobre as calçadas, e as donas-de-casa passavam por lá e escolhiam o que de mais estragado encontravam para o preparo de belas sopas que seriam congeladas para serem degustadas somente no inverno. Se, por exemplo, uma pessoa coletava um pedaço de salsão, não havia quem pudesse descartar as folhas de rúcula que cozinhavam quietas do outro lado da calçada. E se algum rapaz passasse por ali naquele momento e resolvesse guardar uma espiga de milho mofada para sua namorada, poderia fazê-lo com tranquilidade, já que estavam todos muito ocupados com seus afazeres para recriminar uma singela demonstração de afeto. Tudo em alguns momentos conduzia-se como se não houvesse qualquer impedimento. Até mesmo as velhas cujos braços não tinham mais força para segurar, pegavam as cenouras azuladas de agrotóxicos com tanta humildade e doçura que os legumes derretiam-se em suas mãos como forma de agradecimento. Elas então depositavam esse purê roxo na sacola de feira e seguiam seu rumo para os casebres do morro.

De vez em quando, no entanto, essa calmaria e normalidade quase sonsas com que as coisas aconteciam na vila eram estorvadas: nos dias de inverno em que a umidade alcançava níveis alarmantes e insuportáveis, um fungo cuja espécie era ainda desconhecida dos homens se espalhava sobre a areia e deixava a praia inabitada por dias, pois as cascas alaranjadas que se enraizavam por tudo criavam um ambiente altamente tóxico para as crianças que vinham ali diariamente rolar na areia e esmagar conchinhas.

(…)

Ele havia cansado de esperar. Dava trabalho demais ser quem ele era. Um dia o sol quebrou-se em dois e as pedras rolaram vivas do precipício. A avó manteve a postura austera, pois sabia que a educação deveria ser dada. A qualquer custo, mesmo se fôssemos crianças tolas, a educação deveria ser dada sem custos.

(…)

Ele continua pensando que chamaria mais atenção ao se expor do que ao se esconder. Permanece, assim, escondido. Mas no ato incomum e turbulento de se esconder, ele se torna todo exposto: sua introversão é provocativa e ele não sabe. Mas, em nome da limpeza do cenário interior, melhor é permanecer contido. Na noite escura, quando o sol se torna fraco para arremessar a dor para longe, surgem os sapos que pulam na estrada e na praia os postes esqueléticos permanecem pendurados na calçada morna. Dentro de nós mesmos há o desconexo: fatias de pressões diversas, paixões queridas, todas solapadas pelo inocente relevo de nossos sonhos infantis.

Na praia é que as coisas realmente se desenvolvem: enquanto estamos presos às palavras, pouca coisa relevante acontece. Nesse cenário ao mesmo tempo raso e exacerbado havia W (seu nome é enfim dado) e suas múltiplas manchas solares pelo corpo. Seus braços eram recobertos de pequenas rochas semiderretidas, e os contornos eram graves como se não houvesse o luar para desencardir seus ombros. W vivia em uma casa perto dos postes, à beira da praia. Havia árvores frondosas e tridimensionais perto do quintal. Dentro de casa, café molhado nas panelas e da janela via-se o espetáculo mundano acontecendo. Havia duas cadeiras na mesa: uma para W e outra para sua mãe, e não havia mais nada que sentir naquele ambiente escuro e quieto, fresco com janelas quebradas, mas preenchido por vapores densos. E também havia a maresia.

(…)

Mas naquele dia ele acordou bem cedo pela manhã, quando ainda é madrugada e as pessoas decidem sair para trabalhar. Não queria mais pensamentos, queria estar cru diante dos fatos que se desenrolavam na baía. Talvez pudesse pegar um barco e remar até a ilha, mas lá passaria a tarde e o dia todo quem sabe, e depois voltaria como se nada tivesse acontecido, porque de fato a vida seguiria igual. Tudo sempre continuaria igual, era essa a impressão que ele absorvia dos fatos sempre medíocres. Mudanças são sempre penosas, e o mais cômodo é continuar incomunicável. Sim, mas incomunicável na praia, o que lhe dava um charme mais agudo.

Era difícil levantar-se da cama. Ouvia abelhas cujo zumbido se propagava até atingir o início de formação das ondas do mar, trezentos e setenta bilhões de anos atrás. Também os dias cresciam sórdidos, cheios de fermento. As folhas ameaçavam querer cair das árvores, e havia carros que se desprendiam dos abismos, e as pessoas se espatifavam no chão. Nunca haveria tanta podridão assim. O mundo caía cheio de vísceras suculentas, depositárias de sangue, fezes e urina que vazavam dos corpos docemente, enquanto alguém cogitava a hipótese de ir até a praia. Ele nunca saberia que naquele dia a praia não era para ser vista, como se cogumelos pudessem se esconder por livre e espontânea vontade sob a camada cheirosa de grama. A cama era uma agradável opção. O travesseiro encharcado de calor do outono recém-chegado.

 

(…)

domingo, 17 de outubro de 2010

A Desconstrução

 

A primeira pessoa chega carregando uma bolsa cheia de cacos de vidro. O dia do aniversário passou, as mangas caem podres das árvores, os helicópteros se arrastam silenciosos. Senta-se um pouco com uma xícara de chá preto meio morno e pensa em tudo o que está havendo, desde os pequenos fatos que embolam a língua, até os contatos maciços (mas abstratos) como caixas de vento prestes a explodir. É tudo imperceptível, conclui, e a vida segue sem cor alguma. Ela pensa assim: não gostaria que ela se aproximasse subitamente, pois a primeira atitude cabe a mim, mas só tomarei alguma atitude, no entanto, se souber que serei bem correspondida. A segunda pessoa está do outro lado da cidade e olha as bolhas que o asfalto forma quando o dia alcança sua metade e pensa a mesma coisa que a primeira pessoa pensou. Resultado: ninguém toma atitude alguma e elas não se encontram. Ainda assim o dia segue: a economia se constrói segundo seus próprios ritmos, polvos se movimentam com facilidade nas águas geladas do Pacífico, caminhões se acidentam na serra do mar. A primeira pessoa pensa que, para fazer uma desconstrução, melhor é começar não falando. Só que sem falar, a criação é impossível. Ela pensa que a melhor forma de contato humano é aquela imediata e pouco durável: aquela pessoa que te olha duas vezes na rua e se vai. Isso porque a ideia que fazemos da pessoa não corresponde de forma alguma ao que a pessoa é, é pura constelação de sonhos. O contato duradouro tende a estragar o conteúdo imagético e superficial que, embora importantíssimo, é constantemente negligenciado. Nós que, buscando a essência, deixamos de sentir aquele afundamento no peito que é a endorfina pulsando, e que se dá pela superficialidade das coisas. Não que o contrário seja obrigatório: da profundidade do contato não se segue necessariamente a superficialidade do sentimento, mas receio que haja uma séria tendência oculta. Porque a dimensão do amor, pensa ela, é a dimensão de um sonho, e um sonho é, ele mesmo, apenas sombra.* Mas pensa que há alguma chance, e isso na verdade estraga sua vida: o fato de ser jovem e haver chance. Teme, no entanto, o dia da virada dos quarenta pros cinquenta, em que se questionará aflita: Como fui irresponsável ao ponto de permitir que o tempo passasse dessa maneira? Dali em diante tudo será compactado em uma aposentadoria minúscula, em consultas médicas regulares e no questionamento inevitável: Será que viverei para ver a minha morte? Eu não sei viver, pensa ela. E quem é que sabe? Eles sabem. Ora, sabem viver aqueles que pensam que sabem viver, mas nós que admitimos o fracasso estamos já condenados a nos encantar com o novo sabor da gelatina. Ainda assim, eu vivo, e vivo porque sou jovem. Formula então uma indicação: não procurar ninguém por seus supostos atributos naturais, mas procurar aquele que melhor souber construir e utilizar sua máscara. Sim, é algo que pode ser feito. Não que esta indicação nos conduza necessariamente a melhores juízos e a uma compreensão mais aguda, porque o que mais nos assusta, sem dúvida alguma, é o excesso de amor, e não sua falta. Estamos absolutamente acostumados com sua falta, e não assusta. Não assusta porque na vida diária, na vida prática mesmo, a neblina vai se dissipando e nos tornamos esclarecidos sobre aqueles aspectos da vida que queríamos manter até o fim em segredo, e nada mais sobra de oculto nas coisas mundanas e nas coisas divinas. Ocultos somos nós mesmos. A primeira pessoa decide então manter-se oculta e fazer uma desconstrução. Não de si, mas da segunda pessoa. Arrancou de si todas as memórias que possuía, misturou gin e limão e foi até a janela apreciar o movimento dos carros antes que a novela começasse.

 

* Hamlet, Ato II, de Shakespeare.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

“Bom dia”

 

Este é um dia em que os ventos correm,
As manchas
da
calçada
engolem os pés que pisam
um por um,
dois por dois,
três por três…

Árvores rastejantes.

Um papagaio se balançando
na
rede
da
varanda.

Ah, que alegria o verão! O natal…
O inferno que é a nossa vida
tão pequena
e miserável.

Os carros passam um por um.

Na prateleira do supermercado: damascos.
Dentro dos meus olhos: a sua visão.